Nelson Rodrigues

Resumos e adaptações de cenas
de peças de Nelson Rodrigues.

Estes textos são resultantes de trabalhos ou inspirações estimuladas pelo ambiente criativo surgido na oficina do Espaço dos Satyros, coordenada pelos atores Ivam Cabral e Nora Toledo. Teve início em março de 2004.

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AS TRAGÉDIAS ULULANTES

Helder da Rocha

Reacionários? Odiava todos!
Dizia "ainda que me obrigues
Não me deixo levar por seus engodos."
Era mesmo anti-Nelson Rodrigues
Amava os costumes e tradição
Combatia toda crua exposição.

Mas um dia este tão nobre senhor
Maculou o seu álbum de família
Ao ser preso por atentado ao pudor
Tinha marcas de batom na virilha
O beijo no asfalto o deflorou
Seu vestido de noiva, o condenou.

Sofrendo na certeza mais severa
Que toda nudez será castigada
Pensa em Dorotéia, filha amada
E no anjo negro, a quem se dera
Para ter, dentro de si, a serpente
Beijar sua boca de ouro ardente.

Suicidou-se pouco antes das três.
Quando afogava-se na privada
Ouvia-se a valsa número seis
Deixou carta para a mulher amada
Disse "Perdoa-me por me traíres
E eu te perdôo por me ferires"

A filha, destino de seus carinhos
Era bonitinha, mas ordinária
Tinha matado os sete gatinhos
Da sua tia octogenária:
A mulher sem pecado e infeliz
Cujo noivo fugira com o juiz.

A sua viúva, porém honesta
Matou-se com um tiro bem na testa
Depois de confessar os seus pecados
A Nossa Senhora dos Afogados.
Sua filha, vendo a falecida
Confessa, à mãe "sou mulher da vida."

(São Paulo, 18 de maio de 2004)

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