30.6.08

10 Cenas em uma praça (únicas apresentações)


Detalhe do cartaz.

Em outubro de 2005 eu escrevi várias cenas experimentais para teatro enquanto buscava contribuir para o texto da peça Vestir o Corpo de Espinhos (uma criação coletiva produzida pelo Núcleo Experimental dos Satyros, e que esteve em cartaz em 2005 e 2006 e foi selecionada para representar o Brasil em um festival internacional de teatro na Alemanha.) Cheguei a escrever 19 cenas, e uma delas (Crepúsculo) acabou fazendo parte da peça. Na época, selecionei 12 que eu considerei as melhores cenas e publiquei no meu site.

O texto foi descoberto pelo diretor Péricles Martins que apresentou a seus alunos do curso profissionalizante da escola Recriarte / Actor Brasil. Durante o primeiro semestre deste ano eles ensaiaram 10 das 12 cenas e irão apresentá-las nos próximos dias 1o (terça) e 3 (quinta) de julho em São Paulo, às 21h. Serão as únicas apresentações.

São várias de cenas (sem ordem definida) que acontecem em uma praça, em um futuro hipotético (talvez daqui a uns 250 anos). É um mundo onde os espaços são monitorados mas há falhas e a praça - onde acontecem as cenas - é um desses lugares. As personagens vivem situações que são metáforas do presente, de valores, de temores ou de mitos. Falam de liberdade, de sonhos, de lembranças, de amor, de morte e de solidão, às vezes nas entrelinhas.

Eu pretendo assistir às duas apresentações. Quem estiver em São Paulo e quiser assistir está convidado. Seguem os detalhes abaixo.

10 cenas em uma praça (daqui a 250 anos)
Direção: Péricles Martins
Texto: Helder da Rocha
Realização: Actor Brasil / Escola Recriarte.
Elenco: João Ramos, Luciana Lima, Michele Moreira, Regina Schirmer, Sueli Rodrigues (curso profissionalizante intensivo, turma Sergio Viotti).
Local: Actor Espaço Teatral. Rua Fradique Coutinho, 994, Vila Madalena. 100 lugares. Tel.: (11) 3034-5598 / 3817-4222.
Data e Hora: dias 1o (terça) e 3 (quinta), às 21:00
Ingresso: 1kg de alimento não perecível ou R$5,00 (Campanha Social)

Marcadores: ,

12.12.07

Não está no texto, está na vida!

A Santa. A Madonna, de Edward Münch
A Madonna, por Edward Münch

Uma faísca de luz numa noite clara de verão espalhou o fogo. Começou suave, mas fez desabar a casa onde ela dançava. As fundações estavam gastas mas ninguém tinha coragem de tocá-las com medo que as paredes caíssem, até que veio a guerra, e uma inocente faísca. As estruturas vulneráveis sucumbiram, o incêndio alastrou-se e tudo que era estável desintegrou-se em chamas. Nem parecia real, talvez fosse mero reflexo ou cena teatral. Ela, que multiplicara-se em personagens, já não cabia no lugar que tornara-se pequeno demais. Descobriu-se só no vasto e imprevisível mundo, e saiu da cena, livre, guiando-se pelos caminhos abertos pelo fogo.

Ele imaginou-se uma faísca e sonhou com o fogo, onde descobriu seu próprio rosto refletido como num espelho. “O homem”, imaginou ter ouvido alguém falar. Olhou novamente e sentiu as chamas, e novamente o eco refletiu “O fogo”. Era sonho, pois ao acordar só lembrava que era outro, apenas um ator, um ator medíocre. Não lembrava mais nada. Sua identidade parecia existir apenas no texto que esquecera. Era teatro. Mas quando acordava o seu coração continuava em chamas então confundia-se e não sabia se amava a atriz ou a personagem. Talvez nada disso exista, de fato, na vida. É um truque. Talvez esteja apenas no texto.

Nem tudo é real. Nem tudo é apenas teatro. É um truque. E o que é que a Madonna de Münch tem a ver com tudo isto? Não sei. Talvez eu tenha trocado um ou dois idiomas que se misturaram. Assista El Truco (e não leve muito a sério). A última chance é neste próximo domingo, dia 16 de dezembro às 18 horas, no teatro dos Satyros Dois, Praça Roosevelt 134, Centro. É a última chance mesmo! Não haverá outra. Ingresso: 5 a 20 reais. Reserve e chegue cedo pois vai lotar.

(O texto acima e a imagem não têm nada a ver com a peça. Sobre esta peça eu não escrevo nada sério; só viajo. Mas venha ver!)

Marcadores:

29.11.07

El Truco: últimas apresentações



O escritor inventou tudo, inclusive a si próprio. O bunker era imaginário, assim como os nomes dos atores, das personagens e das pessoas que inventavam os nomes das personagens. Eram reais apenas seus instintos primitivos, o medo, o amor, o ódio, o riso, a dor, a luxúria, o sonho e a loucura, a vida e a morte. A peça em si foi uma grande farsa, um ensaio interminável ou um delírio coletivo.

Mas faça de conta que existe uma peça. Faça de conta que existe um livro. Faça de conta que você existe, e que sabe quem é realmente. Faça de conta que é tudo verdade e que o bunker é um espelho. Veja seu rosto refletido. O reflexo é um truque: é apenas um raio de luz. A noite clara faz sonhar com a floresta. Quando acordar verá que são apenas atores.

O casamento nunca aconteceu. O duende nunca ganhou seu papel. A guerra nunca terminou e na fuga ninguém sobreviveu. A peça nunca sequer começou.

É um espelho. Um truque de luz, uma brincadeira. Assista El Truco, mas não leve muito a sério. Espaço dos Satyros Dois, Praça Roosevelt 134, Centro. Domingos dias 02, 09 e 16 de dezembro às 18 horas. Ingresso: 5 a 20 reais.

A história continua dentro da coxia.

Marcadores: ,

7.10.07

Últimas Notícias de uma História Só

Foto: divulgação, blog de Otavio Martins
"También hay sorteos impersonales, de propósito indefinido: uno decreta que se arroje a las aguas del Éufrates un zafiro de Taprobana; otro, que desde el techo de una torre se suelte un pájaro; otro, que cada siglo se retire (o se añada) un grano de arena de los innumerables que hay en la playa. Las consecuencias son, a veces, terribles."
-- Jorge Luis Borges, La Loteria en Babilonia (Ficciones)

Últimas Notícias de uma História Só é a história de um seqüestro. Não, isto seria uma simplificação, pois o seqüestro poderia nunca ter ocorrido. Se eu não tivesse assustado o pombo enquanto caminhava pela calçada naquela noite, ele não teria ido para a rua, o motorista não teria tentado desviar, e o motoqueiro não teria sido derrubado. Um engarrafamento monstro teria sido evitado em plena noite de sexta-feira. Foi lamentável, pois o engarrafamento prejudicou o Victor, que tinha apenas dez minutos para descer a Consolação e não perder a peça, mas por conta do trânsito levou mais de vinte minutos e não encontrou a Flávia, que ele não conhecia, mas que teria encontrado na fila se ele tivesse chegado na hora. Certamente os dois teriam iniciado um papo, pois Flávia levava um exemplar de Ficções, de Jorge Luis Borges, para ler enquanto esperava, já que foi ao teatro sozinha. Victor, que é louco por Borges, jamais deixaria de perceber esse detalhe. Mas o fato é que Victor ganhou um bilhete premiado da Loteria da Babilonia e nunca chegou, e nunca mais chegaria, pois irritado com o trânsito acabou pegando uma contramão, batendo de frente com um ônibus cujo radiador foi irreversivelmente danificado pelos ossos do seu crânio. O acidente bloqueou a rua e atrapalhou os planos de Vanderley, Roberto e sua cúmplice (da qual por um lapso de memória, neste instante, não me lembro o nome), que desistiram de levar adiante um assalto, que se tivesse ocorrido, provavelmente fracassaria, ou evoluiria para um seqüestro mas eu não tenho tanta certeza, pois em momentos como esses coisas incríveis acontecem, até mesmo chuvas de sapos.

Mas nada disso tem a ver com a peça, exceto por um ou dois nomes próprios, a hora e talvez algumas circunstâncias. Se por acaso você chegou a ler este texto, talvez queira saber que história é essa da qual eu falo, porque talvez, apesar de tão diferente, talvez seja tudo uma história só, apenas as últimas notícias de uma história que ainda não terminou.

* * *

Como sempre, isto não é uma crítica de teatro. É só mais uma viagem inspirada pelas impressões despertadas numa madrugada da sexta para o sábado num teatro da Praça Roosevelt.

A peça Últimas Notícias de uma História Só é uma criação coletiva dirigida por Otávio Martins (ex-Cia. do Latão) com Alex Gruli, Luciano Gatti e Melissa Vettore, e está em cartaz toda sexta e sábado, à meia-noite, no Satyros II. E se por um acaso você chegar um pouco mais cedo, tipo antes das 18h, aproveite e assista também El Truco, de Roberto Audio, com o Núcleo Experimental dos Satyros, as 18h, no mesmo teatro.

Amanhã irei ao Rio de Janeiro, a trabalho, mas à noite tentarei ver algumas peças do Festival do Rio. Volto quinta. Na quinta à noite começam as Satyrianas.

Marcadores: ,

14.9.07

El Truco



Who are you? And why, why do you hide?

I dreamt I was the boy who had died
So I saw myself running alone
In a bleak narrow street made of stone
With tiny dark houses on each side
I sought the place where they hid my face
The silent grave that would end my chase
It had no portrait, no cross, no name
Just a mirror in a silver frame
I sought the place where it all began
And there I found the face of a man.

Ein Mann.

Mann?

I'm just a spark of light in a clear summer night
I have no matter, no past, just light, reflected
A well known face
The face... of a man
When I wake up from this dream I am just an actor
A mediocre actor
My memory is blank
But my heart... It's on fire.

Feuer! Überall! Feuer!

Fire!

Fuego? Quizás no. Es solamente una pieza, somente uma peça, um truque.

El Truco, de Roberto Audio, com o Núcleo Experimental dos Satyros. Espaço dos Satyros 2 (3258-6345), praça Roosevelt 124, Consolação (São Paulo). Sábados e domingos às 18 horas, até 16 de dezembro. 70 lugares. Duração 90 minutos.

Sinopse (www.satyros.com.br): Um escritor mal-sucedido relata tudo o que vivenciou num bunker, durante uma guerra desconhecida, com um grupo de sobreviventes que tenta ensaiar o espetáculo “Sonho de uma Noite de Verão” de William Shakespeare.

Elenco: Ana Lúcia Felipe, Ana Pereira, Andressa Cabral, Angela Ribeiro, Cléo de Páris, Edna Elizabeth, Fabiana Souza, Helder da Rocha, Ivam Cabral, Laerte Késsimos, Marba Goicocchea, Maria Campanelli Haas, Paulo Maeda, Ricardo Socalschi, Teka Romualdo, Thammy Allonso, Thiago Baliero, Wagner Mendonça, Wanderley Safir e Washington Calegari.

Não me pergunte sobre a peça porque eu não sei nada sobre a peça. Eu sou o Bute, o bufão de Oberon. O Bute não sabe de nada; ele não decorou o texto. Assistam.

www.satyros.com.br.

Marcadores:

6.9.07

E non ho amato mai tanto la vita!


E lucevan de stelle: Luciano Pavarotti (12/10/1935 - 06/09/2007) interpretando o pintor Mario Cavaradossi em cena da ópera "Tosca", de Giacomo Puccinni.

Ópera é teatro. Não basta ser um exímio cantor. Pavarotti também era um ótimo ator, como mostra este vídeo enviado por minha amiga Alessandra. Seus olhos, seu corpo, seus movimentos pelo espaço revelam a personagem que interpreta e tornam o seu canto muito mais dramático.

Marcadores: ,

17.12.06

Somente hoje



Haverá mais um ensaio aberto da peça Prólogo no Bunker, inspirada em Sonho de uma Noite de Verão de Shakespeare, e produzida pelo Núcleo Experimental dos Satyros.

Direção: Roberto Audio
Elenco: Alessandra Souza, Andressa Cabral, Ana Lucia Felipe, Ana Karina Linhares, Ana Pereira dos Santos, Angela Ribeiro, Fabiana Souza, Helder da Rocha, Luis Paulo Maeda, Peterson Ramos, Ricardo Socalschi, Teka Romualdo, Thammy Alonso, Wagner Mendonça, Wanderley Firmino, Washington Calegari.

Domingo 17 de dezembro, às 23 horas, no Espaço dos Satyros 2 (Praça Roosevelt, 124). (11) 3258-6345. Capacidade: 60 pessoas. Duração aproximada: 1 hora.

Marcadores: ,

2.12.06

Vista o corpo de espinhos



Domingo (amanhã) eu farei minha última participação como ator na peça Vestir o Corpo de Espinhos, que está em cartaz no Espaço dos Satyros I. A peça voltou depois que retornamos da Alemanha mas com outro elenco e minha participação normalmente resume-se à executar parte da trilha sonora em acordeón e piano. Mas domingo irei subtituir um ator e atuar em três cenas da peça representando uma das personagens que criei no texto Crepúsculo (que agora faz parte do texto da peça, criado coletivamente). Quem quiser e puder ir, me avise ou ligue para os Satyros para garantir lugar (o teatro é pequeno, a disposição dos assentos foi alterada e cabem apenas 40 pessoas).

É uma pessa impressionista. Eu já escrevi sobre ela neste outro post. As imagens acima são do vídeo da peça gravado por Carlos Ebert, com o elenco original, que foi usado para nossa inscrição no festival Play-off/06, na Alemanha.

Vestir o Corpo de Espinhos
Domingos, dia 3 e 10, 18h.
Espaço dos Satyros 1. Praça Roosevelt, 214. (11) 3258-6345.
R$ 20 (desconto de 50% para estudantes).
Duração aproximada: 40 minutos.
Estacionamento em frente ao teatro.

Ficha Técnica:
Elenco: Ana Karina Linhares, Ana Lúcia Felipe, Ana Pereira dos Santos, Andressa Cabral, Angela Ribeiro, Fabiana Souza, Helder da Rocha, Paulo Maeda, Peterson Ramos, Ricardo Socalschi, Teka Romualdo, Wagner Mendonça, Wanderley Safir, Washington Calegari.
Texto: Criação coletiva.
Dramaturgia e figurino: Núcleo Experimental dos Satyros, Rita Fernandes e Regina Ciampi.
Piano, acordeón e trilha sonora original: Helder da Rocha
Direção: Alberto Guzik
Cenários e objetos de cena: Fabiana Souza, Rita Fernandes, Helder da Rocha e Regina Ciampi.
Produção visual: Angela Ribeiro.
Operador de Luz: Peterson Ramos
Operador de som: Andressa Cabral

Marcadores: ,

3.11.06

Satyrianas



Ontem começaram as Satyrianas – o evento anual promovido pelo teatro dos Satyros. O evento geralmente na semana que dá início à primavera, mas este ano, a prefeitura não autorizou o evento - que dura 78 horas ininterruptas - e ele acabou não acontecendo em setembro.

Participam do evento os dois espaços dos Satyros, o espaço dos Parlapatões, o Next, a Compania do Feijão, o Teatro Fábrica São Paulo e a Biblioteca Mário de Andrade. Há uma vasta programação cultural que envolve 46 espetáculos teatrais, saraus poéticos e literários, shows, intervenções teatrais, oficinas, teatro de rua, uma peça de 78 horas de duração (o Uroborus), um festival de curtas e outras coisas que não lembro agora.

A abertura aconteceu no teatro dos Parlapatões na praça Roosevelt, onde o Mário Bortolotto cantou umas músicas e depois iniciou, com a atriz Helena Ignez, o Uroborus.

É a segunda vez que acontece o Uroborus nas Satyrianas. Eu participei dele no ano passado e escrevi um post. O esquema é o mesmo: 78 duplas revezam-se e interpretam o mesmo texto, inventam, criam, e fazem qualquer coisa para que a peça não pare e que continue interessante. Este ano vou participar e entrarei em cena às 7 horas da manhã de sábado (amanhã, eu creio – eu estou meio desorientado). O texto é outro (chama-se Ai de Mim, e agora, neste momento, ai de mim, não lembro do nome do autor – depois eu atualizo isto). Recebi o texto ontem, é enorme, não sei o que vai ser dele, mas prometo que farei o melhor teatro para os corajosos que por acaso aparecerem na platéia.

As Satyrianas é uma ótima oportunidade para quem ficou em São Paulo no feriado e sabiamente evitou os aeroportos e as estradas. As peças custam o valor que você quiser pagar. E são ótimas peças que geralmente custam de 15 a 35 reais. A qualquer hora do dia, da noite ou da madrugada acontece alguma coisa. É um programa ótimo para os insones. A programação está disponível no site dos Satyros.

Do Núcleo Experimental dos Satyros haverá duas peças. Chico em Obras (sábado, 16 horas), produzido pelos oficineiros dos Satyros de 2005, é uma peça inspirada nas músicas e peças de Chico Buarque. A apresentação nas Satyrianas é única pois a peça saiu de cartaz no ano passado. Vestir o Corpo de Espinhos (domingo, 17 horas) foi produzida pelo Núcleo no ano passado e representou o Brasil no festival Play-off/06 na Alemanha. Voltou neste segundo semestre com novo elenco. Eu participei da criação do texto da peça, fiz objetos usados em cena e compus a trilha sonora original. Nesta temporada participo tocando acordeón e piano. Excepcionalmente nas Satyrianas eu estarei também atuando como um personagem cego.

Há mais sobre as Satyrianas no site dos Satyros, no blog do Ivam Cabral e no portal de teatro do UOL (que ainda não foi inaugurado oficialmente, mas que já tem conteúdo).

Marcadores: ,

25.7.06

Até a próxima viagem

Vou dar um tempo (breve) no blog e mudar de assunto a partir do próximo post. Organizei abaixo um índice dos 22 artigos, notícias e relatos que escrevi nos últimos dias. Todos são de alguma forma relacionados à viagem que fiz à Alemanha e à Holanda, entre 2 e 18 de junho, por ocasião do festival internacional de teatro Play-off/06, para o qual fui convidado a participar como ator junto com o Núcleo Experimental dos Satyros.

Notícias
 2. In Gelsenkirchen (13/jun).
 3. Colonia (Köln) (16/jun).
 4. De volta à realidade (22/jun).
Sobre a peça e montagens
 1. Ein Körper in Dornen (01/jun).
 9. Como fomos parar na Alemanha? (29/jun)
13. Nossas apresentações na Alemanha (04/jul).
Sobre o festival
10. O Festival Play-off/06 (30/jun).
11. Play-off/06: a Vila (30/jun).
12. Play-off/06: primeira semana (04/jul).
15. Play-off/06: Ruhrgebiet tour (07/jul).
16. Play-off/06: segunda semana (07/jul).
22. Play-off/06: encerramento e despedida (25/jul).
Relatos e artigos inspirados pela viagem
 5. Consol Theater (27/jun).
 6. O Ruhrgebiet (27/jun).
 8. Gelsenkirchen, Essen, Herne e Dortmund (29/jun).
 7. Zeche Zollverein (28/jun).
14. A dinastia dos Krupp, em Essen (05/jul).
17. A viagem para Colônia (17/jul).
18. A Catedral de Colônia (18/jul).
19. Rembrandt van Rijn, 400 anos (18/jul).
20. A viagem para Amsterdã (23/jul).
21. O Rijksmuseum, em Amsterdã (23/jul).
Fotografias
1. Play-Off/06 no Flickr.
2. Colônia, no Flickr.
3. Amsterdam, no Flickr.

Marcadores: ,

Play-off/06: encerramento e despedida


O pianista e compositor Michael Gees regendo a orquestra de 90 músicos durante uma peça musical de 40 minutos que encerrou o Play-off/06.

Este é o último post da série sobre a minha viagem para a Alemanha e o festival Play-off/06. Ainda bem, pois preciso mudar de assunto. Sobre a viagem e sobre o festival acho que eu já falei tudo. Faz mais de um mês que tudo terminou e eu não lembro mais dos detalhes. Então vou deixar que as fotos falem o que não estiver escrito, e vou apenas relatar o essencial.


Todos os atores e diretores reunidos na tenda, no sábado, antes da festa de encerramento.

A festa final do festival Play-off/06 foi parte de um grande evento que acontece anualmente em todo o Ruhrgebiet chamada de Extraschicht. A vasta programação cultural acontece em várias antigas instalações industriais nas 11 cidades da região. No Consol Theater o evento foi o encerramento do festival Play-off/06, que atraiu milhares de pessoas ao local onde estávamos acampados.

A área da mina Consolidation encheu de gente. Foram montados quatro palcos de rua onde os atores dos vários grupos apresentaram cenas e improvisações simultaneamente. Nosso grupo fez três improvisações em dois desses palcos. À meia-noite, no palco principal, houve um concerto de encerramento com uma apresentação musical de 50 minutos, ilustrada com coreografias realizadas por todos os grupos de teatro presentes. A peça musical foi composta e executada pelo pianista alemão Michael Gees e sua orquestra.


Milhares de pessoas da região compareceram para assistir ao encerramento.

A festa terminou com luzes, música e fogos de artifício. Depois que as milhares de pessoas foram embora restaram apenas nós: os pouco mais de cem habitantes internacionais da vila. Era a vez da nossa festa de despedida. Então ficamos acordados, esperando os grupos que partiam, conversando até o dia amanhecer.


A mina, pouco depois do final da festa.

O domingo foi um dia estranho, silencioso. Alguns grupos já partiram de madrugada, outros foram partindo ao longo do dia. Quando chegava o ônibus para levar um grupo para o aeroporto, quem estava dormindo acordava. As despedidas eram intensas, com abraços, fotos e lágrimas. No fim da tarde o acampamento estava quase vazio. Nós fomos um dos últimos grupos a partir. Partimos junto com os argentinos, sul-africanos e equatorianos.


Atores do Brasil, Polônia, Estados Unidos


Montagem com fotos tiradas por Ricardo Socalschi durante a festa de encerramento.

O embarque e as conexões foram tranqüilos. No vôo Paris - São Paulo, ficamos separados em assentos espalhados pelo avião, e eu dormi quase toda a viagem. Só acordei para o café da manhã pouco antes da chegada. A semana da volta à realidade foi esquisita e levei vários dias até me acostumar com a rotina urbana, noites longas, e vozes falando apenas português. Viagens sempre mexem comigo. Demorei para achar o rumo, mas agora é hora de seguir outros caminhos, até a próxima viagem.

Marcadores: ,

7.7.06

Play-off/06: segunda semana


Festa de abertura da segunda semana em Herne. No alto, à direita, Teka cantando e mexicanos (Os Faceiros) tocando samba.

Todas as apresentações da primeira semana do festival Playoff/06 aconteceram em três cidades: Essen, Gelsenkirchen e Dortmund. Na segunda semana, saiu a cidade de Essen e entrou Herne, que inaugurou sua participação com uma festa de boas-vindas no sábado, no Flottmann-Hallen (uma antiga fábrica desativada transformada em teatro). Como em Essen, foi montado um palco para os grupos se apresentarem com improvisações, que eram geralmente apresentações de dança. O grupo Longe do Mar, do México (que é um grupo de capoeira) fez um show de percussão em ritmo de samba. A festa se estendeu pela madrugada.

À esquerda: cena da peça Quando eu aqui cheguei, do grupo Capoeira Longe do Mar, do México. Foto: Benjamin Stöss. À direita: cena da peça Miserere Nobis do grupo Banfield, da Argentina. Foto: Peterson Ramos.

Eu perdi minhas anotações sobre as peças da segunda semana (12 a 16 de junho), então vou ter que confiar na minha memória. Comecei a semana me perdendo em Gelsenkirchen ao procurar uma lavanderia e não conseguindo voltar a tempo para assistir a peça da Argentina (grupo Banfield, de Buenos Aires), que vários consideraram a melhor do festival. O resto do nosso grupo conseguiu assistir, e não haveria outra chance pois a outra apresentação acontecera mesmo dia e horário que a nossa peça. Só me resta agora a chance de ver a peça em DVD.


La Vita Bassa, da Itália.
Foto: Tri-Boo.

Crossroads, do grupo Mimart
(Sérvia e Montenegro).
Foto: Predrag Radovancevic.
O grupo da Itália (Tri-Boo) não participou do evento inteiro. Chegou no domingo à noite, fez uma apresentação na segunda-feira à tarde e voltou na terça-feira. A peça, La Vita Bassa, era uma coreografia surrealista com uma temática existencialista, que usava muitas sombras, um texto banal e personagens que agiam como máquinas: uma crítica à condição humana atual, à submissão às convenções e à perda da identidade.

Na terça-feira foi o dia da nossa apresentação em Herne, sobre a qual eu já falei em outro post. Depois da nossa apresentação, assistimos à peça da Sérvia e Montenegro que chama-se Crossroads (Encruzilhada). A platéia foi distribuída em quatro áreas do palco deixando dois corredores que se estendem até os limites do palco, por onde passam os atores. Dos quatro cantos surgem personagens, que andam, que se trombam, que dançam, que falam diferentes línguas. No centro está uma bruxa que ninguém vê. Ela segura um globo. Eu não entendi o papel da bruxa. A encruzilhada parece representar o inevitável encontro entre povos e culturas. A peça utiliza-se de muita linguagem abstrata, símbolos, dança e fogo.


Cena da peça Mahler & Symphony to Nature do Teatro Jovem de Zagreb, Croácia. Foto: Play-off.

Na quarta-feira eu, o Ricardo e o Luís assistimos a peça da Croácia, Mahler e uma Sinfonia para a Natureza, que apresentou um espetáculo de dança com belas imagens e coreografias inspiradas na música de Gustav Mahler. Mulheres de branco com vestidos longos e altos como se estivessem em uma gôndola, remando. Um exército, que se desestrutura após a uma insubornidação coletiva e transforma-se em um baile. Eu não entendi nada, mas achei bonito. Na seqüência haveria o espetáculo do México, que eu acabei não assistindo pois era a única tarde que teríamos para conhecer Colônia. A maior parte do nosso grupo já havia visto a apresentação deles, que utiliza capoeira e ritmos brasileiros.

Então na quarta-feira à tarde fui à Colônia, e na quinta-feira - que era feriado e um dia livre - fui a Amsterdam. Eu já escrevi os relatos dessas duas viagens e publicarei em breve.


La Quete Noir, da Compagnie Woenyo, Togo. Foto: Play-off.

Na sexta-feira Eu, Ricardo e Luís amanhecemos em Amsterdam, pegamos o trem das sete horas e chegamos em Herne a tempo para assistir o espetáculo da Alemanha, que começava às 10 horas. A peça acontecia dentro de um ringue de boxe com a platéia em volta. Infelizmente não lembro dos detalhes.

10 Gebote für Städtebewohner, da Alemanha. Foto: Benjamin Stöss.
 Tive que fazer um grande esforço para ficar acordado, não por a peça não ser interessante, mas por causa do cansaço da viagem e do pouco sono. A peça é uma dramaturgia coletiva que conta histórias reais de pessoas diante das dificuldades da vida. O sono não deixou que eu me concentrasse na peça, mas depois da peça da Alemanha tomei bastante café e consegui ver a peça do Togo: La Quete Noir. Nossa barraca era vizinha da do Togo, então eu já esperava ouvir muitos tambores. Eles apresentaram um belo espetáculo de dança tribal sem falas, que contava algum tipo de história (de guerra) utilizando-se apenas de linguagem corporal, cores, sombras e ritmos primitivos.

Marcadores: ,

Play-off/06: Ruhrgebiet tour


Torre nas margens do Reno, em Duisburg

Depois de uma semana de peças, workshops, festas e outros eventos, o domingo (11/06) era um dia livre. Nem tanto. André Wülfing veio logo nos informar que haveria um passeio pelo Ruhrgebiet organizado pelo Festival e seria muito importante que participássemos. Depois de ter participado de um passeio em Essen, onde praticamente não saí do ônibus e só vi as atrações passarem pela janela, eu fiquei na dúvida se valia a pena passar um dia inteiro em outro passeio de ônibus. Mas desta vez iria o acampamento inteiro, então fomos todos.


Escalando o tetraedro.
Foto: Ricardo Socalschi.
O passeio lotou três ônibus com o pessoal do acampamento. Passamos por várias atrações do Ruhrgebiet, mas realmente só deu para parar em três: o tetraedro de Bottrop, o porto fluvial de Duisburg e Essen-Werden. O resto do passeio (castelos, parques, o estádio, o gasômetro, minas, fábricas, igrejas, lagos, cidades medievais e outras atrações) vimos passar pela janela do ônibus (era preciso estar do lado certo do ônibus e ser rápido). O dia estava muito quente, e o ônibus estava um forno. Mas não foi ruim. Nos divertimos bastante nas paradas e tiramos muitas fotos.

A primeira parada foi em um mirante na cidade de Bottrop onde foi construído um tetraedro: uma estrutura em forma de pirâmide suspensa localizada em um parque da cidade com vista panorâmica de onde pode-se ver toda a região. Depois de mais ou menos uma hora, deixamos Bottrop, passamos por umas regiões muito bonitas perto dos rios Reno e Ruhr, e paramos para almoçar no porto fluvial de Duisburg, que, segundo o guia, é o maior porto do mundo fora de uma região costeira.

Essen Werden
Igreja da Abadia de São
Ludgero, em Essen-Werden.
Depois de umas duas horas assando dentro do ônibus, vendo uns castelos e cidades medievais passarem de vez em quando, finalmente paramos na vila de Essen Werden. Lá havia uma abadia medieval (São Ludgero) que hoje abriga uma escola de teatro, música e dança (a Folkwang) em volta do qual nasceu uma cidade ribeirinha bem simpática. No outro passeio conheci apenas o estacionamento dessa abadia sem sair do ônibus. Desta vez tivemos tempo e as pessoas puderam sair para conhecer a cidade, caminhar pelas suas ruas estreitas, parar num café e tomar um chopp ou um sorvete, ou simplesmente descansar em alguma sombra. Voltamos para o acampamento completamente exaustos, mas nem todos foram dormir.

Veja mais fotos do passeio na região do Rurh:
Bottropp TetrahedronBridge in DuisburgFolkwang School (Essen-Werden)
Bottropp TetrahedronSt. Liudger's Abbey, Essen-WerdenTetrahedron in RuhrgebietEssen-Werden
Play-off/06 Ruhrgebiet tour: Bottrop TetrahedronDuisburg Inner HarbourPlay-off/06 Ruhrgebiet tour: Bottrop Tetrahedron

Marcadores: ,

4.7.06

Nossas apresentações na Alemanha


Cena da peça em Essen, com Luís Paulo Maeda.

Fizemos duas apresentações da nossa peça em espaços bem diferentes. Em cada espaço, além da reorganização do palco, montagem do cenário e afinações de luz, tivemos que bolar como utilizaríamos os espaços externos, já que a peça começa fora do palco. A primeira cena acontece quando uma mulher louca, com as mãos atadas, surge do nada no meio da platéia que espera o início do espetáculo. Nos teatro dos Satyros, que tem um bar na entrada, ela surgia da rua. Era assustador para quem estava no bar. Nos dois teatros em Essen e em Herne, o palco ficava muito longe da rua, e apenas um deles tinha uma saída pelos fundos do palco. Então tivemos que buscar outras alternativas, que funcionaram muito bem.


Prédio onde fica o Studio-Bühne, no complexo Zollverein, Essen.

A primeira apresentação foi no dia 6 de junho, no Studio-Bühne em Essen, que fica em um dos prédios históricos do imenso complexo de mineração Zollverein. O Studio-Bühne não é um teatro, mas um espaço de festas que foi transformado em teatro especialmente para o Play-off/06. Infelizmente ele não proporcionou escuridão total, o que nos obrigou a cortar uma das cenas. Era uma cena de sonho que acontecia no escuro enquanto a platéia apenas ouvia a respiração ofegante de alguém que parecia estar fugindo de algo ou alguém. Flashes periódicos passavam a impressão de que haviam mesmo pessoas (ou fantasmas) no palco, e a cada flash parecia que eles estavam chegando mais perto. Sem escuridão total a cena, que depende dessas ilusões, não faria sentido.


Preparação do palco em Essen. Foto: Play-off.
Éramos 11 atores e não tínhamos diretor nem técnico para operar a luz e som. Tivemos que fazer tudo, desde adaptar as cenas ao ambiente, afinar a luz, organizar o espaço, definir as marcações e encontrar um meio de operar a luz e o som. Foi uma correria. A afinação da luz terminou menos de meia hora antes e não deu tempo para ensaiar no teatro. Como não tínhamos técnico de luz, organizamos um esquema de revezamento para garantir a realização do espetáculo. Mas, faltando 30 minutos para o início do espetáculo, chegaram os diretores dos Satyros Rodolfo e Ivam, e o ator Laerte Késsimos. Rodolfo acabou fazendo a luz e o som. Não ficou perfeito mas ninguém notou e no final deu tudo certo. Fomos muito aplaudidos (os alemães aplaudem muito e não param). Recebemos cumprimentos individuais de várias pessoas que assistiram à peça. As reações foram semelhantes às apresentações que fizemos no Brasil em dezembro: levou algumas pessoas às lágrimas. Não sei o que a platéia entendeu, mas a peça com certeza envolveu os espectadores. A apresentação em Essen teve boa repercussão o que atraiu mais espectadores para a segunda apresentação, que aconteceria em Herne na semana seguinte.


Flottmann-Hallen, em Herne. Foto: Ricardo Socalschi.

A segunda apresentação, no dia 13 de junho, no Flottmann-Hallen, em Herne, foi bem mais tranqüila. Laerte chegou no dia anterior e o controle do som e da luz funcionou melhor. Fizemos também mais ensaios e exercícios para melhorar a dicção das falas em inglês e alemão.

Luís afinando a luz no Flottmann-Hallen.
 O teatro em Herne permitiu que construíssemos um layout similar ao teatro dos Satyros em São Paulo (na verdade eu achei que ficou melhor que o dos Satyros, pois o teatro é mais largo). Pudemos fazer a maior parte da afinação e montagem no dia anterior. Tivemos escuridão total e pudemos trazer de volta a cena do flash. Eu tive um piano de cauda à disposição (em Essen tive um piano elétrico). A principal alteração foi na cena de entrada. O teatro ficava no andar superior, que tinha um mezanino, e as pessoas esperavam no andar de baixo. No início da peça, a Teka (a mulher louca) ficou no meio das pessoas, no andar de baixo, e Ricardo (um sacerdote) e Wanderley (um médico) a observavam do mezanino. Na hora em que ela tenta fugir, eles o capturam na escada. Enquanto isto, eu fiquei tocando acordeón de costas no mezanino até todos entrarem, e depois entrei como cego.


Eu como cego, em Herne.
Foto: Benjamin Stöss.
Assim como em Essen, a apresentação em Herne também emocionou a platéia. Como nós, os atores e diretores de vários países, estávamos sempre nos encontrando no acampamento e nas peças, sempre surgia uma oportunidade para se comentar abertamente sobre alguma peça. A principal crítica à nossa peça foi sobre a dificuldade de se entender o que os atores diziam em inglês, mas isto não chegou a prejudicar a peça, pois a principal linguagem usada (talvez, com exceção da minha cena com o Ricardo) não dependia do texto. Para a maioria dos espectadores que nos deram feedback, a linguagem corporal da peça foi capaz de transmitir imagens que deixavam impressões bastante fortes.

Marcadores: ,

Play-off/06: primeira semana

Ex-mineiro da mina Zollverein distribui presentes. Foto: Play-off
Como escrevi no post anterior, a festa na primeira noite não foi no camping, mas em Essen, no Studio-Bühne (estúdio-palco) que fica em uma mina de carvão mineral desativada chamada Zollverein (sobre a qual eu já escrevi em outro post). A cerimônia de abertura teve início de forma tradicional: discursos dos patrocinadores, apresentação os organizadores do festival, etc. Depois do blá, blá, blá, houve uma performance de um grupo local representando todos os países participantes, e depois todos os grupos presentes fizeram uma improvisação de três minutos para se apresentarem.
Carvão do Zollverein
 A abertura terminou com a chegada de vários ex- mineradores da Zollverein, vestidos em trajes de gala, que distribuíram presentes aos participantes. Os presentes eram pedras do "ouro negro" que por muitos anos moveu a economia da região: o carvão mineral. Depois que os mineiros partiram, foram finalmente abertas as portas da antecâmara do teatro onde havia um banquete - típicamente alemão - servido por personagens fantasiados. Quando a música começou no salão principal, a festa começou e se estendeu até as duas horas da madrugada.

O festival só começou mesmo na terça-feira no fim da tarde. O programa consistia de apresentações teatrais dos 16 grupos e oficinas de teatro, durante oito dias em duas semanas, em quatro teatros de quatro diferentes cidades. Havia ainda passeios e outras atividades agendadas nos finais de semana e feriados. A maior parte dos grupos apresentou-se duas vezes.
Festa de abertura no Zollverein
 O desafio era tentar montar uma agenda para não perder nenhuma apresentação. Participavam do evento 16 grupos de teatro de quinze países: África do Sul, Alemanha (com dois grupos), Argentina, Brasil, Coréia do Sul, Croácia, Equador, Estados Unidos, Holanda, Itália, México, Polônia, Sérvia e Montenegro, Togo e Trinidad e Tobago. Nosso grupo pôde assistir tudo com exceção de um dos grupos da Alemanha, ou seja, vimos 14 peças. Eu consegui assistir 12, pois além do grupo alemão, perdi as apresentações da Argentina e do México.

Eu perdi minhas anotações sobre as peças, então vou tentar lembrar o possível, de memória. Se eu lembrar de mais alguma coisa depois atualizarei este post.


Cena da peça da Coréia do Sul. Foto: Play-off.

Na terça-feira assistimos em Essen as apresentações da Coréia e de Trindad e Tobago. A Coréia apresentou uma peça chamada Kok Du, inspirada em mitos, com teatro de sombras, máscaras, bonecos e sons. Quando chegamos no teatro, fomos levados para dentro de uma tenda onde a peça acontecia, mas do lado de fora também acontecia muita coisa que percebíamos através de ruídos e sombras, som de gongos, vozes e percussão. O grupo de Trindad e Tobago apresentou uma peça folclórica: A viagem, que realizam há quase trinta anos e que conta a história de Trindad e Tobago explorando passos de dança caribenha. A peça não tinha muito de teatro contemporâneo (estava mais para peça "turística") e foi muito diferente de todas as outras que vimos no festival. Depois das apresentações, ficamos no teatro para preparar o palco para a nossa peça, que aconteceria no dia seguinte.

Na quarta-feira pela manhã apresentamos a nossa peça, sobre a qual eu falo em outro post. Na seqüência assistimos a peça do Ecuador, chamada Sin Papeles: a terra da oportunidade, sobre as tragédias reais dos imigrantes ilegais (sem papéis) que arriscam a vida para tentar entrar nos Estados Unidos.
Peça do Ecuador. Foto: Play-off
 A peça utilizava-se bastante de cores e movimentos. A impressão que tive era que os imigrantes retratados estavam mortos. Os atores usavam umas roupas que também os faziam parecer alienígenas ("alien" também é um termo usado para se referir aos imigrantes nos Estados Unidos.)

A partir da quinta-feira nos dividimos e parte do grupo foi para Dortmund enquanto que eu e Ricardo fomos de novo para Essen, onde vimos as peças dos Estados Unidos e da África do Sul. As peças começavam às 18 horas, então tínhamos tempo livre antes que pretendíamos utilizar para conhecer a cidade. Mas ficamos sabendo que haveria um ônibus que faria um passeio turístico pela cidade de Essen, então nós decidimos participar. Eu não gostei e tive sono durante o passeio. Não saímos quase do ônibus e vimos as atrações passando pela janela. Demos duas voltas no estacionamento da Abadia de St. Ludgero (não deu para ver a Abadia), e passamos pela frente da mansão da família Krupp na Villa Hügel. O único lugar que paramos e descemos foi em Margarethenhöhe, uma antiga colônia de operários das empresas Krupp. Eu gosto mais de passeios onde se caminha. Teria sido melhor se descêssemos do ônibus de vez em quando, mesmo que por pouco tempo, mesmo que não desse tempo ver tudo. O guia era muito detalhista e descrevia muitos detalhes irrelevantes das coisas que não conseguíamos ver, mas o passeio teve a vantagem de despertar meu interesse pela família Krupp, sobre a qual acabei escrevendo um post.


Cena de Night Breath, de Dennis Clontz (EUA). Foto: Benjamin Stöß.

A peça dos Estados Unidos foi Night Breath, do dramaturgo Dennis Clontz. Três mulheres se encontram num celeiro e descobrem um corpo feminino. Cada uma (são bem diferentes) declara ser a mulher morta e conta segredos do seu passado. Fica-se na dúvida se as mulheres são reais, se são a mesma pessoa, se é tudo um sonho. Há muita ação no subtexto (tanto que, Ricardo, que assistiu comigo e não compreendeu totalmente o inglês, percebeu coisas que eu não percebi por estar distraído pelo texto). Ukutipa (Bem-vindos), a peça da África do Sul começou com várias cenas cômicas representando turistas em visita à África do Sul. Os atores são muito livres e representam com muita naturalidade. A peça terminou com rituais, música e danças tribais.


Cena de Maanam byc lepiej, Polônia. Foto: Play-off

Na sexta-feira nosso grupo dividiu-se novamente e eu, Luís e Ricardo assistimos às peças da Polônia e Holanda. Maanam byc lepiej (não sei o que significa), a peça da Polônia, é bem impressionista. Parece ser o sonho de uma menina que dorme no palco. Enquanto ela dorme, várias pessoas entram e saem de cena. O telefone toca, e essas pessoas atendem. Explora temas como amor e ódio, vida e morte, e utiliza-se de linguagem corporal, luzes, cores e sons para transmitir essas questões através de impressões. A peça da Holanda, The Final Penalty, utilizou a Copa do Mundo como tema para um conjunto de improvisações cômicas inspiradas no futebol, misturando vídeo, música e teatro.

À esquerda: cena da peça da Holanda. Foto: Peterson Ramos. À direita: cena da peça da África do Sul. Foto: Benjamin Stöss.

Às 18h da sexta-feira houve uma reunião com todos os diretores para discutir teatro contemporâneo, organizado pelo Michael (assistente de diretor do Ecuador). Como nosso grupo não tinha diretor, eu participei da reunião como representante do nosso grupo. A reunião foi muito interessante pois cada grupo detalhou seus processos, suas dificuldades e suas idéias. Houve muito interesse no processo da nossa peça, que foi vista por vários dos diretores presentes. Foi interessante perceber que apesar das diferenças culturais e distância temos muito em comum. Michael entrevistou todos os diretores e gravou tudo. O encontro foi muito bom pois criou um canal de comunicação entre os diretores, que não se conheciam, e permitiu uma troca de idéias que pode trazer resultados depois do festival.

No fim de semana ainda houve outra festa e um passeio no domingo. Falarei da festa e dos passeios em posts que publicarei nos próximos dias. E ainda falta falar das peças da segunda semana e das viagens à Colônia e Amsterdam.

Marcadores: ,

30.6.06

Play-off/06: a Vila


Amanhecer sobre a península Ibérica. Vôo São Paulo - Paris.

A nossa viagem começou no domingo, em São Paulo. O vôo para Paris sairia às quatro e meia da tarde. Nos encontramos todos em Guarulhos e ficamos esperando a hora do embarque. Chegamos cedo. O tempo foi suficiente para Ricardo se acidentar em um carrinho de transportar malas e para Aninha perder-se no aeroporto, mas no final todos embarcamos sem problemas.


Uma fila no Boeing 777 da Air France: Ricardo, Aninha e Peterson; Luís e Wanderley (na janela); Teka (na janela), Ana Pereira e Eu (fazendo cara de espanto). Fabiana, Andressa e Maria estavam em outra fila, à frente.

Acho que poucos dormiram no vôo da Air France até Paris (os que estavam perto de mim com certeza não dormiram). Chegando no imenso aeroporto Charles de Gaulle tivemos que pegar um ônibus para mudar de terminal, perdemos tempo esperando na fila errada, recebemos informações erradas mais de uma vez e só embarcamos no último instante no vôo para Düsseldorf, que durou aproximadamente uma hora. André Wülfing e vários organizadores do festival Play-off/06 estavam nos esperando no aeroporto. Todos chegaram bem menos a mala de Ricardo (não era mesmo o dia dele), que preferiu ficar em Paris. Mas ela foi resgatada e entregue no acampamento no final do dia. Embarcamos no mesmo ônibus que o pessoal do Togo e chegamos ao acampamento no início da tarde. Estava frio.


Antje. Foto: Play-off/06
Logo que chegamos, fomos recepcionados por uma moça exótica de cabelos vermelhos e levados até nossa nova residência na Alemanha. Era uma vila formada de diversas casinhas de pano (barracas) em volta de duas mansões (barracas grandes). A mansão colorida era uma extensão da praça de alimentação. A vermelha era o castelo de Antje, a moça de cabelos da cor de seu castelo, que estava sempre correndo de um lado para outro com um celular no ouvido e uma pasta na mão. Ela não parava. Visitava todas as casinhas da vila para saber se estava tudo em ordem. Acordava os habitantes para que não perdessem a hora, os eventos, as peças e os banquetes. Quando ela não estava, ou quando o trabalho era demais, aparecia André no mesmo ritmo, para nos lembrar que o ônibus sairia agora, e não se atrasaria, ou que não poderíamos deixar de assistir tal peça ou tal workshop.


A mina Consolidation e a vila internacional. Foto: Play-off/06

A vila ficava diante da torre de uma mina de carvão desativada. Do lado havia dois outros prédios onde ficavam os teatros. No lado oposto havia um parque gramado. Ao lado da torre foram instalados banheiros e chuveiros. Na entrada do acampamento havia uma cozinha (outra barraca) onde eram servidas as refeições, e várias mesas (a praça de alimentação) que tornaram-se o principal ponto de encontro do acampamento. Isto ficava do lado da barraca colorida.


Casinhas de pano. Foto: Ricardo Socalschi.

As casinhas de pano eram amplas e confortáveis. Tinham chão firme de madeira e cinco colchões cada. Éramos onze e ocupamos duas casinhas. Havia colchões extras, mas eu preferi usar meu colchão de ar. Além de nós, as casinhas também eram ocupadas por aranhas, de várias espécies e tamanhos, com as quais convivemos muito bem durante as duas semanas (eu pelo menos não tive problemas com elas). Entre as casinhas havia um lugar onde penduramos a nossa bandeira (que não durou muito, pois alguém gostou muito dela e levou-a embora).

Quando chegamos estava frio. Muito frio. Para piorar, fomos informados assim que chegamos que houve um problema no aquecimento no chuveiro masculino e não havia água quente. Só as mulheres tinham água quente. Antje nos deu a opção de tomarmos banho no chuveiro do teatro, mas eu Luís e Ricardo, os valentes, decidimos encarar a água gelada. A água do chuveiro não estava apenas fria. Estava muito gelada! Cada pingo que encostava ardia como se fosse uma chicotada, e não tinha essa de se acostumar com a temperatura da água. Depois que saí do chuveiro parecia que eu estava no céu. Dá um barato; tudo fica lindo, suave; é como estar no Nirvana.


Noites claras e madrugadas animadas em Gelsenkirchen-Bismarck. Foto: Ricardo Socalschi.

À noite, todos se reuniam nas mesas até tarde, ou até amanhecer. Todos. Os atores, os organizadores, os diretores dos grupos, os diretores dos teatros. O symposium misturava vozes em várias línguas, com vinho francês e cerveja alemã. Como a noite é curta no verão alemão, o sol se põe lá pelas dez da noite e as onze horas da noite o céu ainda estava claro. Amanhece rápido e nos dias mais quentes é impossível ficar dentro da barraca depois que está muito claro. Também não dá vontade de dormir cedo pois há muita gente interessante acordada. O resultado é que se dormiu pouco nessas duas semanas.

Mas na primeira noite a festa não foi na vila. Isto fica para o próximo post.

Há várias outras fotos no site do festival, no grupo Play-off/06 no Flickr e no site do fotógrafo Benjamin Stöß.

Marcadores: ,

O Festival Play-off/06



Estou de volta depois de passar duas semanas na Alemanha participando do festival internacional de teatro Play-off/06. Foram duas semanas em que praticamente não peguei em computador (só usei nos cyber-cafés como meio de comunicação) e esqueci o que acontecia no mundo (exceto a Copa, que estava em toda parte, inclusive em Gelsenkirchen). Foram duas semanas em um acampamento com pessoas de quatro continentes, misturadas, e que se entendiam através do teatro. Para mim foram as melhores férias que eu poderia ter do trabalho. Além de atuar, assistir as peças e conhecer gente interessante, ainda descobri uma parte muito interessante e pouco visitada da Europa: a região do Ruhr, e visitei as cidades Colônia e Amsterdam, que ficavam próximas.

Há muitas histórias para contar. Todas as vezes em que alguém me pergunta o assunto não se esgota, então vou tentar contar tudo desde o início.

A ordem destes posts está um pouco confusa pois eu escrevi parte do texto na Alemanha em notas soltas em inglês e português, e misturei com textos que escrevi aqui, em São Paulo, quando voltei. Estou postando mais ou menos na ordem. Depois que eu terminar de publicar tudo vou tentar organizar melhor.

O Festival

Christian Strüder, diretor do Flottmann-Hallen, Herne; André Wülfing, diretor Play-off/06 e Berthold Meyer, diretor do Theater im Depot, Dortmund. Foto: Play-off/06.
O festival Play-off/06 foi idealizado há dois anos por André Wülfing, do Consol Theater em Gelsenkirchen. A idéia era reunir no Ruhr grupos jovens de teatro de todo o mundo e aproveitar a euforia em torno da Copa do Mundo ser na Alemanha para atrair interesse e obter recursos para a realização do evento. A princípio pensou-se em trazer grupos dos 32 países participantes da Copa do Mundo, mas no final só foi possível trazer 16. Com recursos governamentais e de empresas, o projeto pôde pagar as passagens e despesas de grupos que vieram da América do Sul, da Ásia, da África e da Europa, e agrupá-los em um acampamento internacional durante duas semanas, de onde partiriam para as apresentações em quatro cidades da região do Ruhr.


Kerstin Plewa-Brodam, diretora do Studio Bühne, Essen, dando boas vindas aos participantes na tenda central do acampamento. Foto: Play-off/06.
Não foi um festival como outro qualquer. A idéia mais original foi manter todos os grupos juntos em um acampamento. Vinte e quatro tendas padronizadas mais algumas outras avulsas abrigavam mais de 140 atores de 15 países e quatro continentes. Era uma babel de pessoas que se misturavam e se entendiam apesar das diferenças de idioma e cultura. O acampamento permitiu a aproximação que não teria acontecido se cada grupo tivesse ficado em seu hotel, como geralmente ocorre nos festivais. Tomar o café da manha em uma mesa compartilhada, esperar na fila do almoço, ou qualquer outra atitude do dia-a-dia poderia ser o pretexto para iniciar uma conversa e conhecer alguém que veio do outro lado do mundo. O acampamento era um pequeno mundo, e em duas semanas os grupos do mundo se misturaram. No final éramos como um só grupo.

E como nós, o Núcleo Experimental dos Satyros fomos parar na Alemanha? Isto eu já respondi isto em outro post.

Marcadores: ,

29.6.06

Como fomos parar na Alemanha?


O Núcleo durante ensaio no Consol Theater. Foto: Laerte Késsimos.

Fomos para a Alemanha por causa da peça Vestir o Corpo de Espinhos. A peça foi o resultado prático de um ano de pesquisas do nosso grupo: o Núcleo Experimental dos Satyros. Na minha opinião, o resultado final foi acidental, embora as cenas, imagens, temas e textos tenham sido inspirados pelo processo. Passamos o ano realizando exercícios criativos, explorando técnicas originais, estudando Antonin Artaud e explorando suas idéias através de improvisações, mas no final do ano ainda não tínhamos uma peça. Não havia texto; apenas um monte de idéias e ninguém concordava com elas. Estava tudo fragmentado, inclusive o grupo. Havia conflitos entre os membros do grupo e também entre o grupo e os Satyros. Havia pessoas querendo desistir de tudo, e vários desistiram. Fomos atrás de cenas nas idéias que tivemos no início do processo, quando mal sabíamos quem era Artaud. Diante da possibilidade de não realizar nada, começamos a perder o interesse. E aí veio a crise. Na primeira crise, surgiu o texto. Vários textos. Na segunda, veio a música, o movimento, até que começou a surgir algo que parecia ser uma unidade. Mas não foi fácil. A peça nasceu no último instante, movida por quase uma necessidade de sobrevivência, pois se não nascesse naquele momento morreria no útero, matando o grupo que tentou trazê-la à existência. A peça se fez porque seria insuportável que não houvesse algo para ser visto pelo público depois de um ano inteiro de trabalho. Então foi assim que no último final de semana útil de dezembro, depois de mais uma vez quase cancelarmos tudo, fizemos duas apresentações em dias seguidos. Seriam as únicas.


Cena das nove irmãs, no Studio-Bühne, Essen. Foto: Play-off/06.

Mas não foram as únicas. A platéia reagiu de forma totalmente inesperada. As pessoas saíram emocionadas. Na primeira apresentação em que haviam principalmente convidados e pessoas dos Satyros, eu ainda achei que fosse um caso isolado. Mas na segunda apresentação aconteceu a mesma coisa. Eu, que passo a peça inteira ocupado, ora atuando, ora fazendo a música, nunca consegui assisti-la para entender o que fazia as pessoas reagirem daquela forma. Mas o fato é que ninguém sabia o que seria da peça dali em diante. Havia a possibilidade de retomá-la no ano seguinte, mas ainda era algo incerto.

Quando o projeto do festival Play-off/06 foi divulgado em 2005, grupos interessados de todo o mundo foram convidados a inscreverem sua peça e enviarem um DVD com a apresentação gravada. Nós não sabíamos desse festival, mas na segunda das duas apresentações experimentais da peça Vestir o Corpo de Espinhos, Gustavo Fijaklow, um dos organizadores do projeto estava na platéia e assistiu à peça. Ele sugeriu à direção dos Satyros que inscrevesse a peça no festival.

Inscritos, precisávamos nos reunir para gravar um DVD da peça e enviá-lo para a Alemanha no prazo. O grupo selecionado iria representar o Brasil no festival. Havia vários outros grupos do Brasil e nossa peça tinha pouco a ver com o Brasil, mas não era isto que eles estavam procurando. Eles queriam exatamente o contrário: fugir dos estereótipos e descobrir as linguagens alternativas usadas pelo teatro contemporâneo em todo o mundo. Segundo Gustavo, um dos critérios usados na seleção foi exatamente a mistura de culturas. A maior parte das peças do festival tinham essa característica. Havia uma peça mexicana baseada em capoeira, atores dançando tango em uma peça polonesa, e várias outras peças com texto em mais de uma língua.


Maria Campanelii Haas, durante apresentação da peça no Flottmann-Hallen, Herne. Foto: Benjamin Stöß.

Estimulados pela possibilidade de sermos selecionados e pelas oficinas semanais do Núcleo coordenadas pelo ator do Teatro da Vertigem, Roberto Áudio, o grupo voltou a reunir-se e entramos em cartaz em São Paulo com apresentações aos sábados por dois meses. E foi no meio desse período que tomamos conhecimento de que havíamos sido selecionados para representar o Brasil no festival. Não seria fácil. O texto teria que ser traduzido, pois havia muito texto em português. Traduzimos algumas cenas para o inglês e outras para o alemão, e deixamos uma parte em português. Ensaiamos, discutimos, ensaiamos, brigamos, e no final fizemos, na véspera da viagem, duas apresentações seguidas: uma em inglês e alemão, e a última em português. No dia seguinte embarcamos para Düsseldorf em um vôo da Air France, e foi assim que fomos parar na Alemanha.

Marcadores: ,

27.6.06

Consol Theater

Consol Theater, seen from the camp

Em 1863, sete mineradoras combinaram suas minas de carvão mineral sob o nome Consolidation, popularmente chamado de Consol. Entre 1872 e 1876, Consolidation foi a maior mineradora da região do Ruhr. 15 mil toneladas de carvão por dia eram elevados da torre do prédio Consolidation 3, que deixou de operar em 1993.

Desde setembro de 2001 as áreas 3, 4 e 9 da antiga empresa mineradora Consolidation, que fica na localidade Bismarck de Gelsenkirchen, são ocupadas pelo Consol Theater. O teatro é localizado no prédio que era usado na ventilação das minas.

Entre 5 e 18 de junho deste ano, eu morei em um acampamento construído ao lado do Consol Theater, junto com outros integrantes de 15 países que participavam do festival internacional de teatro Play-off/06.

Outras fotos do Bergwerk* Consolidation e Consol Theater.
Bergwerk Consolidation (Consolidation coal mine)Camp and Consol TheaterBergwerk Consolidation from Google Earth

*Bergwerk significa mina em alemão. As minas, principalmente os complexos industriais, também são chamadas de Zeche.

Marcadores: ,

22.6.06

De volta à realidade


Esta vila, que uniu pessoas de 15 países por 15 dias longos, noites curtas e madrugadas sem fim, hoje só existe na memória. Faz muita falta.

Estou de volta da Europa, tentando me adaptar as noites longas de São Paulo e à realidade. Estou preparando um post sobre a viagem, o festival, as cidades, as pessoas, as peças, as experiências. Talvez não seja um só, e se for, vai ser grande. Já postei algumas fotos no Flickr e no Fotolog.

Marcadores: ,

13.6.06

In Gelsenkirchen

Ainda estou na Alemanha. Este teclado nao tem acentos. Nao tive tempo para escrever no blog, mas assim que voltar ao Brasil eu vou escrever sobre tudo, sobre o Festival, sobre as pecas, sobre as pessoas que conheci e os lugares onde estive. As duas apresentacoes da peca, em Essen na semana passada, e ontem em Herne, foram otimas. A reacao foi muito boa. Gostei muito da maioria das pecas que vi dos outros 15 paises participantes. Vou escrever sobre todas elas. Tivemos reuniao com os diretores dos grupos e descobrimos muitas semelhancas tanto nas ideias e concepcao sobre o que eh teatro e quanto nos metodos de trabalho. Na sexta-feira havera outra reuniao com os diretores, e no sabado havera um grande evento de encerramento para 2000 pessoas. Fizemos Coloquei algumas fotos no Flickr.

Marcadores: ,

1.6.06

Ein Körper in Dornen


Cena do início da peça (capturada de DVD gravado por Carlos Ebert). O cego que toca acordeón sou eu.

[An English version of this post is also available.]

Nas próximas duas semanas estarei na Alemanha, mas não tem nada a ver com futebol. Vou viajar com o núcleo experimental da companhia de teatro Os Satyros para participar de um festival internacional de teatro e fazer duas apresentações. A peça chama-se Vestir o Corpo de Espinhos. Foi criada através de um processo de dramaturgia coletiva que envolveu exercícios inspirados no surrealismo. Usou como ponto de partida a vida e obra do ator e escritor francês Antonin Artaud e procurou fundamentar-se sobre algumas de suas idéias. É uma peça impressionista.

Não é uma peça convencional daquelas que têm começo, meio e fim. Ela não tem estrutura aristotélica, não é tragédia, nem é comédia. É como se fosse uma poesia ou um quadro surrealista. É formada por várias cenas que têm em comum uma busca de consciência, de existência, ou de realidade. O tempo não existe e o espaço é a consciência, e o começo é tão incerto quanto o fim. Pode ser interpretada como um sonho que acontece dentro da mente da mulher atormentada que surge do nada antes do início da peça. E como é sonho, as imagens podem ser ilusões e as impressões podem não ser reais, mas o que se sente é real.


Cena dos cegos (capturada de DVD gravado por Carlos Ebert). Eu (atrás) e Ricardo Sochalschi.

Eu participo da peça de várias formas. Escrevi o texto de uma das cenas da peça, criei alguns objetos de cena (um feto, bengalas luminosas, olhos artificiais), faço o papel de um dos cegos e executo a trilha sonora ao vivo no piano, quando não estou em cena. Também fiz a tradução da peça para o inglês (na Alemanha a peça será apresentada em inglês com trechos em alemão e português).

No final do ano passado, nós fizemos duas apresentações experimentais.