21.3.08

Al Magestum


Sandro Botticelli: La Nascita di Venere (Galeria Uffizi, Florença)

Mustapha tinha uma coleção de estrelas. Não eram estrelas fixas como nos mapas do Al Magestum. Suas estrelas se espalhavam no tempo e no espaço e por todas ele era apaixonado. Mustapha sonhava com as estrelas com as quais elaborava constelações originais, únicas e inesquecíveis.

Nas suas relações mais intensas descobria territórios, planetas e luas. Mergulhava em oceanos alienígenas e ardia nos fogos siderais. Misturava-se com nebulosas vizinhas, acompanhava suas órbitas, conhecia suas galáxias e assistia ao nascimento de supernovas. Mustapha amava seus mundos e os explorava como um aventureiro. Fazia mapas, dava nomes aos astros e ligava os pontinhos. Universos nasciam em explosões apaixonadas e expandiam-se pelo espaço e pelo tempo. As forças gravitacionais cresciam, mas sempre havia um dia em que as órbitas se separavam. Mustapha era vulnerável a correntezas.

- As estrelas se movem.
- Mas todos os dias elas estão lá, certinhas.
- É ilusão. As constelações se desfazem. Quando o tempo é curto parece que é tudo claro, certo, preciso, mas o mundo real é sempre mais misterioso.
- Então nosso universo vai se desfazer?
- Certamente vai mudar, talvez se desfazer. Isto não impede que seja eterno.
- Como não?
- A eternidade está no instante.

E as correntezas podiam tudo menos mover a eternidade do instante, que engolia tudo em redemoinhos. Mustapha aprendeu a fazer buracos negros, singularidades, curvar o espaço e parar o tempo. Fez ventos e tempestades, agitou os oceanos, multiplicou as correntezas.

Até que descobriu a arte: um universo de reflexos que imitam a vida. E houve um dia em que ao contemplar a imagem móvel das estrelas sobre os mares, Mustapha ofuscou-se com a luz de uma estrela refletida. Era ilusão. A luz nascia de um universo de estrelas fixas, imutáveis, mas deixava-se refletir nas ondas reais que moviam-se na correnteza onde eram contadas histórias inventadas. A ilusão era sedutora. Mustapha apaixonara-se por um reflexo.

Mas dizem que houve uma noite em que, como na célebre obra de arte, Zéfiro soprou do leste e Vênus nasceu do mar, e por instantes antes do amanhecer um novo universo surgiu no mundo real. Mustapha, vulnerável às correntezas do vento, deixou-se incendiar pela estrela da manhã e em pouco tempo estava criando novas constelações, explorando mundos, desenhando mapas, como se tudo fosse de verdade. Ao amanhecer ela sempre desaparecia e em certas noites era apenas um reflexo. Mas sempre voltava com as marés ou ventanias, e juntos criavam instantes eternos.

Ainda era uma estrela imaginária. Procurada nas marés do dia não refletia o mesmo olhar. Queria tocá-la mas não podia. Havia um conflito de mundos. Nas noites solitárias ele ansiava pela correnteza que a traria de volta. Ontem a maré subiu e desceu, o vento veio e partiu e ela não apareceu. Várias noites se passaram. Um dia Mustapha encontrou-a na água refletida como uma estrela do mar, e a convidou.

- A maré está enchendo; logo será noite; os ventos estão começando e não há nuvens.
- Eu não posso.
- Aumentarei o vento pela manhã.
- O mar é fundo.
- Farei ondas maiores, marés descomunais.
- O mar me prende.
- Aumentarei a correnteza. Cedo ou mais tarde terás que soltar.
- Eu sei, mas não devo soltar. Quando o instante é eterno parece que é tudo belo, simples, mágico. O mundo real é sempre mais complexo.
- O mar é vasto. O instante é tudo. Sei que queres deixar-te levar.
- Quero.
- Então eu espero anoitecer.

Ela não veio. Nasceu o Sol e nada de Vênus. Mustapha voltou-se para seus universos imaginários e sua coleção de estrelas variáveis que surgem nas correntezas. Mas sempre que acorda antes do Sol ele ainda espera que ela apareça entre as nuvens.

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28.11.06

Não pense mais nisso

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     Ela era uma menina brilhante, e ele apenas um cara qualquer, um sonhador. Eles representavam seus papéis na vida, como todo mundo. Mas um dia ela descobriu sua ilha de tesouros e o viu com outros olhos. E alguns dias depois ele se encontrou nos olhos dela. No início nada foi dito e nada foi realizado. Eles apenas falavam suas próprias línguas e entendiam tudo. No princípio foram levados pelo vento, leves, brilhando. Como sementes de dente-de-leão deixaram-se levar, sem saber onde iriam se encontrar, ou se iam mesmo pousar em algum lugar.

     – O que você acha de tudo isto? – ela perguntou, um dia.

     – Eu não sei – respondeu ele – Eu não penso nisso, eu só deixo levar.

     Ela era uma menina esperta, e ele apenas um sonhador qualquer, apaixonado. Eles representavam seus papéis na vida, para todo mundo. Mas um dia ela descobriu outra ilha de tesouros e o viu com outros olhos. E alguns dias depois ele não mais se encontrou nos olhos dela. No final nada foi dito e tudo foi realizado. Eles apenas falavam suas próprias línguas e entendiam nada. No final foram separados pelo vento, bruscos, sangrando. Como sementes de dente-de-leão deixaram-se afastar, sem saber por que nunca se acharam, ou se queriam ir mesmo pousar em algum lugar.

     – O que você acha de tudo isto? – ele perguntou, um dia.

     – Eu não sei – respondeu ela – Não pense mais nisso; só deixe que eu vá.

(Adaptada de versão original em inglês)

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13.10.06

Ela se foi

" But our love it was stronger by far than the love
Of those who were older than we-
Of many far wiser than we-
And neither the angels in heaven above,
Nor the demons down under the sea,
Can ever dissever my soul from the soul
Of the beautiful Annabel Lee."
(Edgar Allan Poe, Annabel Lee)

Não consigo dormir, apesar do sono. Então fico aqui, sozinho, escrevendo, expondo-me, nesta manhã nublada, buscando algo que mude as cores do dia. Eu sou aquele que deixou-se apaixonar, eu diria, perdidamente (que outra palavra poderia usar?), que deixou-se cegar, que deixou-se acreditar, que abriu espaço na sua alma para que fosse preenchida por ilusões inventadas (belíssimas, por sinal), que deixou-se entorpecer por carinhos e palavras, que acreditou em sputniks, cerejeiras, e em sonhos felizes e distantes (e que faria tudo isto de novo e de novo). Tão perdido estava que quando caí (ou fui empurrado) do navio em alto mar, a princípio achei que era sonho, ou pesadelo, e sequer tentei nadar para me salvar. Tendo escapado do afogamento e dos tubarões famintos, escrevo isolado no alto de um penhasco de uma ilha deserta que apenas eu conheço (antes diria que ela também conhecia). Escrevo palavras inúteis, inebriadas, numa folha encharcada, que depois lançarei ao mar aberto dentro desta garrafa de vinho tinto (que ainda não está vazia.) Escrevo que amo, e que amei-a, que aprendi a amá-la, incondicionalmente, a amá-la de amor, e agora de saudade. Escrevo que preciso do cheiro do seu corpo, do qual tornei-me dependente. Escrevo para aquela que um dia chamei de minha sputnika; aquela com a qual por dois verões, dois outonos, dois invernos, e uma primavera foi minha companheira de viagem, com a qual fui feliz. Escrevo em vão, pois este mar é vasto, e ela está longe, e a garrafa é escura.

Hoje, sinto dor na minha alma vazia. As feridas, que cicatrizam, de vez em quando abrem e sangram, como agora. Do alto deste penhasco eu vejo o meu mundo, eu me vejo, eu vejo o meu paraíso, mas eu não a vejo mais quando acordo. Sinto apenas a brisa, e escrevo.

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23.5.06

Encontro ao por do Sol



Havia neblina, mas era da imagem pois era como sonho. Foi num domingo à tarde (essas coisas sempre acontecem num domingo à tarde.) Eu estava dentro do ônibus. Eu conseguia vê-la esperando no segundo andar da plataforma, na sacada. Ela ficou lá em pé uns cinco minutos antes de ir embora. Não sei no que ela estava pensando. Ela olhava para o nada. Eu estava partindo, mas logo nos viríamos novamente. No entanto, ela estava lá esperando o ônibus partir, e aquele olhar eu nunca esqueci.

Anos depois ela partiu para sempre, ou fomos nós que partimos um do outro. O mundo nos afastou e hoje ela existe apenas na minha memória.

- Eu lembro desse dia.

- Sério?

- Sim. Eu não sabia se ia vê-lo de novo. Era como um sonho bom quando chega a hora de acordar. Eu não queria esquecer, não queria acordar.

Ela falava, mas eu não a via. Ela estava do meu lado e contemplávamos o Mediterrâneo que nunca vi. Eu apenas sentia a sua presença ao meu lado. Eu falava para o mar como se não houvesse ninguém ali, como se ela fosse a brisa.

- Você não veio, não é? Você não conhece?

- Não. Nunca fiz a viagem.

- Era seu sonho. Você devia fazer. Até brigamos por causa disso!

- Vou fazer.

- Este mar azul é lindo não é?

- É. Ainda vou vê-lo e lembrarei de você, quando vier.

As crianças estavam brincando no jardim. Eu era um cavalinho, e as duas estavam montadas nas minhas costas, as mãozinhas puxando meus cabelos. Riam tanto que soluçavam. E ela assistia a tudo e ria sem parar. Não sei de onde vieram essas imagens, esses sons e essas cores. Não sei de onde vieram os rostos das duas meninas que pareciam muito com ela. Mas nada disso existiu. Foi fabricado na memória.

- Era eu mesma. Você me escreveu uma carta em que falava disso.

- Eu sei.

- Foi quando nos separamos pela primeira vez. E tempos depois, perto do fim, eu mandei a carta para você, lembra? Você não lembrava dela.

- Lembrava sim. Eu não esqueceria essas imagens.

- Você me dizia que eram lembranças do futuro, e eu sonhei com ele também. Havia sapos e cajueiros e grilos cantando.

- Sapos. Era 23 de fevereiro.

- Era sempre 23 de fevereiro. Estávamos no balanço contemplando as estrelas. As mesmas que nos observaram quando tudo começou.

Diante de mim há uma parede. Atrás da parede há uma cidade. E na cidade há indiferença. Na cidade da indiferença tento respirar, mas o ar é pobre, e a angústia não consegue se materializar. A angústia é solitária, no meio da multidão, sou ninguém. Há contas para pagar. Mas essa é a parte menor da história. No escuro, não encontro uma mão para segurar e se encontro, é uma mão que segura a minha, mas que não irá buscá-la se ela se soltar novamente. Uma vez sonhei que no meio da multidão eu a perdia. Por um momento, um instante apenas, eu soltei a sua mão e nunca mais a vi.

- Eu segurei a sua mão no escuro. Mesmo cansada eu não soltaria nunca. E todas as vezes em que você se desvencilhou de mim, eu fui atrás. Você era minha vida, meu companheiro.

- Mas depois você não a quis mais.

- Nunca quis outra, mas ela sempre partia, e me deixava sozinha. Você queria o mundo.

- Foi o ipsilon.

- Foi. Lembra? Desde o início sabíamos os dois que ele chegaria um dia. Os universos paralelos se bifurcaram. Mas as lembranças eram reais. São mesmo lembranças do futuro. São lembranças dos outros universos que não aconteceram.

Ela calou-se. Ouvi apenas os ecos sumindo nas chapadas. Virei o rosto para sentir a brisa e acordei sozinho. O domingo chegava ao fim e a brisa tinha o cheiro da cidade.

(fev-2005)

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22.5.06

Ficções



Considera ficção, ou considera passado. Considera como quiser, já que é ilusão. Se não é imaginário, por que só existe na minha mente, ou aqui, nestas páginas de palavras imaginadas? Em outras, em que apareces, eu não estou. Talvez seja ficção. Uma insuportável ficção.

Faço de conta que nada existe. Numa noite, numa festa, não é difícil. Deixo que vivas tua ficção, e eu invento uma para mim. Ficções são curtas e terminam. Não foi tão fácil. Atuar não é fácil. Tive que buscar mil distrações e senti-me como se de fato estivesse no teatro, assumindo um papel, obviamente falso, enganando a todos. Mas e se a ficção estende-se além da noite? E se a peça não termina? E se eu não te encontro quando mais preciso? E se depois te acho em imagens reais, no mundo real, da forma como estavas no conto de ficção? Como não duvidar da minha realidade? Será que somos mesmo reais?

Se o teatro foi mesmo a realidade, e não foi ficção, o que faço aqui alimentando estas fantasias? Testei os limites do meu amor irracional. Segurei meu mundo nas costas mas ele escorregou e caiu sem amparo porque ninguém sabia que ele existia. Eu o segurava sozinho. Mas que diabos é essa realidade só minha? Esta página de palavras fantasiosas? Esta imagem, talvez, que só existe aqui, Alessandra? Considera ficção, ou então, se achar melhor, considera passado, ou não. Cria a tua história. Esta, é a minha.

Qualquer semelhança com pessoas e fatos reais será mera coincidência, e os pixels, e os nomes, como sempre, foram trocados para preservar-se a privacidade das pessoas reais.

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17.5.06

Amores imaginários



Eu pensei que fosse ciúme. Não era. Descobri enquanto caminhava, enquanto subia e descia as ladeiras e desviava dos buracos nas calçadas. A noite estava fria. A lua estava bela. Iluminava as nuvens. Havia estrelas.

Não era ciúme. Talvez fosse inveja. Acho que era. Era inveja. Inveja do espaço, do mundo, da liberdade de mostrar, de amar e de gritar. Talvez de não poder mostrar, como outros puderam. Talvez de não poder gritar. Uma liberdade não exercida, talvez, por reciprocidade.

O grito é restrito. Te olho com desejo, te beijo calorosamente na frente de todos, te toco, te faço carinho; exponho ao mundo o amor que sinto. Mas tudo fica naquele recinto, naquela praça, naquele palco. Para o resto do mundo, como no mundo das palavras, eu existo sozinho. É como se não nos conhecêssemos, ou como se fôssemos apenas conhecidos, amigos virtuais, nada mais.

Há liberdade em não se expor. Mas acho que há mais em revelar. Gosto da transparência, de não precisar esconder o que existe, ou penso que existe. Assumo o risco das tragédias, dos desmoronamentos, das mágoas, dos ressentimentos. Desconfio que a verdade das coisas que precisam se esconder é limitada ao universo onde elas se escondem. Mas meu amor transborda. Ignora limites. Ignora verdades. É faminto. É megalomaníaco. Quer existir em todos os mundos. Quer revelar-se sem pudor. Quer ser tudo. Talvez queira demais, e por querer tanto sente-se preso, e sentindo-se preso, talvez queira fugir, talvez queira arriscar-se em universos maiores, irracionalmente, como sempre age o amor.

Meu amor não quer esconder nada. De ninguém. Se amamos porque o mundo não pode saber? Talvez o mundo nem se importe tanto. Se nos revelamos ao mundo, nos revelamos apenas por apelidos e charadas. Disseminamos a incerteza, e a incerteza agora nos atinge.

Selecionei fotos de viagens, de paisagens deslumbrantes. Cogitei publicá-las, mas me vi escolhendo apenas aquelas em que ela não estava. Não quis misturá-la com a realidade. Mas é a realidade que eu temo, pois a realidade existe e aparece. Pode não ter borboletas, pode não ter cerejeiras, pode não entender a profundidade do que significa comer-se, mas espalha-se transparentemente, expõe-se pelos espaços vastos e permanece, intensifica-se, e cresce, sem temer revelar-se, mesmo quando ainda é um mistério. O que está oculto, por mais belo e mais intenso, por mais autêntico, livre e sincero, vira apenas sonho, memória ou bela história. A realidade está me levando, com um amor que espalha-se sem pudor, mesmo com dor e amor incerto. O meu outro amor que ainda quero, que mais eu quero, que eu quero livre, que eu amo, ninguém conhece. Oculto permanece sem nunca revelar o nome.

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3.5.06

Quando tento explicar



Escrevo sem pensar como se estivesse a conversar. Se eu penso, não escrevo, ou escrevo o que não penso. O problema é que eu escrevo sem que a razão segure as palavras, que escapam soltas, selvagens, procurando descrever aquilo que vejo, ou as coisas que sonho, ou ainda o que eu sinto no momento em que elas, as palavras, se formam. E às vezes, enquanto escrevo, meus humores se invertem, e as palavras, se ainda livres, seguem o fluxo de suas correntezas, demolindo as afirmações mais sinceras. Tento consertar, mas não posso se não pensar. E se penso muito, é inevitável: entro em contradição, e já não sei mais o que eu acho, muito menos o que eu achava que sabia. E toda a aventura só não acaba sendo inútil porque ao escrever, sem pensar, revelo a mim mesmo nas palavras, coisas que os pensamentos ocultavam, ou que talvez soubessem, mas censuravam. Assim acredito que talvez haja mais verdade nas minhas contradições, que nas minhas análises mais cuidadosamente elaboradas (que são claramente mentiras tão descaradas quanto esta que acabo de redigir.) Mas o que é, afinal, essa verdade? Nada do que falo é verdade, logo o que escrevo, sem pensar, também não pode ser. Verdade mesmo talvez sejam apenas as coisas que escrevo depois de muito pensar, com cuidado de acertar e não errar: são as coisas que eu invento, que eu explico com palavras tão bem colocadas, que ninguém sequer desconfia que o que elas dizem é apenas fantasia. Então não me ouça, e nem me leia quanto tento explicar. Não sou um. Sou muitos a cada instante. Eu só me revelo nas minhas contradições, pois minhas contradições somos quem eu sou.

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23.4.06

Picadinho



Ela trabalhava numa empresa alimentícia que comercializava aveia. Um certo dia, entrou um homem na empresa para cobrar uma dívida. Ele entrou e foi direto ao gabinete da diretora - uma viúva russa que herdara a empresa do marido. Ela, assistente da diretora, foi encarregada de tirá-lo de lá. Mas o homem resistiu. Foi grosso e não saía de jeito nenhum. Antes que ela pudesse chamar a segurança, percebeu a diretora aos beijos com o invasor, e desistiu.

Mas o beijo fora planejado. Era golpe baixo; estratégia de guerra. Era teatro. Era falso. A diretora cedeu. A dívida foi paga. E ele não a procurou mais.

Mas ele quis voltar. Não por causa da diretora. Quis voltar por causa dela, a assistente. Sentira prazer quando ela tentava empurrá-lo para fora. Era quase sexual o prazer de xingá-la, de ameaçá-la. Prometera fazer dela um picadinho, e sonhava com isto. Ele, que era descendente de canibais potiguaras ou caetés, ficava excitado só em lembrar.

Talvez tenha começado no aeroporto. O aeroporto estava fechado por ameaça de terrorismo. Um homem que esperava o vôo retornou para sua casa e encontrou sua esposa com o amante na cama. Abriu a torneira de gás, e saiu sem rumo. Chorou no banco da praça quando ouviu a explosão. Desapareceu por trás do palco. E como se tudo fosse apenas teatro, reapareceu sorridente na quitanda. Ela estava lá. Já não era assistente de diretora. Mas era ela. Eles se olharam, se confundiram, e o carro dela encontrou um poste na saída.

No outro dia, ele a procurou e encontrou novamente na mesma quitanda. Desta vez não apenas se olharam. Não falaram. Esqueceram o espaço e se beijaram, intensamente, e se desenharam.

E ele, que ainda amava outra com obsessão insana, começou a ser suavemente conquistado. O indecifrável fluía sem palavras, sem entendimentos, como se tudo estivesse certo. Descobriam-se como se estivessem desvendando algum mistério, sem pensar sobre o que estavam fazendo nem para onde estavam indo. Agiam como sonhadores, até que se perguntou o que era tudo aquilo. O que estava acontecendo?

Talvez tenha sido a capivara, ou o excesso de pessoas na noite de dezembro. Foi nesse dia que a peça terminou. Ele era um ser estranho, esquisito. Vivia numa ruína, de caixas cheias de livros, velas e castiçais. Não era uma casa. Era somente um espaço de paredes e chão. Ela quis conhecer o lugar, e ele a levou sem esperar. Ao chegar, com as roupas já no chão, tornou-se ele o personagem que era, e cumpriu a esperada promessa. Não era cena, era real. Os corações se aceleraram e o calor aumentou. A lâmina entrou fundo, penetrando pelo corte vertical. Um líquido quente escorreu pelos lados, e ela gritou. Mas não havia ninguém para ouvir. Como havia prometido, ele fez dela um picadinho. Partiu-a em milhares de pedacinhos. Depois comeu tudo e não deixou nadinha.

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10.4.06

Ensaios sobre a nudez



Isto é uma revelação. Inútil, talvez. Excessiva exposição. Talvez não. Vou publicar, por embriaguez. E já que você está lendo, considere-me humano, sensível, confuso e honesto. Considere-me vivo. Considere-me bom. Sou uma criança de 37 anos. Amo a vida, amo meus pais, meus amigos, minhas mulheres. Não acredito que exista quem saiba como se vive no mundo, quem tenha tido acesso às instruções de uso. Eu não ligo muito para isto, mas me interesso em tentar descobrir, mesmo que não faça sentido para ninguém mais. Eu acho que existem leis na natureza, mas ninguém as conhece. Não creio que elas estejam escritas em algum livro, muito menos reveladas em palavras a algum iluminado, e se foram, só servem para ele. Nós criamos teorias sobre elas, e isto é o mais próximo que conseguimos chegar. Eu tenho um corpo. É assim que percebo. E meu corpo interage com o mundo e me causa sensações. Eu tenho uma mente, que talvez só exista no corpo, mas que é capaz de pensar sobre ela mesma, dando a impressão que é algo além do corpo. Talvez seja. Talvez não. Eu não sei a verdade e tenho certeza que você não sabe. E isto não me importa. Isto não faz diferença. Isto não vai fazer o mundo melhor. O que pode fazer o mundo melhor é o que você acredita que é sua verdade, e o que eu acredito que é a minha. Minha verdade, nas suas questões mais profundas, dificilmente será a mesma que a sua. Só podemos concordar com o que vemos, com o que sentimos, com o que medimos. Nosso deus é pessoal. Se é o mesmo para todos, assim podemos até crer, mas nunca podemos argumentar.

Pois eu tenho uma mente e não posso impedi-la de pensar. Eu tenho um corpo e não posso impedi-lo de descobrir-se, de se tocar, de querer tocar os outros. Eu vivo num mundo e desejo decifrá-lo, e para isto busco explorar seus limites. Seus limites estão, talvez, nos limites dos outros vivos, nas forças da natureza, na gravidade, no preço de viver em sociedade, nos costumes, nas autoridades, no dinheiro, nos riscos, nas fatalidades. A ética do mundo me deprime, às vezes, mas às vezes me enche de vida. É contradição? Não sei. Sou ignorante. Às vezes quero ser. Mas geralmente sinto incontrolável vontade de não ficar quieto. Interesso-me por tudo. Uma faísca pode causar um incêndio. Uma faísca acidental pode nortear uma vida, ou destrui-la. Sou inconstante? Não sei. O que é ser constante? Pedras são constantes? Bichos deveriam ser? Eu sou um bicho. E se for melhor para a saúde dos bichos que eles sejam inconstantes, e se for mais prazeroso, e se for mais belo, mais misterioso, provavelmente seja certo ser inconstante. Eu procurarei uma máscara, ou talvez um vidro translúcido e áspero para me adaptar ao mundo sem perder a identidade.

Identidade. Certeza. Palavras surgem nas frases sem que eu tenha tempo de entendê-las. Essas duas eu também não entendo. E eu sei que escrever não ajuda tanto, só piora. Se o mundo fosse governado pela razão, pelas palavras, não haveria necessidade de escrever. As palavras são ocas, esponjosas, e qualquer coisa que passar por elas, boa ou ruim, doce ou amarga, imaculada ou podre, penetra nelas, deixando-as impregnadas.

Eu escrevo isto para quem puder me ver como um animal. Humano. Eu vou me despir. De perto você não me achará normal, assim como de perto eu não vou encontrar a pessoa que você é. Ninguém chega tão perto. Ficamos à distâncias adequadas. Geralmente ficamos mais distantes que o adequado, e talvez por isso sejamos tão infelizes, tão solitários. Eu tenho uma imagem sua. Meu amigo, minha irmã, minha mãe, meu pai, meu irmão, minha amiga, minha namorada, meu conhecido, meu colega. Você tem uma imagem minha. Cada um de vocês tem uma imagem diferente. E eu, tenho uma imagem minha também, e que não sou eu. Eu tenho muitas imagens. São teorias sobre quem eu sou. De vez em quando, rasga uma cortina, ou cai um penhasco, e minhas teorias desmoronam.

Mas eu ainda não escrevi o que eu queria escrever. Talvez hoje não seja o dia. Hoje estou feliz, e as coisas estão claras demais. A chave abriu mais portas do que eu imaginei que pudessem existir. Ainda estou acostumando a vista. Desisti de me despir. Tem luz demais. Isto não é um diário. É um jornal. Aqui tudo é ficção. E o idioma não é adequado.

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7.4.06

I lost my Sputnik

Only letters; count them, but forget spaces

I have lost my beloved Sputnik
In the vast journey of my life.
All is dark. While love slides away
I wander alone in the void.

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8.1.05

Soneto de Iracema

Praia de Iracema, Fortaleza, CE

Ele veio como onda no mar
Percorrendo as curvas, espumantes
Lambendo suas costas ao chegar
Rolando como o vento dos amantes

Voltou à vida dela de repente
Intenso, misterioso, surgiu
Depois de sete anos, diferente
Deixou-se seduzir, e seduziu

No verso do poeta florentino
Seu desejo de luxúria ardia
Por Helena, em louco desatino

Acordou Elizabeth que dormia
E propagou o seu fogo divino
Nos corpos nus até nascer o dia.

(São Paulo, 7 de abril de 2000.)

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30.11.04

Distração Fatal

Praia de Tambaba, Parahyba. Foto de Helder da Rocha

Na praia, eu olhava
as estrelas
que ela iluminava
E ela, amante, me olhava
com sua luz
que então me escapava.

Eu do mar, ignorava
a escura onda
que lentamente chegava
E ela, em silêncio, apagava
a luz dos olhos
que eu tanto precisava.

(Campina Grande, 29 de janeiro de 2003)

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16.9.04

Resposta a uma pergunta simples

Nebulosa Cabeça de Cavalo - B33, na Constelação de Órion

"O que queres da vida?" perguntas-me. E eu, em silêncio, penso no que responder. Penso mais, e quanto mais penso, menos sei a resposta. Vejo-me nu, vulnerável, como criança perdida da mãe no meio da multidão. Esta é pergunta cuja resposta eu teria que saber, não é? Por que não sei? Será que sou louco? Irresponsável? Será que sei e não quero dizer? Mas se sei e não quero dizer é que na verdade eu não sei e não quero dizer algo que na verdade não acredito, não é?

O que eu quero? Sinceramente? Eu não sei ainda. Aliás "saber" é uma palavra que cada vez mais desaparece do meu vocabulário. Quanto mais "sei" menos creio que meu saber é real. É só pensar no que se sabe para que se pense que o que se sabe não é saber.

Mas estou fugindo da tua pergunta, não é? Entendo o que me perguntas. Já achei que queria casar, ter filhos e morar, em um só lugar. Já achei que queria vagar, por mares e trilhos, e navegar, pelo mundo. Criar, inventar caminhos, mudar os rumos, influenciar os destinos, realizar coisas impossíveis, alterar as trajetórias dos dias e dos anos, das idéias e concepções, das pessoas e das nações. Eu ainda não sei o que quero. Não sei se algum dia saberei. Quanto mais aprendo, menos eu sei (não tenho como fugir do assunto - é parte da resposta, se é que ela existe). Quanto mais cresço, maior torna-se o Universo, mais enxergo onde antes havia pouco, mais ouço os que antes ignorava, mais respeito os que vivem sem grandes ambições, felizes em suas convicções. Cada novo conhecimento descortina mais um aspecto da minha ignorância, aumentando a complexidade de todas as coisas, atos e pensamentos, revelando-me uma sabedoria que está em um mundo simples do qual participo cada vez menos.

Não sei tuas convicções. As minhas não são e não podem ser fixas. Estão sempre diante do risco do desabamento. São dinâmicas. Há umas mais antigas; há outras mais novas. Talvez não se possa viver sem convicções, mas para mim, elas se comportam como teorias científicas - sempre vulneráveis à primeira refutação. São castelos de cristal que podem trincar na ressonância aguda de uma nova descoberta. As palavras "nunca" e "sempre" são continuamente reinventadas em minha mente.

Adoro paradoxos, enigmas, infinitos e círculos que não tem fim. Adoro escrever textos loucos sem sentido imediato com idéias controversas nas entrelinhas. Adoro provocar minhas convicções, pô-las à prova e testar idéias contrárias. A incerteza me anima e move meu interesse. A dúvida me dá prazer em viver, me incentiva à investigação constante e permanente. A sede de descobrir parece-me insaciável. A curiosidade sobre o todo, sobre o que existe de fato, sobre a possibilidade do fato não existir, sobre a inexistência da existência, faz destes sentidos dinâmicos que imprimem em minha mente algo que defino como vida - para pelo menos poder falar dela - uma aventura extremamente feliz. Fico feliz em saber que o desconhecido é infinitamente maior que o conhecido. Busco a verdade em todos os tempos e espaços, mesmo reconhecendo que nunca é definitiva ou absoluta. Para mim, a certeza definitiva e a verdade absoluta, a predestinação determinada, o nunca e o sempre, o início e o fim, o preto e o branco são singularidades inatingíveis. Utopias que buscamos, chegamos perto, mas nunca alcançamos. Dão sentido às coisas e à vida. Trazem alegrias e tristezas num mar utópico de indiferença, um espectro de cores entre o tudo e o nada. Aceito relatividades, finais com reinícios, viagens sem volta mas com novas partidas, até mesmo a paradoxal utopia. Acredito no "nunca" e no "sempre" do que se move e se transforma, do que muda para continuar ou deixar de existir.

Então como posso responder à tua pergunta? Será que posso? Acho que sou muito imaturo. Se é tão simples, por que eu não vejo uma resposta simples? Às vezes tenho certeza do que quero, quando a solidão me atinge com força, quando tenho medo do infinito e da imensidão do mundo, quando vejo-me no meio de um deserto humano, compreendendo tudo e todos como uma tela pintada, fotografia ou filme que assisto sozinho sem poder participar. Nessas horas quero entrar no filme e esquecer do mundo lá fora. Quero ser uma pequena parte da parte maior que para mim era o todo conhecido. Quero ser sombra feliz que sequer sabe sua condição de sombra. Nessas horas eu sei o que quero da vida. Mas não sou eu! É minha personagem do instante do desespero, que sabe como ser feliz num mundo que compreende através de uma janela da minha mente. Mas eu sou a mente inteira, de mil janelas, cujos horizontes estendem-se além das fronteiras desse Éden compreensível e seguro, e seduzem-me com o infinito, incompreensível e incerto. Como posso responder sobre mil futuros?

Não vou conseguir. Não acredito em promessas pontuais sobre futuros incertos. Não sou máquina, nem espero conviver com máquinas. Aceito a condição humana, animal, por mais que sofra com seus efeitos. Aceito que o amor foge ao controle humano e que deve-se curtir sua intensidade pelo tempo que durar (mas também que sentimentos de amizade e cumplicidade podem persistir bem além.) Aceito a irrestrita liberdade de pensar e de ser. Aceito que idéias mudam, assim como opiniões, crenças e conceitos, vontades e sentimentos. Aceito que os sentidos freqüentemente nos dominam, que a mente muitas vezes nos induz a raciocínios complicados e destrutivos, que erramos dentro do que definimos como certo e errado, que violamos acordos e também que nem sempre concordaremos com as mesmas definições. Aceito que somos humanos e imprevisíveis. Numa sociedade que exige de nós cada vez mais a perfeição mecânica diante de convenções aceitas pela maioria, é fundamental que aceitemo-nos como humanos, com direito irrevogável à compreensão e ao perdão, acima das leis e convenções, mesmo que seja para ter o direito de não compreender ou não perdoar.

Todo argumento longo é ruim, dá margem a interpretações diversas; confunde. Dificilmente não haverá contradições nisto que escrevi... Escrevi, escrevi, e não consegui. Não consegui responder à tua pergunta simples.

(São Paulo, setembro de 2003)

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