28.11.06

Não pense mais nisso

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     Ela era uma menina brilhante, e ele apenas um cara qualquer, um sonhador. Eles representavam seus papéis na vida, como todo mundo. Mas um dia ela descobriu sua ilha de tesouros e o viu com outros olhos. E alguns dias depois ele se encontrou nos olhos dela. No início nada foi dito e nada foi realizado. Eles apenas falavam suas próprias línguas e entendiam tudo. No princípio foram levados pelo vento, leves, brilhando. Como sementes de dente-de-leão deixaram-se levar, sem saber onde iriam se encontrar, ou se iam mesmo pousar em algum lugar.

     – O que você acha de tudo isto? – ela perguntou, um dia.

     – Eu não sei – respondeu ele – Eu não penso nisso, eu só deixo levar.

     Ela era uma menina esperta, e ele apenas um sonhador qualquer, apaixonado. Eles representavam seus papéis na vida, para todo mundo. Mas um dia ela descobriu outra ilha de tesouros e o viu com outros olhos. E alguns dias depois ele não mais se encontrou nos olhos dela. No final nada foi dito e tudo foi realizado. Eles apenas falavam suas próprias línguas e entendiam nada. No final foram separados pelo vento, bruscos, sangrando. Como sementes de dente-de-leão deixaram-se afastar, sem saber por que nunca se acharam, ou se queriam ir mesmo pousar em algum lugar.

     – O que você acha de tudo isto? – ele perguntou, um dia.

     – Eu não sei – respondeu ela – Não pense mais nisso; só deixe que eu vá.

(Adaptada de versão original em inglês)

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14.10.06

No meu quarto há um anjo

No meu quarto há um anjo. Eu não consigo vê-la, mas eu sei que ela está aqui; sempre esteve desde que eu me lembro. Ela está lá, no meu quarto, no meu sonho. Ela tem meus olhos e algo mais que eu só encontro na minha mente, mas ela não sou eu, assim como eu não sou ela. Disto eu estou certo.

Diante da janela assisto o universo girar, e eu canto. Eu olho para baixo e não vejo nada, então deixo que minha cabeça escorregue janela abaixo. Eu caio como se voasse. É uma sensação estranha. Sinto o vento, ele me estica; é meio doloroso, mas não há dor ao atingir o chão. Sinto o cheiro do oceano, e como sempre, ela está lá. Eu consigo sentir sua respiração acariciando minha orelha.

Este lugar perto do mar está bem além da janela. Para chegar aqui da última vez cruzei um labirinto de pontes e monstros. Quando eu a encontrei dentro do castelo, nos demos as mãos e subimos pelas escadas espirais da torre mais alta. Lá em cima, ela abriu a porta e nos deparamos com esta mesma praia iluminada pelo luar. E lá, diante do mar, estava a mesma árvore torta e azulada.

Mas isto foi da outra vez. Desta vez eu simplesmente caí da janela.

Naquele mundo eu sou apenas um menino. Lá nos sentamos no balanço que pende do galho mais longo da cerejeira azulada. Sentamos face a face, e nos olhos dela eu vejo a mim. Eu nunca consigo lembrar do seu rosto.

Adormeci mais uma vez e quando acordei estava novamente diante da janela. Parecia a mesma janela, mas o céu estava nublado e abaixo de mim não havia mais o nada, apenas a cidade.

(publicado originalmente em inglês)

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23.9.06

Os últimos versos


Por do Sol no Cariri Paraibano (Lajedo Pai Mateus, Cabaceiras, PB). Foto de Helder da Rocha (Janeiro, 2006)

O poema abaixo foi publicado no livro Veinte poemas de amor y una canción desesperada do poeta chileno Pablo Neruda, falecido há exatamente 33 anos (23/09/1973). Os versos são tristes, mas não são lamentos: são versos de saudade. Celebram momentos felizes que ficaram para trás, que não voltam mais, mas que valeram a pena. Existem apenas na memória dos que os viveram. Somente momentos realmente felizes ganham versos tristes como estes versos de Neruda.

Posso escrever os versos mais tristes esta noite
Pablo Neruda

Posso escrever os versos mais tristes esta noite.

Escrever, por exemplo: 'A noite está estrelada,
e cintilam azuis, os astros, distantes'.

O vento da noite gira no céu e canta.

Posso escrever os versos mais tristes esta noite.
Eu a quis, e às vezes ela também me quis.

Em noites como esta eu a tive entre meus braços.
Beijei-a tantas vezes debaixo do céu infinito.

Ela me quis, às vezes eu também a queria.
Como não ter amado seus grandes olhos fixos.

Posso escrever os versos mais tristes esta noite.
Pensar que não a tenho. Sentir que eu a perdi.

Ouvir a noite imensa, mais imensa sem ela.
E o verso cai na alma como no pasto cai o sereno.

Que importa que meu amor não pôde guardá-la.
A noite está estrelada e ela não está comigo.

Isto é tudo. Bem distante alguém canta. Bem distante.
Minha alma não se contenta em tê-la perdido.

Como para aproximá-la meu olhar a procura
Meu coração a procura, e ela não está comigo.

A mesma noite que faz branquear as mesmas árvores.
Nós, os de então, já não somos os mesmos.

Já não a quero, é certo, mas quanto eu a quis.
Minha voz buscava o vento para tocar o seu ouvido.

De outro. Será de outro. Como antes dos meus beijos.
Sua voz, seu corpo claro. Seus olhos infinitos.

Já não a quero, é certo, mas talvez a queira.
É tão curto o amor, e é tão longo o esquecimento.

Porque em noites como esta eu a tive entre meus braços,
Minha alma não se contenta em tê-la perdido.

Ainda que seja esta a última dor que ela me causa
e sejam estes os últimos versos que eu a escrevo.

Traduzido do original em espanhol por Helder da Rocha.

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21.3.06

Carta de Tatyana para Oniêguin

Tatyana, or Fiodor Moller (1846)
Fiodor Moller - Tatyana escrevendo a carta para Oniêguin (1846). Palácio de Marly, em Peterhof (Rússia).

Yevguêni Oniêguin, longo poema de Aleksandr Púchkin em 400 sonetos, é a obra-prima máxima da literatura russa. Escrito no início do século XIX, conta a história de um dândi de São Peterburgo chamado Yevguêni (ou Eugênio) Oniêguin que recebe uma fortuna de herança e muda-se para o campo, onde tem uma vida pacata. Nem tanto. Lá faz amizade com um jovem poeta chamado Lensky e ganha o coração de Tatyana - uma mulher inteligente que se sente deslocada no meio rural. Depois de um tempo de convivência, Tatyana declara-se para Oniêguin através de uma carta. Só que Oniêguin despreza o amor de Tatyana e, para complicar, dança a noite inteira com a amada de Lensky durante o dia da santa de Tatyana. Lensky o desafia para um duelo. Oniêguin hesita, mas no final aceita, e o duelo termina com a morte do amigo. Algum tempo depois, Oniêguin volta a São Petersburgo e tenta reativar sua vida de bon vivant, mas sem sucesso pois já não é jovem como antes e muitos dos seus amigos estão casados. Uma certa noite, ele encontra seu antigo amigo de farras - o príncipe Gremin, e este o apresenta à sua belíssima esposa, que é... Tatyana! Depois disso, Oniêguin enlouquece e apaixona-se perdidamente por aquela cujo amor ele rejeitara anos atrás. Humilha-se a ponto de escrever uma longa carta para Tatyana, que não responde. Depois de vários dias de sofrimento, Oniêguin vai até o palácio de Gremin e ajoelha-se nos pés de Tatyana, e implora pelo amor dela em vão.

Yevguêni Oniêguin foi tema de óperas e várias adaptações para teatro e cinema. Eu traduzi o trecho abaixo usando a tradução literal de Vladimir Nabokov em inglês. Esta é a primeira versão. Devo melhorar a versificação depois que traduzir a outra carta.

Carta de Tatyana para Oniêguin
Aleksandr Puchkin (trecho do poema Yevgueni Oniêguin)

Eu te escrevo o que mais eu faria?
O que tenho mais a te revelar?
Podes querer a partir deste dia
Me punir com desprezo; me deixar.
Se por minha vida sem alegria
Tiveres um pingo de piedade
Não deixarias minha amizade.

No começo eu tudo ocultei
A vergonha de ti se escondia
Meu silêncio jamais revelaria
Se houvesse esperança, isto eu sei
De te ver uma vez cada semana,
Na nossa humilde casa serrana
Somente para te ouvir falar
Te dizer algo; depois refletir
Dia e noite, sem nada decidir
Até novamente te encontrar.

Mas dizem que és anti-social;
Que no campo tudo te entedia,
Nos falta, eu sei, a pose real
Mas te acolhemos com alegria.

Qual a razão de nos ter visitado?
Nesta pobre cidade esquecida
Nunca eu teria te encontrado
E a dor não seria conhecida.
A pouca experiência de vida
Com o tempo iria dissipar
Um amigo (quem sabe?) acharia
Que por mim podia apaixonar
E mãe e esposa me tornaria.

Outra! Não! Para ninguém nesta Terra
Eu teria dado o meu coração!
É vontade do Céu que nunca erra,
Que serei tua, sempre, meu guardião.
Minha vida foi promessa aberta
Que um dia tu virias a mim
Foi Deus quem te enviou, estou certa
Serás meu protetor até o fim.

Em sonho para mim te revelaste,
Eu nunca te vi, mas já te amava
Parei quando primeiro me olhaste
Tua voz na minh'alma ressoava.
Não, não foi só um sonho que sonhei!
Mal entraste, logo reconheci,
Fiquei tonta, em chamas me senti,
"É ele!" - para mim eu sussurrei.

Eras tu que eu sempre escutava?
A voz no silêncio na madrugada
E quando dos doentes eu cuidava
Uma oração que tranqüilizava
A dor da minha alma agitada?
E bem agora, querida visão
Não te vi na clara escuridão
Escorregando como fosse nada?
Não és tu que sobre o meu leito dança
E sussurra frases de esperança
Com amor numa noite encantada?

Quem és tu? O anjo bom que me alenta?
Ou o demônio cruel que me tenta?

Tira minha dúvida insistente
Pode ser bobagem ou ilusão
De alma tola, inexperiente
Que devia ir noutra direção.

Mas que seja! Meu destino agora
Só depende de ti, por quem chorei
Pelas lágrimas que eu derramei
Tua defesa peço nesta hora.
Sozinha, sem ninguém me entender
Assim eu vivo, aqui, me gastando
Minha razão está desmoronando,
E em silêncio devo perecer.
Eu espero. Um único olhar
Devolve esperanças ao meu ser
Ou faz este sonho interromper
Ai de mim - e sem pena acabar!

Eu fecho! Tenho pavor de reler.
Estou fraca de medo, de pudor
Tua honra é justo parecer,
Nela confio, seja como for.

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8.1.05

Soneto de Iracema

Praia de Iracema, Fortaleza, CE

Ele veio como onda no mar
Percorrendo as curvas, espumantes
Lambendo suas costas ao chegar
Rolando como o vento dos amantes

Voltou à vida dela de repente
Intenso, misterioso, surgiu
Depois de sete anos, diferente
Deixou-se seduzir, e seduziu

No verso do poeta florentino
Seu desejo de luxúria ardia
Por Helena, em louco desatino

Acordou Elizabeth que dormia
E propagou o seu fogo divino
Nos corpos nus até nascer o dia.

(São Paulo, 7 de abril de 2000.)

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30.11.04

Distração Fatal

Praia de Tambaba, Parahyba. Foto de Helder da Rocha

Na praia, eu olhava
as estrelas
que ela iluminava
E ela, amante, me olhava
com sua luz
que então me escapava.

Eu do mar, ignorava
a escura onda
que lentamente chegava
E ela, em silêncio, apagava
a luz dos olhos
que eu tanto precisava.

(Campina Grande, 29 de janeiro de 2003)

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26.11.04

Lucidez

Mauritz C. Escher - O Encontro

Era noite, ainda. Ele não entendia o motivo pelo qual acordava naquele momento. Não lembrava de ter sonhado. Não abrira os olhos. Nada ouvia. Mas sabia que era noite e sabia que acordara. Queria abrir os olhos mas só o faria se ouvisse pelo menos o som do vento, de algo passando, de um grito distante. Esperou muito. Só silêncio. Intenso silêncio. Concentrou-se e tentou ouvir a própria respiração. Pensou em fazer um som, suave, com a boca ou com o nariz. Mas não conseguiu senti-los. Sabia apenas que estava acordado, e que era noite. Tinha certeza. Absoluta certeza. Estava muito lúcido. Era óbvio que estava acordado! Mas, era como se os sentidos tivessem lhe abandonado. Pensou em mexer um braço, uma perna. Pensou muito, mas muito mesmo. Nem a agonia foi capaz de sentir. Não conseguia deslocar-se no espaço de sua mente. A lucidez era ofuscante e dominava-o completamente. Queria gritar. Estava aflito. Já não queria mais manter os olhos fechados. Decidiu abri-los de qualquer maneira. Mas o que antes parecia fácil, agora era impossível. Sua a lucidez era excessiva. Ele sabia exatamente como e quais músculos mover para abrir os olhos; sentia que compreendia até mais, mas não conseguia achá-los, nem mesmo visualizá-los.

Concluiu que se não abrisse os olhos ou voltasse a dormir logo, certamente ficaria louco. Tentou pensar na luz do dia, nas coisas que conhecia, nos sons e nas sensações, mas o silêncio e a escuridão eram absolutos. Nada formava-se na sua mente. Mas, em alguma coisa pensava; isto era certo! Pois se não pensasse como poderia incomodar-se com a impossibilidade de pensar? Isto era tão claro quanto sua lucidez absoluta, quanto o silêncio e a escuridão. Mas esse pensamento não era alcançável. Estava lá, tinha certeza, mas não conseguia achá-lo! De alguma forma, ele havia tornado-se... nada. Acreditava ter consciência de si; sabia que era si próprio, mas era como se fosse não ele mesmo, mas a ausência de si mesmo. Sentia-se como o espaço que ocupava no mundo, mas sem o corpo que ocupava o seu espaço. A sua existência parecia estar em um lugar inexistente. Sentia uma ausência absoluta, no tempo e no espaço. Ele não era mais; e poderia nunca ter sido! Seu existir poderia ser mera ilusão. Ilusão de sua mente inexistente.

Aterrorizou-se com a perspectiva de passar o resto da eternidade lúcido, tendo total consciência de que não existia. Especulou sobre o que poderia ter ocorrido: talvez sonhara um sonho recursivo, e nele se consumira (gostava muito de filosofar recursivamente). Talvez tenha encontrado o seu anti-ser, e nele tenha se desintegrado. Mas como podia não existir se pensava? Tentou pensar um pouco mais sobre o assunto. Não conseguiu mais. Percebeu que não controlava as idéias que pensava. Elas apareciam do nada. Eram elas a sua vida, sua consciência e lucidez. Ele era nada. Existia apenas como idéia pensada. A morte, que mais temia, era o esquecimento.

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24.9.04

A cor do vento em repouso

Há idéias que nascem do nada. Não, sequer são idéias. Não há idéias nem palavras para expressá-las. A única coisa que posso dizer é que são alguma coisa. Coisa imaginária, talvez, mas alguma coisa, e não algo desprezível, mas algo que parece ser mais importante que tudo. O que se sente são impressões. Leves, muito leves. São como uma brisa muito suave, lisa e calma. Estão lá, e estão aqui, no meio destas letras. Também não estão, nem lá, nem aqui, e isto faz todo o sentido, e isto torna tudo muito mais claro.

Três Mundos, por Mauritz C. Escher, 1955
Três Mundos, por Mauritz C. Escher, 1955

Então eu olho para o texto para ver algo que parece vir das palavras, mas a ausência de sentido lógico do que está escrito me salva da tentação de procurar lá, impedindo que eu desvie minha atenção. As fronteiras da percepção ficam levemente abaladas, e deixam que vestígios de algo maior escape, por breve instante. As palavras parecem servir apenas como isca, e dão um pouco de textura, de ritmo, talvez cores. E então, algo que não sei, que não são idéias, aparenta surgir entre linhas e traços, quando eu não estou olhando diretamente, nem pensando objetivamente.

Existe, e é completo, compreensível. Eu procuro palavras para descrever, mas não acho, pois quanto mais penso, mais distante fica. Às vezes consigo escrever rapidamente o que me vem à mente, sem pensar. Nessas horas, o máximo que eu consegui foi escrever coisas como "caos de ausências", "um nada com sensação de totalidade". É muito sutil, estranho, e resiste a qualquer abordagem objetiva, direta. Mas está lá. Já duvidei que fosse algo. Talvez não seja algo, mas existe. E se algo é revelado, eu não sei mesmo o que é. Pensando bem, acho que isto nem importa tanto.

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