15.1.08

De volta



Estou de volta. Eu mudei tudo, refiz os planos, deixei-me levar pelos acontecimentos, comprei passagens de última hora, cheguei nos lugares sem fazer reserva, mas no fim o mapa ficou quase igual ao planejado (eu tinha desistido da Tunísia e da Espanha). No fim, não são os lugares que interessam mas o que acontece neles (então o roteiro nem faz tanta diferença assim.) As fotos contam algumas histórias conhecidas. Eu precisarei de inspiração para transformar as outras em ao menos palavras.

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19.5.07

São Paulo

Rio Pinheiros in Sao Paulo
São Paulo, sobrevoando o rio Pinheiros no início da tarde de uma sexta-feira a caminho do aeroporto de Congonhas.

São Paulo
Quarta-feira passada, um pouco antes do meio dia, já fabricando seu smog (vista do bairro do Ipiranga).


Alguns minutos depois, a uns 8km de altura, Moji, Guarulhos, a Serra da Cantareira e no horizonte, a Serra do Mar. A cidade inteira cabe num olhar. Que tal um mapa?

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25.7.06

Até a próxima viagem

Vou dar um tempo (breve) no blog e mudar de assunto a partir do próximo post. Organizei abaixo um índice dos 22 artigos, notícias e relatos que escrevi nos últimos dias. Todos são de alguma forma relacionados à viagem que fiz à Alemanha e à Holanda, entre 2 e 18 de junho, por ocasião do festival internacional de teatro Play-off/06, para o qual fui convidado a participar como ator junto com o Núcleo Experimental dos Satyros.

Notícias
 2. In Gelsenkirchen (13/jun).
 3. Colonia (Köln) (16/jun).
 4. De volta à realidade (22/jun).
Sobre a peça e montagens
 1. Ein Körper in Dornen (01/jun).
 9. Como fomos parar na Alemanha? (29/jun)
13. Nossas apresentações na Alemanha (04/jul).
Sobre o festival
10. O Festival Play-off/06 (30/jun).
11. Play-off/06: a Vila (30/jun).
12. Play-off/06: primeira semana (04/jul).
15. Play-off/06: Ruhrgebiet tour (07/jul).
16. Play-off/06: segunda semana (07/jul).
22. Play-off/06: encerramento e despedida (25/jul).
Relatos e artigos inspirados pela viagem
 5. Consol Theater (27/jun).
 6. O Ruhrgebiet (27/jun).
 8. Gelsenkirchen, Essen, Herne e Dortmund (29/jun).
 7. Zeche Zollverein (28/jun).
14. A dinastia dos Krupp, em Essen (05/jul).
17. A viagem para Colônia (17/jul).
18. A Catedral de Colônia (18/jul).
19. Rembrandt van Rijn, 400 anos (18/jul).
20. A viagem para Amsterdã (23/jul).
21. O Rijksmuseum, em Amsterdã (23/jul).
Fotografias
1. Play-Off/06 no Flickr.
2. Colônia, no Flickr.
3. Amsterdam, no Flickr.

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Play-off/06: encerramento e despedida


O pianista e compositor Michael Gees regendo a orquestra de 90 músicos durante uma peça musical de 40 minutos que encerrou o Play-off/06.

Este é o último post da série sobre a minha viagem para a Alemanha e o festival Play-off/06. Ainda bem, pois preciso mudar de assunto. Sobre a viagem e sobre o festival acho que eu já falei tudo. Faz mais de um mês que tudo terminou e eu não lembro mais dos detalhes. Então vou deixar que as fotos falem o que não estiver escrito, e vou apenas relatar o essencial.


Todos os atores e diretores reunidos na tenda, no sábado, antes da festa de encerramento.

A festa final do festival Play-off/06 foi parte de um grande evento que acontece anualmente em todo o Ruhrgebiet chamada de Extraschicht. A vasta programação cultural acontece em várias antigas instalações industriais nas 11 cidades da região. No Consol Theater o evento foi o encerramento do festival Play-off/06, que atraiu milhares de pessoas ao local onde estávamos acampados.

A área da mina Consolidation encheu de gente. Foram montados quatro palcos de rua onde os atores dos vários grupos apresentaram cenas e improvisações simultaneamente. Nosso grupo fez três improvisações em dois desses palcos. À meia-noite, no palco principal, houve um concerto de encerramento com uma apresentação musical de 50 minutos, ilustrada com coreografias realizadas por todos os grupos de teatro presentes. A peça musical foi composta e executada pelo pianista alemão Michael Gees e sua orquestra.


Milhares de pessoas da região compareceram para assistir ao encerramento.

A festa terminou com luzes, música e fogos de artifício. Depois que as milhares de pessoas foram embora restaram apenas nós: os pouco mais de cem habitantes internacionais da vila. Era a vez da nossa festa de despedida. Então ficamos acordados, esperando os grupos que partiam, conversando até o dia amanhecer.


A mina, pouco depois do final da festa.

O domingo foi um dia estranho, silencioso. Alguns grupos já partiram de madrugada, outros foram partindo ao longo do dia. Quando chegava o ônibus para levar um grupo para o aeroporto, quem estava dormindo acordava. As despedidas eram intensas, com abraços, fotos e lágrimas. No fim da tarde o acampamento estava quase vazio. Nós fomos um dos últimos grupos a partir. Partimos junto com os argentinos, sul-africanos e equatorianos.


Atores do Brasil, Polônia, Estados Unidos


Montagem com fotos tiradas por Ricardo Socalschi durante a festa de encerramento.

O embarque e as conexões foram tranqüilos. No vôo Paris - São Paulo, ficamos separados em assentos espalhados pelo avião, e eu dormi quase toda a viagem. Só acordei para o café da manhã pouco antes da chegada. A semana da volta à realidade foi esquisita e levei vários dias até me acostumar com a rotina urbana, noites longas, e vozes falando apenas português. Viagens sempre mexem comigo. Demorei para achar o rumo, mas agora é hora de seguir outros caminhos, até a próxima viagem.

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23.7.06

O Rijksmuseum, em Amsterdã


Rijksmuseum de Amsterdã visto da Museum Platz.

O Rijksmuseum de Amsterdã é o maior museu de arte e história da Holanda, com mais de um milhão de objetos em exposição, destacando obras de artistas holandeses do século XVII como Rembrandt, Vermeer, Frans Hals e outros. O museu é imenso, mas apenas uma pequena parte estava aberta, pois o prédio inteiro passa por uma reforma. Essa pequena parte, chamada De Meesterwerken (as obras-primas), concentra dois andares e 14 salas onde está em exposição uma seleção das obras primas do museu.

A exposição é organizada em ordem cronológica e conta a história da Holanda através das obras de arte. A viagem no tempo não se resume a quadros. Há vários objetos, esculturas, casas de boneca, móveis, armas, porcelana, jóias. Muitas vezes um objeto retratado em um quadro antigo também está em exposição. Não houve tempo para apreciar tudo. Como o tempo era pouco, eu preferi pular as exposições de objetos e concentrar-me nas pinturas.


Imenso quadro de Van der Helst (Banquete em celebração da paz de Münster) domina a entrada do Rijksmuseum na sala dedicada à república holandesa.

Nenhuma visita virtual ou livro de arte compara-se à visita a um museu. Não conheço fotografia que faça justiça às pinturas expostas no Rijksmuseum. Não descobriram ainda uma maneira de reproduzir em filme, impresso ou projetado, as cores e os efeitos que Rembrandt e seus contemporâneos conseguiam representar com tintas. Aquelas imagens estão além da fotografia. Algumas parecem até tridimensionais. Quase consigo tocar nos recipientes de barro do único quadro de Johannes Torrentius; e a mão do capitão Frans Cocq na Ronda Noturna de Rembrandt parece querer sair do mundo bidimensional onde está presa. O meu Rembrandt favorito - Jeremias lamentando a destruição de Jerusalém - tem detalhes em ouro e prata que brilham como se estivessem ali, de verdade. Nenhuma fotografia causaria uma ilusão tão perfeita.


Jeremias lamentando a destruição de Jerusalém (detalhe) de Rembrandt van Rijn. Clique na foto para ver a tela inteira.

Um imenso quadro de cinco metros e meio de largura retratando personagens em tamanho real ocupa a maior parede na sala de entrada do Rijksmuseum. São vinte e cinco militares comemorando a paz que permitiu o surgimento da Holanda: o Tratado de Münster (ou Tratado da Westfália) que marca o fim da guerra de oitenta anos com a Espanha em 1648, e o reconhecimento oficial das províncias holandesas como república independente. Nesta sala havia vários outros objetos relacionados ao início da república holandesa.


Banquete em celebração da paz de Münster, de Bartholomeus van der Helst. 1649 - Oléo sobre tela, 232x547. Clique na foto para ver uma versão maior no site do Rijksmuseum.

A sala seguinte é dedicada às conquistas holandesas pelo mundo. Uma das pinturas mostra a cidade de Olinda, Pernambuco, pintada por Frans Post, artista holandês que servia a Maurício de Nassau durante o período em que parte do nordeste brasileiro vivia sob o domínio holandes.


Frans Jansz Post (1612-1680): vista de Olinda, Brasil (Óleo sobre tela, 107,5 x 172,5cm, 1662). Clique na foto para ver uma versão maior no site do Rijksmuseum.

As outras três salas do andar térreo são dedicadas principalmente a objetos do cotidiano, porcelanas e tesouros da Idade de Ouro da Holanda (século XVII). Há duas casas de boneca, contendo salas ricamente mobiliadas em miniatura, que mostram em detalhes como eram as casas dos ricos habitantes de Amsterdã nessa época.

O segundo andar é ocupado principalmente por telas de pintores holandeses do século XVII, com destaque para Frans Hals, Rembrandt, Johannes Vermeer e Jan Steen. Há uma sala especial para o quadro mais importante do museu: a Ronda Noturna, de Rembrandt.

Frans Hals


Retrato de casamento de Isaac Massa e Beatrix van der Laen (Frans Hals, 1622). Clique para ver a tela inteira no site do Rijksmuseum.

Frans Hals nasceu na Antuérpia e mudou-se para o Haarlem quando a cidade foi tomada pelos espanhóis na Guerra dos Oitenta Anos. Ele é bastante conhecido pelos retratos que fez de personalidades famosas e ricas. O quadro de Hals que eu mais gostei foi o retrato de casamento de Beatrix e Isaac. Beatrix, 30, era filha de um burgomestre, e Isaac, 35, era um diplomata e historiador que vivera na Rússia. Casais normalmente retratavam-se separados em poses sérias, mas Isaac e Beatrix queriam algo diferente e foram pintados em um jardim, lado a lado, espontaneamente sorrindo para o artista. Hals pintou vários outros retratos de casais, mas nunca juntos, sorrindo ou na mesma tela.

Rembrandt van Rijn


A Noiva Judia (Rembrandt van Rijn, 1667). Este quadro era um dos preferidos do pintor Vincent Van Gogh.

Rembrandt van Rijn é o mais célebre pintor da Holanda e seus quadros aparecem em três salas da exposição De Meesterwerken do Rijksmuseum. Eu escrevi um texto sobre Rembrandt que postei aqui há alguns dias em homenagem aos seus 400 anos.

Johannes Vermeer


Fragmento da mais famosa tela de Johannes Vermeer (1632-1675) do Rijksmuseum: De Keukenmeid.
 Johannes Vermeer é considerado hoje um dos pintores holandeses mais importantes do século XVII, mas por séculos foi esquecido. Nasceu e viveu praticamente toda a sua vida na pequena cidade de Delft, onde teve onze filhos e morreu aos 43 anos de idade. Ele não assinava seus quadros e muitos podem ter se perdido. Reconhece-se a existência de 35 obras de sua autoria. A maior parte de suas obras retrata cenas do cotidiano. Sua principal obra no Rijksmuseum é A moça do leite, que mostra uma mulher vestida em roupas simples despejando leite em uma vasilha num ambiente iluminado pela luz indireta que penetra pela janela.

O quadro mais conhecido de Vermeer, Moça com brinco de pérola, não está no Rijksmuseum e nem em Amsterdã, mas na cidade próxima de Haia (Den Haag) onde é a principal atração do Mauritshuis, que também guarda outras obras célebres de Vermeer.

Jan Steen


A Família Feliz, de Jan Steen (1668)

Jan Steen era um contador de histórias. É preciso decifrá-las observando detalhes como objetos, gestos e olhares dos personagens que aparecem nos seus quadros. Nunca é óbvio. Sempre há mais acontecendo do que parece, e ele constuma esconder parábolas nas histórias. No quadro que retrata a família feliz, há uma folha que pende do teto onde está escrito "enquanto cantam os velhos, fumam os jovens", e há uma criança bebendo sem que os pais vejam.

A Ronda Noturna, de Rembrandt van Rijn

A obra mais famosa do Rijksmuseum é a Ronda Noturna (De Nachtwacht), de Rembrandt van Rijn. É o maior quadro que Rembrandt pintou e ocupa uma sala inteira do museu. Retrata a companhia militar do Capitão Frans Banning Cocq. Parece uma fotografia capturando os vários personagens em movimento. Na foto, vê-se o capitão Banning Cocq que desloca-se apressadamente para fora do quadro enquanto dá ordens ao seu tenente Van Ruytenburch para segui-lo. Movimento e contrastes de luz são característicos dos quadros de Rembrandt.


A Ronda Noturna (The Nightwatch) de Rembrandt van Rijn. Clique na foto para ver uma versão maior no site do Rijksmuseum.

O título verdadeiro do quadro não é Ronda Noturna, mas quando foi descoberto, ele estava coberto por um verniz escuro que o fazia parecer uma cena noturna, e assim ganhou o apelido. Na verdade, a cena é diurna e representa um grupo de mosqueteiros saindo de um prédio. Os contrastes são provocados pela luz do Sol. Nos últimos anos o quadro foi restaurado revelando suas cores originais (era bem mais escuro).

Nightwatching, de Peter Greenaway


Peter Greenaway.
Quando visitei o Rijksmuseum havia uma instalação recém inaugurada sobre a Ronda Noturna criada pelo cineasta inglês Peter Greenaway, que mora em Amsterdã. A apresentação utiliza-se de projeções feitas diretamente sobre a tela para revelar as histórias por trás dos personagens. Além da exposição interativa, Greenaway também está fazendo um filme e uma peça sobre Rembrandt em comemoração aos 400 anos do pintor.

O filme chama-se Nightwatching, e está ambientado no ano de 1642 (o ano em que a pintura foi feita). Mistura fatos com ficção. Um acidente fatal ocorrera com um dos militares que encomendara o quadro. Rembrandt teria descoberto que o ocorrido não fora um acidente e revelado o assassino através de pistas ocultas na pintura. Mas os outros teriam descoberto, porém não podiam mais destruir o quadro. Buscaram, então, sutilmente destruir o artista. Greenaway aproveitou-se de fatos históricos, de mistérios contidos na Ronda Noturna e na decadência do artista depois da pintura do seu quadro mais célebre. Nightwatching será lançado em 2007.

A peça, que deve estrear este ano, é basedada em relacionamentos domésticos, sociais e simbólicos de Rembrandt com suas três mulheres: Saskia, Geertje e Hendrickje. Mais detalhes sobre a peça e uma sinopse completa sobre o filme estão no site do cineasta.

Rijksmuseum, na Internet

Não é o mesmo que a experiência de visitar o museu, mas o site do Rijksmuseum é uma obra de arte do Web design e vale a pena ser visitado. Há informações sobre centenas de obras, imagens em alta resolução, vídeos e animações interativas que permitem navegar em diversas partes do museu em 3D. Há inclusive uma seção especial e interativa sobre a Ronda Noturna de Rembrandt. O site está disponível em holandês e inglês.

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A viagem para Amsterdã


A rua Damrak. A fundo está a estação central.

Eu estava em dúvida se ia ou não a Amsterdã. No dia anterior havia ido a Colônia e o resto do nosso grupo estava em Amsterdã e só voltaria no dia seguinte. Eu estava muito envolvido com o festival e estava preocupado que não ficasse ninguém do Brasil no acampamento. Além disso, estava trocando idéias com alguns atores para formarmos uma comunidade virtual com todos os participantes do festival. Precisávamos divulgar a idéia e juntar as pessoas, então pensei em ficar no acampamento na quinta-feira e cuidar disso. Quinta-feira era feriado e a organização havia planejado um tour em Dortmund, mas, devido à chuva, ao frio, e ao desinteresse geral, o evento foi cancelado e o dia ficou livre. Acordamos tarde. Esperamos algumas pessoas do acampamento que estavam interessadas em ir conosco. Como até 9h30 ninguém havia aparecido, fomos novamente apenas eu, Luís e Ricardo.

Ricardo tirou essas fotos da janela do trem, pouco antes de chegarmos na estação central.

Pegamos o metrô na estação Consolidation até a estação central de Gelsenkirchen onde compramos um bilhete de grupo para Amsterdã. Custou €247,00 para o grupo, ida e volta, o que seria €82,00 para cada. A viagem é rápida (2 horas e meia) no trem ICE da Deutsche Bahn. Seria uma viagem curta. Teríamos menos de seis horas em para aproveitar a cidade, pois o último trem para a Alemanha sairia as 19 e alguma coisa. Mas, quando descemos na estação de Oberhausen ficamos sabendo que o ICE iria atrasar cinqüenta minutos, ou seja, teríamos menos de cinco horas em Amsterdã.


Caminhada de 3km em Amsterdã, da estação central até o Rijksmuseum

Isto foi no dia 15 de junho, feriado de Corpus Christi. Chegamos em Amsterdã antes das duas horas da tarde, almoçamos e fomos caminhar. As atrações surgem logo que se deixa o trem, na bela Centraal Station de 1889, projetada por Pierre Cuypers (mesmo arquiteto que projetou o prédio do Rijksmuseum.) Seguimos para o Sul pela rua Damrak, depois entramos num beco e seguimos por uma rua paralela até a praça Dam, onde está o Palácio Real e a igreja nova (Neuwe Kerk), que não é tão nova assim. Estava frio e começava a chover levemente.


Rua estreita saindo da Damrak.
A praça Dam é o coração da cidade. Foi lá que surgiu, no início do século XIII, a pequena vila de pescadores que represou o rio que desaguava na baía Ij (pronuncia-se "ai"). É dela nasceu o nome da cidade: Amstel re dam. A rua Damrak, que segue da estação central até a praça Dam, e a rua Rokin, que segue para o Sul depois da praça, eram as margens dos portos onde os barcos eram atracados. Damrak era o porto que dava para a baía e que foi fechado com a construção da Centraal Station sobre uma ilha artificial em 1889. Rokin era o porto interno, que dava para o rio.


Damrak.

O prédio que mais chama atenção na praça Dam é a antiga Camara Municipal, que hoje é o Palácio Real. O prédio foi concluído em 1655. A escultura da fachada, em alto relevo, foi feita por de Artus Quellinus (1609-1668). Tem 20 metros de largura e representa os quatro continentes em referência ao status de centro do comercial mundial que a Holanda possuía na época.

O Palácio Real (antiga Câmara Municipal), de 1655. À esquerda, quadro de Gerrit Berckheyde (1672), exposto no Rijksmuseum. A foto a direita é minha.

No século XIV a cidade cresceu devido ao comércio com outras cidades do norte da Europa, e ganhou relativa importância, mas o maior crescimento ocorreu depois que sua rival na época - a cidade de Antuérpia, tornou-se o principal alvo dos espanhóis durante Guerra dos Oitenta Anos. Os massacres, assédios e perseguições por motivos religiosos afastaram banqueiros, comerciantes, artistas e empreendedores que migraram para Amsterdã. E assim, a cidade floresceu durante o século seguinte e tornou-se uma das cidades mais ricas do mundo. Foi nessa época que o famoso conjunto de canais que envolve o centro histórico foi construído e a Holanda, com suas duas companhias marítimas multinacionais, estabeleceu sua presença nos cinco continentes.

No início do século XIX a Holanda foi invadida pela França e foi convertida em uma monarquia presidida por Luís Napoleão (irmão de Napoleão Bonaparte), que estabeleceu seu palácio no prédio da antiga câmara municipal. Quando os franceses finalmente foram expulsos, os holandeses decidiram manter uma monarquia com sede em Amsterdã, nomeando como rei Willem IV de Orange (descendente direto de Willem I de Orange-Nassau, o pai da república holandesa.) Apesar de Amsterdã ser a capital oficial da Holanda, o parlamento holandês exerce suas funções em Haia (Den Haag). Hoje, Amsterdã ainda é o centro cultural e financeiro da Holanda. Na cidade vivem mais de 750 mil pessoas em uma região metropolitana de cerca de um milhão e meio. Apesar do desenvolvimento, a arquitetura do centro foi preservada e a cidade possui um dos maiores centros históricos da Europa, onde ainda predomina a arquitetura medieval.


Principal meio de transporte, em Amsterdam.

O lado onde fica a praça Dam é chamado de cidade nova, e o lado oposto de cidade velha, mas na verdade a cidade velha é mais nova que a velha. A confusão é por causa dos nomes das paróquias em volta das igrejas. Do lado da praça Dam fica a igreja nova (Nieuwe Kerk) e do outro fica a igreja velha (Oude Kerk).

Continuamos seguindo para o sul até até a torre Munttoren, que fica onde o rio Amstel se divide em canais. De lá seguimos pela Vijzelstraat, cruzando os canais até chegar na fábrica da Heineken, viramos à direita e fomos beirando o canal até o prédio do Rijksmuseum.


Rio Amstel. Foto de Ricardo Socalschi.


Prédio do Rijksmuseum. Foto de Ricardo Socalschi.

Casas belíssimas, ruas estreitas, canais e mais canais. Muitos canais. É fácil se perder em Amsterdã pois os canais, à primeira vista, parecem todos iguais. Também é preciso tomar cuidado com as bicicletas. A cidade tem mais de 600 mil e elas estão em todos os lugares, ocupando todos os espaços. Do lado da estação central, por exemplo, há um estacionamento para 2500 bicicletas, e estava praticamente lotado. Todas as ruas tem via para bicicletas e elas estão sempre buzinando para os pedestres desavisados que invadem sua pista. Na maior parte das ruas do centro também não existe desnível algum entre rua, trilho, ciclovia e calçada. Só mudam as cores do calçamento. Ou seja, ao caminhar, é preciso também ficar de olho nos carros (poucos) e principalmente nos trens.




Canais de Amsterdam. Eles são muito parecidos

Foi uma longa caminhada até o Rijksmuseum, mas não percebemos (só descobrimos o quanto andamos na volta). Como demos voltas e mais voltas, acho que andamos bem mais que 3km. Também fizemos algumas paradas. Nesse passo, chegamos no museu às 15h50. Calculamos que daria para ver o Rijksmuseum e também o museu Van Gogh, que ficava vizinho. A idéia era fazer uma visita de reconhecimento, ver apenas as pinturas em uma hora, e depois correr para fazer outra visita relâmpago no Van Gogh, pois ambos fechariam às 18h. Não deu. Ficamos no Rijks até 17h30. Ainda estávamos dispostos a passar 30 minutos, mas não deu para entrar no Van Gogh.

Uma hora e quarenta minutos no Rijksmuseum é muito pouco. As obras em exposição são janelas para o passado, contam histórias, revelam segredos que não estão óbvios, e é preciso tempo para ouvi-las. O Rijksmuseum conta a história da Holanda, desde o tratado de Westfalia, em 1648, ano em que foi oficialmente reconhecida a república holandesa, até o século XIX. Consegui fazer uma curta viagem no tempo, mas eu contarei essa história em outro post, que publicarei na seqüência.


Voltando do Rijksmuseum. Não sei que rua é esta. A torre atrás das casas deve ser a Munttoren.

Amsterdã e os Holandeses
Desde que libertou-se do domínio espanhol, e conseqüentemente da Igreja Católica, a Holanda tem mantido uma tradição de liberdade, tolerância e respeito aos direitos individuais. No século XVI, enquanto outras nações eram governadas por reis e tiranos, o país era uma república governada por representantes de cidadãos de suas províncias. Essa liberdade permitiu um grande desenvolvimento artístico, científico e comercial que fez do país uma potência mundial no século XVII. O mundo mudou, mas a Holanda continua sendo um dos países mais livres do mundo, e tem sobrevivido a atos de intolerância em seu próprio território como os assassinatos recentes de Pim Fortuyn e Theo van Gogh, em Amsterdã. Devido à sua política de liberdade e tolerância, na Holanda, várias coisas que são ilegais em outras partes do mundo aqui são legais, como a prostituição e a venda de cannabis e haxixe.


Não sei que rua é esta. Acho que é a Weteringschans ou alguma rua próxima. Estávamos perdidos.

Amsterdã faz muito sucesso entre os turistas, mas muitos holandeses não gostam de Amsterdã. Esta foi a impressão que eu tive entre os holandeses que eu conheci. Preocupam-se com a visão estereotipada e deturpada que a cidade passa ao mundo como se fosse a imagem da Holanda; reclamam que é uma cidade suja, que os holandeses estão indo embora e os estrangeiros estão tomando conta, que a prostituição passou dos limites, que é exagerada a quantidade de coffee-shops (onde a venda de Cannabis é legal), e que ela perdeu o charme que tinha no passado. Eu sei que ao visitar Amsterdã eu não conheci a Holanda. Isto seria como alguém conhecer o Rio de Janeiro e achar que conhece o Brasil. Eu gostei muito da cidade. Em outra viagem, com mais tempo, com certeza irei atrás de conhecer outros lugares na Holanda (recomendados por meus amigos holandeses), como Utrecht, Haia, (Den Haag), Maastricht, Leiden e Delft.


Centraal Station de Amsterdam. Foto: Ricardo Socalschi.

Perdendo o trem
Depois de desistir do museu Van Gogh iniciamos o caminho de volta caminhando pela cidade, porém os canais nos confundiram. Pegamos o sentido errado e nos perdemos. Estávamos sem relógio e nenhum relógio público da cidade marcava a mesma hora (até numa mesma torre havia relógios com horas diferentes). No fim, chegamos à estação de trem atrasados e perdemos o último trem para a Alemanha.


Distrito da luz vermelha.

Foi ótimo perder o trem. Fomos atrás de lugares para dormir e não achamos. Estava tudo lotado. Amsterdã vive cheia de gente. Muitos turistas. A impressão que se tem é que todo mundo perdeu o último trem e correu para um albergue ou hotel para passar a noite. Decidimos aproveitar o tempo: comer, beber, conversar, caminhar, visitamos bares e um coffee-shop. Lá pela meia-noite, caminhando em direção à estação, encontramos um hotel simples que, para a nossa surpresa, não tinha a placa Full (como todos os outros que havíamos encontrado).

Balada em Amsterdã
 Algum hóspede que precisou pegar um vôo tinha acabado de sair e liberado um quarto. Sem sono, ainda saímos para dar mais umas voltas. Circulamos pelo distrito da luz vermelha (que estava lotado de gente), andamos pelas ruas do centro (também cheias de gente), e entramos numa danceteria (€5,00) onde ficamos até fechar (as três da manhã acenderam as luzes e parou tudo). Voltamos para o hotel e no dia seguinte, às 7 horas, pegamos o trem para Herne onde chegamos a tempo de assistir às duas últimas apresentações do festival.


Canais Herengracht, Singel, Palácio Real (prédio retângular), Nieuwe Kerk (igreja) e Praça Dam. Foto de satélite do Google Maps. Clique na foto para ver Amsterdã no Google Maps (é possível ver pessoas e bicicletas lotando as praças e ruas da cidade.)

Veja mais fotos de Amsterdã na minha página no Flickr.
AmsterdamAmsterdamAmsterdam
AmsterdamAmsterdamAmsterdam City Hall
AmsterdamAmsterdam City HallAmsterdam

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18.7.06

Rembrandt van Rijn, 400 anos

Auto-retratos: Rembrandt aos 23 anos, em 1929 (Mauritshuis, Haia), e quarenta anos depois (National Gallery, Londres), no ano de sua morte.

Há quatrocentos anos, no dia 15 de julho de 1606, nascia Rembrandt Harmenszoon van Rijn: um grande artista, e que viveu uma vida fascinante. Rembrandt é o mais importante pintor da Holanda. É autor de mais de 3000 obras entre pinturas, gravuras e desenhos, dentre as quais figuram quadros famosos como A Ronda Noturna e A Lição de Anatomia do Dr. Nicolas Tulp.


A Lição de Anatomia do Dr. Nicolas Tulp, de 1632 (Mauritshuis, Haia)

Nono filho de um moleiro, Rembrandt nasceu em uma família humilde de Leiden, às margens do rio Reno (Rijn, em holandês). Viveu em um dos momentos mais brilhantes da história da Holanda, e obteve não só reconhecimento pelo seu trabalho em vida, como fez fortuna e tornou-se famoso. Mas sua vida também foi marcada por grandes tragédias pessoais que o abalaram profundamente. Sofreu muito com a morte de três dos seus filhos, dos irmãos, da mãe e de sua primeira esposa, Sáskia em um período curto de tempo. Mas, depois da morte de Sáskia, acasalou-se com Geertje, babá do seu filho Titus (único filho com Sáskia que chegou à idade adulta), e viveu períodos felizes. Alguns anos depois separou-se de Geertje e apaixonou-se por Hendrickje, outra babá de Tito. E com Hendrickje, Rembrandt teve uma filha: Cornélia.


Detalhe de A Ronda Noturna, de 1642 (Rijksmuseum, Amsterdam)

Rembrandt era perfeccionista e pintava por prazer. Mais por prazer que por necessidade. Pintava o que queria (e nem sempre o que seus clientes queriam.) Pintou quase cem auto-retratos e freqüentemente retratava a si próprio e sua família em personagens mitológicos ou religiosos. Nem sempre agradava aos clientes que pagavam para terem seus retratos pintados, pois dava mais importância à obra que ao cliente.

Saskia, por Rembrandt
 Quando terminava uma obra freqüentemente achava que ela valia mais do que havia cobrado, e sempre tentava cobrar a diferença. Por causa disso teve vários desentendimentos com seus clientes. Vivia intensamente. Parece ter sido uma pessoa de difícil convivência, mas que aproveitava bem a vida. Apesar de todas as tragédias, falências e perdas, não perdeu o interesse pela vida nem pela arte, nem pelas mulheres. Gastava. Comprava obras de arte caras. Amava. Vivia além de suas posses. No fim da vida estava falido, sem sua terceira mulher Hendrijcke, e sem o seu amado filho Titus. Ambos mortos por causa da peste. No ano de sua morte teve que vender sua casa e todos os seus bens para pagar dívidas. Morreu sem nada, em 4 de outubro 1669, e foi enterrado em uma cova alugada num cemitério simples. Deixou obras lindas, estilos ousados e técnicas inovadoras, alunos talentosos. Nas luzes e sombras, cores e movimentos que soube tão bem representar em suas obras, ele ainda vive, e estimula a criatividade dos seus admiradores.


Auto-retrato, 1630 (Rijksmuseum)
O cineasta inglês Peter Greenaway está produzindo um filme e uma peça sobre Rembrandt, em homenagem ao aniversário de 400 anos. O filme chama-se Nightwatching, acontece na época em que Rembrandt pintava a Ronda Noturna e mistura ficção com realidade numa trama misteriosa. Estréia em 2007. Até agosto há uma exposição interativa sobre o quadro no Rijksmuseum de Amsterdam, produzida por Greenaway. Siga os links para mais informações (em inglês).

Veja mais sobre Rembrandt e a comemoração de seus 400 anos no site Rembrandt 400 (em inglês).

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A Catedral de Colônia


Fotocromo da Catedral de Colônia, tirada em 1890, dez anos após sua conclusão Fonte: Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos

Se você estiver passeando pela Europa e estiver a menos de 250km de Colônia, não deixe de conhecer a Kölner Dom. Como ela fica bem do lado da estação central, vale a pena fazer uma escala na cidade só para passar algumas horas visitando-a.

Com suas duas torres de 157 metros de altura, a Catedral de Colônia era, na sua inauguração em 1880, o prédio mais alto do mundo. Superada quatro anos depois pela construção do monumento de Washington, ela continuou sendo a estrutura mais alta da Europa até a construção da torre Eiffel, em 1889. Hoje ainda é a maior catedral gótica da Europa, e a segunda igreja mais alta do mundo (perde apenas para a catedral de Ulm, na Bavaria, cuja torre tem 4 metros a mais).

O altar. O ponto brilhante dourado ao fundo é uma arca de ouro que os católicos acreditam conter os ossos e roupas dos reis magos.
A catedral teve sua construção iniciada em 1248 para guardar relíquias pertencentes aos três reis magos, trazidas de Milão pelo imperador Frederico Barbarossa e presenteado ao arcebispo de Colônia, em 1164. Em 1560 (312 anos depois do início das obras) a construção foi suspensa por falta de dinheiro, e a obra ficou parada por quase três séculos. Durante esse período, o prédio foi usado para os mais diversos fins, tendo servido como estábulo e prisão. Em 1824, com o patrocínio do rei Frederico IV da Prússia, as obras foram retomadas de acordo com os projetos e desenhos originais guardados desde a Idade Média. Foram adicionadas as torres e outras partes importantes da igreja. A inauguração foi celebrada como um grande evento nacional em 1880, 632 anos após o início da construção.


Esculturas próximas de uma das portas. Observe a diferença de estilos: as figuras centrais são bem diferentes das outras duas.


Relíquia e ouro contendo ossos e roupas que os católicos acreditam pertencer aos três reis magos. A fé na autenticidade dessa relíquia é o que motivou a construção da catedral.

A catedral escapou praticamente ilesa durante os bombardeios de Colônia na Segunda Guerra Mundial. Foi atingida em 14 pontos mas não sofreu nenhum dano estrutural e passou por um processo de restauração terminado em 1956. O prédio está continuamente em obras de manutenção. Observei que existem lugares nas fachadas externas em que faltam pedaços, às vezes esculturas inteiras. Não tenho certeza mas imagino que possa ter sido destruição causada durante a guerra.

Em 1996 a catedral tornou-se Patrimônio Cultural da Humanidade, pela UNESCO. Há dois anos, porém, entrou na lista de patrimônios ameaçados. O motivo: os arranha-céus projetados para serem levantados na orla oposta do Reno ameaçavam ocultá-la e fazê-la sumir do skyline da cidade. Aparentemente as coisas se resolveram e há poucas semanas a catedral foi retirada da lista de patrimônios ameaçados.


Uma gargula! Há muitas dessas em volta da igreja.


Detalhe de um dos vitrais da fachada Sul.


A maior fachada do mundo.

Parece inacreditável que uma obra de arte daquele tamanho tenha levado 632 anos para ser construída, e tenha sido concluída de acordo com os planos originais (em grande parte). É realmente impressionante a persistência e a fé dos que levaram a obra adiante e não desistiram, que conseguiram realizar um trabalho de equipe mesmo estando separados por séculos, que acreditaram na sua conclusão e que sonharam com a catedral concluída, mesmo sabendo que não estariam vivos para vê-la pronta, que nela deixaram o melhor de sua arte, mesmo sabendo que seriam esquecidos pelos homens.

Quem será este?
Foto: Ricardo Socalschi.
 Meu conceito do que significa longo prazo precisa ser revisto. A fé das pessoas é realmente muito poderosa. Senti-me minúsculo diante de uma construção tão imensa e tão antiga. Minúsculo em vários sentidos, no espaço, no tempo e diante de todos os que de alguma forma contribuiram com aquela obra. Me causou uma sensação que não sei definir. É como se estivesse perto de entender o sentido da existência e de tudo; como se eu fosse um alienígena que descobria a civilização humana pela primeira vez. De vez em quando ainda lembro, e penso em tudo isto. Caminhei em volta da igreja e toquei naquelas paredes antigas, que foram erguidas antes dos europeus pisarem na América. Depois de uns trinta minutos explorando o exterior da catedral, resolvi entrar, e lá comecei outra viagem.


Quem será D. Adamus Daemen que recebe as maiores glórias? O que ele tem a ver com o papa Clemente?

Gostaria de um dia caminhar pelo interior da catedral num dia ou numa hora em não houvesse tantas turistas, e quando as luzes artificiais não estivessem acesas, e seu interior estivesse iluminado apenas pela luz do Sol que atravessa os vitrais. Mas mesmo cheia de turistas tirando fotos, e mesmo com lâmpadas elétricas iluminando suas colunas, o interior impressiona. A igreja é imensa. Me perdi de Luís e Ricardo e demorei para achá-los. É incrível aquele prédio, sem cimento, sem concreto e sem ferro, estar de pé, sustentar tanto peso, durar tanto tempo, e ter tanto espaço interno. O som das pessoas conversando se perde entre as colunas sob a nave central que tem 43 metros de altura. Quando eu saía por uma das portas, a sensação era que dentro havia silêncio, apesar de estar cheia de gente. Havia trechos mais escuros, e lugares iluminados apenas pela luz dos vitrais. Nas paredes, no chão, no alto, nos cantos. Em todo lugar havia alguma surpresa que poderia ser um túmulo, uma inscrição em uma pedra, um crucifixo, uma gravura em alto relevo.


Degraus da torre.
Antes de deixar a catedral, e depois que eu encontrei Luís e Ricardo, finalmente decidimos subir os 509 degraus que levam ao alto da torre sul. A subida é uma espiral que vai ficando cada vez mais estreita e parece nunca terminar. Na primeira metade, o mesmo caminho é usado por quem sobe e por quem desce. Ainda comecei a contar os degraus, mas lá por volta do duzentos e alguma coisa deixei para lá. Os degraus estão gastos e têm o centro rebaixado. Nas paredes internas, em toda a extensão da torre, há pichações. São nomes, datas, cidades de origem, em tinta, em lápis, em giz. Estão em muitas línguas, e muitas datas são de décadas atrás. No meio do caminho havia um sino imenso de 24 toneladas, e a subida ficou ainda mais estreita. Passado o sino, subimos por uma escada de metal levantada no centro da torre (e que não faz parte do projeto da igreja.) A escada original, muito estreita, é reservada apenas para a descida. A igreja é cheia de detalhes, cheia de pontas, nos telhados, e até lá, no alto, onde só as aves e os anjos habitam (lá em cima há esculturas de anjos).


A cidade, vista da torre da catedral.

Eu tirei muitas outras fotos da Catedral de Colônia. As melhores eu estou publicando no Flickr.

Mais informações e fotos:

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17.7.06

A viagem para Colônia


Vista do Reno e da ponte ferroviária Hohenzollernbrücke a partir de uma das torres da catedral de Colônia.

Colônia (Köln) fica a menos de 100km das cidades do Ruhrgebiet. Foi o único passeio que eu planejei antes da viagem. Durou poucas horas, mas o tempo foi suficiente para caminhar nas margens do Reno, visitar um museu, explorar o exterior e interior da catedral e subir os mais de 500 degraus da torre.

A viagem foi na quarta-feira, 14 de junho. Eu, Luís e Ricardo deixamos o acampamento no ônibus do evento e fomos ao teatro Flottmann-Hallen em Herne, assistir à peça do grupo da Croácia, que terminou por volta das onze da manhã. Depois da peça, pegamos o metrô para a estação central de Bochum e lá compramos uma passagem de grupo ida-e-volta até Colônia que custou €27,00.

Interior da estação central de Colônia.
 A viagem dura mais ou menos uma hora. A estação central de Colônia, localizada às margens do Reno e do lado da maior catedral gótica da Europa, fica bem no centro das atrações, o que facilita a vida de quem quer fazer uma viagem curta.

Com mais de um milhão de habitantes, Colônia é a maior cidade do estado de Nordrhine-Westfalen (e quarta maior da Alemanha). É uma das cidades mais antigas do país, tendo sido elevada ao status de município durante o império romano em 50 d.C., por ser cidade natal de Agripina, esposa do imperador Cláudio, que deu o nome da cidade: Colonia Claudia Ara Agrippinensium. Colônia também tem o status de cidade santa (assim como Jerusalém, Bizâncio e Roma), num processo iniciado pela influência de Carlos Magno, o que motivou a transferência dos supostos restos mortais dos três reis magos à cidade. Em sua homenagem, foi iniciada a construção da catedral, em 1248, mas 40 anos depois os cidadãos perderam revoltaram-se contra a tirania da igreja e expulsaram o arcebispo da cidade, que teve que se instalar em Bonn. A catedral só ficou pronta no século XIX.

No início dos anos 30, Colônia tornou-se o centro administrativo do Nazismo na Alemanha, com a instalação da sede da Gestapo no centro da cidade. Por este motivo, foi a cidade alemã mais bombardeada durante a Segunda Guerra Mundial. Ao final da guerra, mais de 90% do centro da cidade havia sido destruído e a população que era de 800 mil habitantes havia sido reduzida a 40 mil. Vários prédios e casas antigas foram destruídos ou danificados, mas a catedral escapou ilesa dos bombardeios.


Centro de Colônia ao final da Segunda Guerra Mundial, com quase 95% de todas as construções destruídas. Foto: 303rd Bomb Group Association

Pouco depois que chegamos em Colônia, já estávamos diante da catedral. A catedral é um verdadeiro museu, por dentro e por fora. Os detalhes estão em outro post, que publicarei na seqüência.


Nossos caminhos em Colônia.
Tendo apenas uma tarde para conhecer Colônia, meu interesse depois da Catedral era caminhar pela cidade, descobrir paisagens e observar as pessoas. Luís e Ricardo queriam conhecer o Museu Ludwig, que tem uma exposição permanente de arte contemporânea, com quadros de Picasso, Klee, pintores surrealistas e minimalistas. O Museu Ludwig fica do lado da Catedral. Já eram 17h e a exposição fechava às 18h. Deu para aproveitar uma hora, mas foi pouco pois o museu é muito grande. Não vi Klee, e só descobri Picasso no final, mas como não me interesso muito por ele, não fez falta.

Depois que fui expulso da exposição principal, que já fechava, tive a chance ainda de ver a exposição temporária de Salvador Dalí sobre o quadro La Gare de Perpignan (a estação de Perpignan) - o centro do mundo. Essa valeu a pena. A exposição praticamente é centrada nesse único quadro imenso. Tem cerca de 3 metros de altura por 4 metros de largura mas com detalhes minúsculos. Logo que se entra na exposição ele domina a paisagem do museu.


La Gare de Perpignan, de Salvador Dalí (exposto no Ludwig Museum em junho de 2006)

Depois do museu descemos a praça até o Reno, caminhando pela Altstadt (cidade velha), onde estão algumas das casas mais antigas de Colônia (sec XIV), que hoje são bares e restaurantes. No meio delas está a belíssima igreja Groß St. Martin, do século XI. Os parques e gramados estavam cheios de gente deitadas tomando sol, que no verão só se põe por volta das 22h. Ainda havia muito tempo, porém a cidade estava uma loucura pois aproximava-se a hora do jogo da Alemanha.


Casas medievais e Groß St. Martin.
Na principal rua que beira o rio, praticamente todas as construções são ocupadas por bares e cafés (que estavam lotados por causa do jogo.) Caminhamos pela orla do rio (rua Leystapel) até o Deutsches Sport und Olympiamuseum (onde também havia um telão para o jogo da Alemanha) e depois voltamos para sentar em um dos bares para tomar uma Weissenbier e comer alguma coisa.

Fiquei sabendo depois que tomar uma Weißenbier em Colônia, cerveja de trigo típica da Bavaria, foi uma heresia. Colônia é a única cidade no mundo onde se permite produzir o Kölsch, a famosa cerveja local. Porém, nenhum de nós sabia disso (eu só fiquei sabendo quando alguém do acampamento me perguntou se eu tinha provado a tal Kölsch, e eu não tinha a menor idéia do que era).


Nas margens do Reno: bares e pessoas aproveitam o Sol.

Quando estava perto de escurecer, decidimos voltar. O jogo já havia começado e, como tinham instalado um telão na Roncalli Platz (a praça que fica do lado esquerdo da catedral) tivemos que driblar uma multidão antes de conseguir alcançar a estação de trem. Por descuido, acabamos pegando o trem errado. O destino estava correto, mas pegamos um daqueles trens que pára em todas as estações. Levamos o dobro do tempo para voltar.


Colônia e o rio Reno vistos da torre da catedral.

De volta ao acampamento, alguns foram dormir, mas eu, como sempre, não consegui e estiquei até mais tarde junto com os amigos da Sérvia, dos EUA e da Alemanha.

Veja outras fotos de Colônia:
KölnAlleys in ColognePark near the Rhine
KölnAlleys in CologneGroß St. Martin and park near the RhineStraße near Groß St. Martin
Hauptbahnhof (Central Station)O Reno e o outro ladoPerto do Reno
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7.7.06

Play-off/06: segunda semana


Festa de abertura da segunda semana em Herne. No alto, à direita, Teka cantando e mexicanos (Os Faceiros) tocando samba.

Todas as apresentações da primeira semana do festival Playoff/06 aconteceram em três cidades: Essen, Gelsenkirchen e Dortmund. Na segunda semana, saiu a cidade de Essen e entrou Herne, que inaugurou sua participação com uma festa de boas-vindas no sábado, no Flottmann-Hallen (uma antiga fábrica desativada transformada em teatro). Como em Essen, foi montado um palco para os grupos se apresentarem com improvisações, que eram geralmente apresentações de dança. O grupo Longe do Mar, do México (que é um grupo de capoeira) fez um show de percussão em ritmo de samba. A festa se estendeu pela madrugada.

À esquerda: cena da peça Quando eu aqui cheguei, do grupo Capoeira Longe do Mar, do México. Foto: Benjamin Stöss. À direita: cena da peça Miserere Nobis do grupo Banfield, da Argentina. Foto: Peterson Ramos.

Eu perdi minhas anotações sobre as peças da segunda semana (12 a 16 de junho), então vou ter que confiar na minha memória. Comecei a semana me perdendo em Gelsenkirchen ao procurar uma lavanderia e não conseguindo voltar a tempo para assistir a peça da Argentina (grupo Banfield, de Buenos Aires), que vários consideraram a melhor do festival. O resto do nosso grupo conseguiu assistir, e não haveria outra chance pois a outra apresentação acontecera mesmo dia e horário que a nossa peça. Só me resta agora a chance de ver a peça em DVD.


La Vita Bassa, da Itália.
Foto: Tri-Boo.

Crossroads, do grupo Mimart
(Sérvia e Montenegro).
Foto: Predrag Radovancevic.
O grupo da Itália (Tri-Boo) não participou do evento inteiro. Chegou no domingo à noite, fez uma apresentação na segunda-feira à tarde e voltou na terça-feira. A peça, La Vita Bassa, era uma coreografia surrealista com uma temática existencialista, que usava muitas sombras, um texto banal e personagens que agiam como máquinas: uma crítica à condição humana atual, à submissão às convenções e à perda da identidade.

Na terça-feira foi o dia da nossa apresentação em Herne, sobre a qual eu já falei em outro post. Depois da nossa apresentação, assistimos à peça da Sérvia e Montenegro que chama-se Crossroads (Encruzilhada). A platéia foi distribuída em quatro áreas do palco deixando dois corredores que se estendem até os limites do palco, por onde passam os atores. Dos quatro cantos surgem personagens, que andam, que se trombam, que dançam, que falam diferentes línguas. No centro está uma bruxa que ninguém vê. Ela segura um globo. Eu não entendi o papel da bruxa. A encruzilhada parece representar o inevitável encontro entre povos e culturas. A peça utiliza-se de muita linguagem abstrata, símbolos, dança e fogo.


Cena da peça Mahler & Symphony to Nature do Teatro Jovem de Zagreb, Croácia. Foto: Play-off.

Na quarta-feira eu, o Ricardo e o Luís assistimos a peça da Croácia, Mahler e uma Sinfonia para a Natureza, que apresentou um espetáculo de dança com belas imagens e coreografias inspiradas na música de Gustav Mahler. Mulheres de branco com vestidos longos e altos como se estivessem em uma gôndola, remando. Um exército, que se desestrutura após a uma insubornidação coletiva e transforma-se em um baile. Eu não entendi nada, mas achei bonito. Na seqüência haveria o espetáculo do México, que eu acabei não assistindo pois era a única tarde que teríamos para conhecer Colônia. A maior parte do nosso grupo já havia visto a apresentação deles, que utiliza capoeira e ritmos brasileiros.

Então na quarta-feira à tarde fui à Colônia, e na quinta-feira - que era feriado e um dia livre - fui a Amsterdam. Eu já escrevi os relatos dessas duas viagens e publicarei em breve.


La Quete Noir, da Compagnie Woenyo, Togo. Foto: Play-off.

Na sexta-feira Eu, Ricardo e Luís amanhecemos em Amsterdam, pegamos o trem das sete horas e chegamos em Herne a tempo para assistir o espetáculo da Alemanha, que começava às 10 horas. A peça acontecia dentro de um ringue de boxe com a platéia em volta. Infelizmente não lembro dos detalhes.

10 Gebote für Städtebewohner, da Alemanha. Foto: Benjamin Stöss.
 Tive que fazer um grande esforço para ficar acordado, não por a peça não ser interessante, mas por causa do cansaço da viagem e do pouco sono. A peça é uma dramaturgia coletiva que conta histórias reais de pessoas diante das dificuldades da vida. O sono não deixou que eu me concentrasse na peça, mas depois da peça da Alemanha tomei bastante café e consegui ver a peça do Togo: La Quete Noir. Nossa barraca era vizinha da do Togo, então eu já esperava ouvir muitos tambores. Eles apresentaram um belo espetáculo de dança tribal sem falas, que contava algum tipo de história (de guerra) utilizando-se apenas de linguagem corporal, cores, sombras e ritmos primitivos.

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Play-off/06: Ruhrgebiet tour


Torre nas margens do Reno, em Duisburg

Depois de uma semana de peças, workshops, festas e outros eventos, o domingo (11/06) era um dia livre. Nem tanto. André Wülfing veio logo nos informar que haveria um passeio pelo Ruhrgebiet organizado pelo Festival e seria muito importante que participássemos. Depois de ter participado de um passeio em Essen, onde praticamente não saí do ônibus e só vi as atrações passarem pela janela, eu fiquei na dúvida se valia a pena passar um dia inteiro em outro passeio de ônibus. Mas desta vez iria o acampamento inteiro, então fomos todos.


Escalando o tetraedro.
Foto: Ricardo Socalschi.
O passeio lotou três ônibus com o pessoal do acampamento. Passamos por várias atrações do Ruhrgebiet, mas realmente só deu para parar em três: o tetraedro de Bottrop, o porto fluvial de Duisburg e Essen-Werden. O resto do passeio (castelos, parques, o estádio, o gasômetro, minas, fábricas, igrejas, lagos, cidades medievais e outras atrações) vimos passar pela janela do ônibus (era preciso estar do lado certo do ônibus e ser rápido). O dia estava muito quente, e o ônibus estava um forno. Mas não foi ruim. Nos divertimos bastante nas paradas e tiramos muitas fotos.

A primeira parada foi em um mirante na cidade de Bottrop onde foi construído um tetraedro: uma estrutura em forma de pirâmide suspensa localizada em um parque da cidade com vista panorâmica de onde pode-se ver toda a região. Depois de mais ou menos uma hora, deixamos Bottrop, passamos por umas regiões muito bonitas perto dos rios Reno e Ruhr, e paramos para almoçar no porto fluvial de Duisburg, que, segundo o guia, é o maior porto do mundo fora de uma região costeira.

Essen Werden
Igreja da Abadia de São
Ludgero, em Essen-Werden.
Depois de umas duas horas assando dentro do ônibus, vendo uns castelos e cidades medievais passarem de vez em quando, finalmente paramos na vila de Essen Werden. Lá havia uma abadia medieval (São Ludgero) que hoje abriga uma escola de teatro, música e dança (a Folkwang) em volta do qual nasceu uma cidade ribeirinha bem simpática. No outro passeio conheci apenas o estacionamento dessa abadia sem sair do ônibus. Desta vez tivemos tempo e as pessoas puderam sair para conhecer a cidade, caminhar pelas suas ruas estreitas, parar num café e tomar um chopp ou um sorvete, ou simplesmente descansar em alguma sombra. Voltamos para o acampamento completamente exaustos, mas nem todos foram dormir.

Veja mais fotos do passeio na região do Rurh:
Bottropp TetrahedronBridge in DuisburgFolkwang School (Essen-Werden)
Bottropp TetrahedronSt. Liudger's Abbey, Essen-WerdenTetrahedron in RuhrgebietEssen-Werden
Play-off/06 Ruhrgebiet tour: Bottrop TetrahedronDuisburg Inner HarbourPlay-off/06 Ruhrgebiet tour: Bottrop Tetrahedron

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5.7.06

A dinastia dos Krupp, em Essen


A Família Krupp. Fonte: WikiPedia.

Ao pesquisar a história de Essen, uma das principais cidades da região do Ruhr, é impossível não se deparar com a presença constante da família Krupp. Não é por acaso. Os Krupp têm uma história de 400 anos na cidade e região e seus negócios na indústria do aço e armamentos tiveram impacto mundial. E é uma história fascinante. Essa família fez sua fortuna na indústria do aço, forneceu armamentos para quatro grandes guerras e adquiriu um poder de manipulação econômica e política que se estendeu além das fronteiras da Alemanha. Ao mesmo tempo, ajudou a desenvolver uma importante região da Alemanha e estabeleceu relações trabalhistas inovadoras para a época da revolução industrial.


Margarethenhöhe, em Essen
Em Essen eu conheci dois lugares ligados à família Krupp: o bairro de Margarethenhöhe, construída por Margarethe Krupp em 1906 para abrigar 10 mil trabalhadores das indústrias Krupp, e a Villa Hügel - a mansão da família Krupp construída em 1873 e usada por três gerações da dinastia. Um pouco da história da família Krupp foi contada pelo guia em um dos passeios que fiz em Essen, mas descobri que há muito mais. Muitos detalhes, principalmente os relacionados com o envolvimento dos Krupp com o regime nazista, são pouco mencionados ou minimizados nas versões oficiais.

A parte mais interessante da história dos Krupp começa em 1811, quando Friedrich Krupp, aos 19 anos, assumiu uma pequena fundição da família que era administrada pela sua avó. Friedrich não administrou muito bem o negócio da família e em pouco tempo foi à falência, mas continuou a gastar o dinheiro que tinha à disposição.

Alfred Krupp (1812-87)
 Três anos depois sua avó morreu e, numa atitude que poderia ter sido desastrosa, deixou toda a fortuna da família para o neto gastador. Negligenciando os outros negócios da família, Friedrich decidiu investir na pesquisa de processos de fundição do aço. Teve pequenos sucessos mas na sua morte em 1926, a empresa acumulava muitas dívidas. Com grande dificuldade seu filho Alfred levou adiante os negócios da família. Alfred era um perfeccionista e dividia seu tempo entre o trabalho e a pesquisa. Quando expôs seus canhões de aço leves, seguros e de grande alcance em uma exposição militar logo tornou-se uma celebridade no ramo, e sua empresa em Essen ficou famosa. Com novos recursos, passou a investir também na fabricação de trilhos e realizar pesquisas com locomotivas a vapor. Adquiriu minas de carvão em várias partes da Europa.

Alfred Krupp era amigo do imperador do Brasil, D. Pedro II, com quem se correspondia regularmente desde 1837. O imperador várias vezes foi hóspede na mansão dos Krupp em Essen, na Villa Hügel. A Krupp forneceu ao Brasil não apenas canhões, mas milhares de toneladas de trilhos e outros acessórios para a construção de ferrovias.

A empresa especializou-se na fabricação de armas. No final dos anos 1880, 50% da produção estava envolvida na fabricação de canhões para exportação. Alfred Krupp, conhecido no mundo como o Rei do Canhão, já era uma das figuras mais importantes da revolução industrial. Sua empresa, herdada do pai com pouco mais de 5 empregados, já empregava mais de 25 mil pessoas apenas em Essen. Era a maior empresa industrial do mundo.


Friedrich Krupp AG, em Essen, 1906. Foto: Deutsches Historisches Museum, Berlin

Na área social, Alfred também foi um inovador. Numa época em relações trabalhistas praticamente não existiam, construiu e subsidiou as residências para seus empregados e suas famílias. As vilas residenciais tinham parques, escolas e áreas de recreação. Também criou para os empregados um programa de seguro de saúde e aposentadoria.

Após a morte de Alfred, em 1887, seu único filho Friedrich Alfred herdou a companhia. Em 1902 Friedrich foi acusado de pedofilia em um escândalo envolvendo crianças e adolescentes e cometeu suicídio poucas semanas depois. Bertha Krupp, casada com Gustav von Bohlen und Halbach, era a única herdeira viva. Ao casar-se, Gustav acrescentou o sobrenome Krupp ao seu nome, e em 1903, após a vaga deixada por Friedrich, assumiu a direção da empresa.

A história dramática da família Krupp até então já era lendária e inspirou escritores e dramaturgos, como George Bernard Shaw, que teria buscado inspiração nos Krupps para escrever sua peça Major Barbara.

Em 1914 a Krupp praticamente detinha o monopólio da fabricação de armas na Alemanha. Nesse ano ela produziu um dos principais armamentos usados na Primeira Guerra Mundial: um canhão móvel de grande potência e eficiência chamado Big Bertha (em homenagem à sua esposa).

De acordo com os historiadores oficiais, os Krupp nunca tiveram interesse por política e eram inicialmente hostis ao partido nazista, mas em 1930 eles aparentemente mudaram de idéia e filiaram-se ao Schutzstaffel (SS). Gustav, que era presidente da federação das indústrias alemãs, foi nomeado por Hitler como presidente do fundo industrial cujos recursos ajudaram a financiar o governo nazista.
Villa Hügel
Fachada da mansão Krupp, na Villa Hügel, em Essen.
 Nesta época, Alfried, filho de Gustav, já administrava a empresa junto com o pai, embora só tenha assumido a direção da empresa em 1943. Depois que Hitler assumiu o poder na Alemanha em 1933, as indústrias Krupp tornaram-se o centro do rearmamento alemão. No mesmo ano as fábricas Krupp começaram a fabricar tanques. Durante a Segunda Guerra Mundial, Krupp foi o maior fornecedor de armas ao exército alemão. De acordo com William Manchester, autor do livro The Arms of Krupp, as empresas Krupp também construíram fábricas em países ocupados pela Alemanha e usaram o trabalho de mais de 100 mil escravos residentes em campos de concentração.

Em 1940, o presidente Getúlio Vargas chegou a negociar com a Krupp a construção de uma siderúrgica no Brasil depois de várias negociações fracassadas com empresas americanas. A negociação foi um dos momentos mais tensos nas relações entre o Brasil e os Estados Unidos, que ofereceu crédito federal para a criação da Companhia Siderúrgica Nacional. De acordo com documentos militares confidenciais revelados nos anos 90, havia planos de invasão do país pelos Estados Unidos caso as negociações fracassassem.

Em 1943, Adolf Hitler nomeou Alfried Krupp como ministro da economia de guerra. No mesmo ano a SS autorizou que ele usasse 45 mil civis russos como escravos em suas fábricas de aço além de outros 120 mil prisioneiros de guerra em suas minas de carvão. Devido à sua associação ao regime nazista, suas fábricas eram os principais alvos dos bombardeios aliados. No fim da guerra, dois terços das fábricas tinham sido ou destruídas ou danificadas.

Preso pelo exército canadense em 1945, Alfried foi julgado como um criminoso de guerra em Nuremberg. O seu pai Gustav também foi indiciado, mas foi poupado por estar velho e demente. Gustav morreu em 1950.


Alfried Krupp. TIME Magazine, 19/08/1957.
A Krupp alegou que não teve escolha ao aliar-se ao regime nazista. Contou com os melhores advogados americanos e lobbies que atendiam a interesses não declarados. Durante a Segunda Guerra Mundial várias empresas alemãs utilizaram-se de trabalho escravo de prisioneiros capturados nos territórios ocupados. A versão oficial é que essas empresas foram forçadas pelos nazistas a aceitar os escravos. No caso das indústrias Krupp, segundo Manchester, documentos obtidos nos arquivos do próprio Alfried Krupp mostram que o industrial deliberadamente solicitou o fornecimento de escravos, muitas vezes exigindo mais que os nazistas estavam dispostos a fornecer. Alfried foi considerado culpado e condenado a doze anos de prisão e a ter sua propriedade confiscada.

Mas sua prisão não durou muito. Em 1951 o alto comissário americano da zona de ocupação na Alemanha, John McCloy, ordenou sua libertação e devolveu sua propriedade e suas indústrias (McCloy foi presidente do Banco Mundial, diretor do Chase-Manhattan e da Fundação Ford, além de conselheiro militar e de política exterior de vários presidentes americanos, entre eles Kennedy e Reagan). Poucos anos depois de reassumir suas funções, Alfried já era um dos homens mais ricos do mundo e sua empresa já estava novamente entre as maiores corporações. Sua expansão multinacional começou pouco depois com uma fábrica construída em Jundiaí, no Brasil nos anos 60. Alfried Krupp faleceu em 1967.

Em 1968 a família abriu mão do controle da firma e em 1999 fundiu-se a outra empresa tradicional do Ruhrgebiet e seu principal concorrente: a Thyssen da cidade de Duisburg, formando a Thyssen-Krupp: a quinta maior corporação da Alemanha e um dos maiores produtores de aço do mundo.

Fontes e referências

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4.7.06

Nossas apresentações na Alemanha


Cena da peça em Essen, com Luís Paulo Maeda.

Fizemos duas apresentações da nossa peça em espaços bem diferentes. Em cada espaço, além da reorganização do palco, montagem do cenário e afinações de luz, tivemos que bolar como utilizaríamos os espaços externos, já que a peça começa fora do palco. A primeira cena acontece quando uma mulher louca, com as mãos atadas, surg