AS PLANTAS, cuja incrível diversidade é resultado de 3.8 bilhões de anos de evolução, tornam possível toda a vida e resistem a praticamente qualquer ameaça, exceto à capacidade destruidora dos humanos. Da botânica veio a genética de Mendel e Lamarck, formalizando a prática paciente de cultivo de plantas, responsável por 10 mil anos de agricultura.
Mas agora, tendo por justificativa a necessidade de alimentar uma sempre crescente população humana, surge um tipo completamente diferente de botânica. Fundamentada na tradição cartesiana de reduzir um todo complexo a simples partes individuais, ela busca alterar genes isolados sem considerar a totalidade interativa dos ecossistemas. Sua ambição é substituir a sabedoria da natureza com a habilidade humana, para tratar a natureza não como um modelo e mentor, mas como um conjunto de limites que devem ser superados quando forem inconvenientes. Essa nova disciplina não se propõe a estudar a natureza, mas a reestruturá-la.
A nova botânica alinha o desenvolvimento de plantas não com seu sucesso evolucionário, mas com sua viabilidade econômica: garante a sobrevivência não dos mais aptos, mas dos mais gordos. Sementes de polinização aberta de alto rendimento abundam. Os novos cultivos foram criados não por serem produtivos, mas por serem patenteáveis. Seu valor econômico é orientado não no sentido de ajudar na alimentação de fazendeiros de subsistência mas no sentido de engordar mais gado para alimentar os ricos já excessivamente alimentados. Mais preocupante é a aceleração que se impôs sobre a transformação genética das plantas: dos passos cautelosos da evolução biológica, ela agora ocorre em uma velocidade ditada pelo relatório de lucros previstos para o próximo trimestre. Tal pressa torna impossível a previsão e a prevenção. As conseqüências não intencionais surgem apenas depois, quando poderão não mais serem consertadas, porque a criação de novas formas de vida não é algo reversível.
Na natureza, todos os experimentos são rigorosamente testados durante milhões de anos. Mutações individuais se aventuram em ecossistemas que não perdoam e testam seu poder de sobrevivência. O que está vivo hoje é o que funcionou. Somente sucessos rendem descendentes. Mas no admirável mundo novo do artifício, novos organismos são testados brevemente por seus criadores em laboratório e no campo, e depois comercializados em massa por todo o mundo. O Departamento de Agricultura dos Estados Unidos já aprovou aproximadamente 50 cultivos geneticamente modificados para uso ilimitado. Pesquisadores norte-americanos testaram mais uns 4500. Mais da metade dos grãos de soja e um terço do milho agora contém genes enxertados de outras formas de vida. Você provavelmente deve ter comido algum ultimamente - involuntariamente. A suposição oficial é que eles são diferentes o suficiente para serem patenteados, mas suficientemente semelhantes para produzir alimentos idênticos. A insistência da Europa em rotulá-los, para permitir que as pessoas escolham o que estão comendo, é considerada uma barreira irracional ao livre comércio.
A agronomia tradicional transfere genes entre plantas cuja proximidade de parentesco permite o seu cruzamento. A nova botânica transfere genes mecanicamente entre organismos que jamais poderiam se reproduzir naturalmente: um gene anti-congelante de um peixe passa a ser parte de um morango. Tal colcha de retalhos, feita por pessoas que raramente estudaram biologia evolucionária e ecologia, faz uso da tal "engenharia genética" - um termo duplamente inadequado. Ela manipula com genes mas não tem nada a ver com genética. "Engenharia" implica entendimento dos mecanismos causais que vinculam ações a efeitos, mas ninguém entende os mecanismos através dos quais os genes, interagindo entre si e com o meio ambiente, expressa seus traços. A manipulação transgênica insere genes alienígenas em localidades aleatórias do DNA de uma planta para ver o que acontece. Isto não é engenharia. É a industrialização da vida por pessoas com um estreito conhecimento dela.
Os resultados são também mais preocupantes que aqueles produzidas pela simples manipulação mecânica, porque diferentemente dos engenhos mecânicos, organismos geneticamente modificados se reproduzem, seus genes se espalham, e os erros literalmente assumem vida própria. Genes resistentes a herbicidas podem escapar criando "superpragas." Genes inseticidas poderão matar além de seus alvos intencionais. Esses dois problemas já ocorreram. Seus efeitos ecológicos ainda não são conhecidos. Entre outras recentes surpresas desagradáveis, genes enxertados aparentam ser extraordinariamente inclinados a se espalharem por outros organismos. Pólen de canola pode espalhar genes enxertados por um raio de mais de um quilômetro e meio, e cultivos comuns podem se misturar com ervas daninhas com as quais não tenham parentesco algum. O inseticida Bt geneticamente enxertado em pólen de milho mata borboletas monarca. Esse inseticida, diferentemente de seu ancestral natural, pode se desenvolver no solo, e a resistência da semente de milho a ele é, aparentemente, um traço genético dominante, portanto, procedimentos planejados para reduzir a sua resistência não funcionarão.
Pode ficar pior. A divisão dos seres vivos em espécies parece ser a maneira que a natureza escolheu para manter patogênicos em uma caixa onde eles se comportem decentemente (eles aprendem que matar o hospedeiro não é uma boa estratégia). Transgênicos podem permitir que os patogênicos atravessem a barreira entre espécies e entrem em novos domínios onde eles não terão a menor idéia de como se comportar. É tão difícil erradicar um gene selvagem indesejado que nós intencionalmente só o fizemos uma vez: com o virus da varíola.
Como a evolução é um processo fundamental, ela deve ocorrer em todos os níveis onde for fisicamente possível, descendo até e incluindo o minúsculo ecossistema do genoma. É imprudente supor, como geralmente fazem os "engenheiros genéticos," que mais de 90% do genoma é "lixo" porque eles não sabem para que serve. Essa coisa misteriosa, desorganizada e antiga é o contexto que influencia como os genes expressam seus traços. É a versão genética da biodiversidade, que em ecossistemas maiores é a fonte de resistência e sobrevivência.
A ciência transgênica está revelando perturbadores paralelos históricos a outra invenção problemática: a fissão nuclear. Nos dois casos, a habilidade técnica evoluiu mais rapidamente que as instituições sociais. A habilidade ganhou a corrida contra a sabedoria. As duas invenções fizeram vista grossa a questões fundamentais, freqüentemente do domínio de outras disciplinas, incorretamente consideradas irrelevantes. As duas passaram dos limites: foram longe demais, rápidas demais e passivas demais.
Agora, nossas escolhas mais importantes não estão entre as indesejadas alternativas de se explorar energia nuclear ou congelar no frio, cultivar transgênicos ou morrer de fome, mas entre aquelas boas e más escolhas nada ortodoxas. Para cultivos, a melhor escolha seria a distribuição mais justa dos alimentos cultivados por uma agricultura respeitável e biologicamente bem informada, que pare de tratar o solo como uma coisa suja. Mas só haverá escolhas lúcidas adotadas a tempo se levarmos a sério a disciplina dos mercados conscientes e a sabedoria da democracia bem informada. Os botânicos têm um dever profissional de ajudar-nos todos a entender as diferenças vitais entre a biologia e a biotecnologia, entre as fundações de sua ciência tradicional e o empreendimento cientificamente imaturo mas comercialmente agressivo, um bilhão de vezes mais novo, que quer substituí-la.
Amory Lovins, físico, e Hunter Lovins, advogado e cientista social, são fundadores do Rocky Mountain Institute, que detém os direitos sobre este artigo. Uma versão não condensada deste artigo encontra-se em www.rmi.org/biotechnology/twobotanies.html sob o título original "A Tale of Two Botanies".
Traduzido por Helder L. S. da Rocha