15.12.07

O que é um plágio?

Se eu escrevo um texto, baseando-me em informações obtidas em fontes de domínio público, encontradas em enciclopédias e textos históricos sobre fatos que todos conhecem, sem acrescentar nenhuma pesquisa original, análise crítica ou conclusão, mas organizando as informações que eu considero mais relevantes dessa pesquisa, usando palavras, pontuação, ordem dos assuntos e ênfases escolhidas por mim, e ainda citando todas as fontes, esse texto é:
  1. Um plágio das fontes originais ou enciclopédicas onde eu o pesquisei?
  2. Um texto de domínio público que pode ser reproduzido livremente sem citar o autor (autor ou organizador?), já que não traz nenhuma informação, dado ou conclusão original?
  3. Um texto original que, apesar de não trazer nenhuma informação ou visão nova sobre o assunto, apresenta as informações sob uma forma própria, escolhida pelo autor, guiado pelo que ele considera importante?
Pesquisando nestas fontes eu escrevi este prefácio para uma tradução, em 1998. As fontes continham informações contraditórias, já que tratam da história de personagem histórico que viveu há mais de 700 anos e do qual não se possui dados precisos. Analisando as várias fontes, eu escolhi as que me pareceram mais coerentes (embora não tenha certeza e possa estar errado) e elaborei um roteiro que utilizei para escrevê-lo. Várias fontes estavam em outras línguas, principalmente inglês. O prefácio é uma biografia de Dante Alighieri. A partir do roteiro, eu escrevi, rescrevi, escolhi as palavras, as vírgulas, os parágrafos, e produzi o texto do qual o parágrafo abaixo foi extraído.
A maior parte do poder em Florença estava então nas mãos dos guelfos - opositores do poder imperial. Mas o partido em pouco tempo se dividiu em duas facções. A causa foi novamente uma rixa entre famílias, desta vez, importada da cidade de Pistóia. Os Cancellieri era uma grande família de Pistóia, descendentes de um mesmo pai que tivera, durante sua vida, duas esposas. A família Cancellieri se dividiu quando um membro desajustado da família assassinou o tio e cortou a mão do primo. Os descendentes da primeira esposa do Cancellieri, que se chamava Bianca, decidiram se apelidar de Bianchi. Os rivais, que defendiam o jovem assassino, se apelidaram de Neri (negros) em espírito de oposição. A briga tomou conta de Pistóia e a cidade acabou sofrendo intervenção de Florença, que levou presos os líderes dos grupos rivais. Mas as famílias de Florença não demoraram a tomar partido e, por causa de uma briga de rua (...)
A seguir explicarei os negritos.

Anos depois, foi publicado numa edição especial sobre Dante Alighieri da revista Entre Livros (que aparentemente deixou de circular mês passado), um texto sobre a vida de Dante, assinado pelo professor Dr. Carlos Berriel, PhD, da Unicamp. O texto é três vezes maior que o meu, mas tem vários parágrafos semelhantes, como este, por exemplo:
A maior parte do poder em Florença estava então nas mãos dos guelfos - opositores do poder imperial. Mas o partido em pouco tempo se dividiu em duas facções. A causa foi uma rixa entre famílias, oriundas da cidade de Pistóia. Os Cancellieri eram uma grande família dessa cidade, descendentes de um mesmo pai que tivera, durante sua vida, duas esposas. A família Cancellieri se dividiu quando um membro desajustado da família assassinou o tio e cortou a mão do primo. Os descendentes da primeira esposa de Cancellieri, que se chamava Bianca, decidiram chamar a si mesmos de Bianchi. Os rivais, que defendiam o jovem assassino, passaram a se identificar como Neri (negros), em espírito de oposição. O conflito tomou conta de Pistóia, e a cidade acabou sofrendo a intervenção de Florença, que prendeu os líderes dos grupos rivais. Mas as famílias de Florença não demoraram a tomar partido, posicionamento deflagrado por uma briga de rua (...)
Sim. Os negritos são as únicas diferenças. O texto publicado na Entre Livros foi revisado e (pelo menos este parágrafo) foi corrigido e melhorado em relação ao que eu publiquei no site. Não é apenas um parágrafo semelhante que aparece no artigo publicado na Entre Livros. 80% do meu texto foi usado. Eu publiquei uma comparação e destaquei os trechos semelhantes.

Escrevi um post na época e enviei uma carta para a editora, para o autor, e para a Unicamp, onde o autor é professor. Recebi resposta da editora (e indiretamente do autor), que publiquei neste outro post. Isto faz quase um ano. Há poucos dias recebi a seguinte resposta da reitoria da Unicamp, reproduzida abaixo:
Assunto: Denúncia de Plágio
De: Laisez Jael Cabral Puya Ernandes (email omitido)
Data: 12 de dezembro de 2007, 09h22
Para: Helder da Rocha (email omitido), ‘Ranali’ (email omitido)

Prezado Senhor Helder

De ordem do Sr. Chefe de Gabinete informo que:

Após submeter sua denúncia a nossa Procuradoria Geral, a mesma manifestou-se:
“Pelo exposto detalhadamente até aqui, a Comissão, diante de todo o apurado, conclui que o princípio da anterioridade do escrito apontado como reproduzido se justificaria se o autor pudesse comprovar ou esclarecer, sem qualquer dúvida, que é o criador original dos dados ou informações contida em seu texto. Havendo a coincidência informal e textual de dados bibliográficos a respeito de Dante, tal fato não parece, a nosso ver, ferir propriedades autorais reclamadas por Helder Rocha. Assim, em vista de todo o apurado, não julgamos consistente e clara a configuração de contrafação literária no caso da denúncia em tela”.

Na oportunidade colocamo-nos à disposição.

Atenciosamente

Laisez Ernandes
Assist. Chefe de Gabinete
O grifo é meu.

Se eu entendi a carta, de acordo com as conclusões da comissão formada pela Unicamp para analisar o assunto, o ocorrido não se trata de um plágio porque eu realmente não sou o criador original dos dados e informações que ali estão e eu não descobri novos fatos da história da Itália ou de Dante. Isto [e verdade. Todas as informações que eu usei eram conhecidas. Eu sou o criador original do texto, da forma de apresentar esses dados e informações. Copiar e assumir a autoria de um texto existente que traz informações que todo mundo já sabia não é considerado plágio?

Ou eu não sei o que é plágio ou a Unicamp não sabe o que é plágio. O que é plágio, afinal? Alguém tem uma definição? Eu posso recortar e colar trechos inteiros de um artigo da Enciclopédia Brittanica (que fale de assunto de conhecimento geral) assinar como sendo de minha autoria e incluir na minha tese de doutorado? Será que isto vale para qualquer universidade, ou somente se eu fizer meu doutorado na Unicamp?

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5.10.07

Anna Abda

“Ha ocurrido una cosa que es increíble...”
J.L. Borges, “Emma Zunz”

Louise Burghes Azevedo faleceu no dia 14 de junho de 2006, aos 86 anos. Ela era viúva. Seu marido, um arquiteto, era falecido há mais de quarenta anos. Acredita-se que ela tinha dois filhos homens, que moravam fora do país, e que sua mudança para o apartamento da rua Baronesa de Itu ocorrera após a morte repentina de um deles. Louise era uma velhinha simpática. Sorria, fazendo sumir seus olhos azuis na sua pele clara e enrugada, mas não falava muito. Morava sozinha com um mordomo e uma enfermeira que às vezes eram vistos levando-a para caminhar pelos jardins do condomínio. Nos últimos anos ela era vista sempre numa cadeira de rodas, usando chapéu e óculos escuros. Praticamente não falava. Recebia visitas ocasionalmente, mas ninguém sabia muito sobre ela. Não sabiam, por exemplo, que Louise Burghes não era seu verdadeiro nome.

A coleção completa das obras de Jorge Luis Borges que encontrei no sebo do Brandão era assinada por Anna Loewenthal, Buenos Aires, 15 de janeiro de 1962. Era uma coleção atraente. Os volumes tinham capa verde, detalhes dourados e letras grandes. Eu certamente a teria comprado se não fosse o detalhe de que um dos volumes estava com várias páginas faltando. Faltava uma história inteira.

Saiu no jornal O Correio do Povo, de Porto Alegre, em 15 de maio de 1963 a notícia de que “foram encontrados mortos a tiros em sua propriedade rural no município de Bagé, o casal de aposentados Dora Martinez e Zacarias Herrera. O crime teria acontecido por volta das onze e meia da noite de ontem mas o casal só foi encontrado hoje pela manhã, pelo caseiro que chamou a polícia. Até o momento não há pistas dos assassinos.”

Em 11 de novembro de 1918 Hannah Abda conheceu Samuel Loewenberg, apaixonou-se por ele e tornou-se sua amante. Loewenberg era um homem rico, sério e discreto, e era casado. Sua esposa, Rachel, era uma distinta senhora da família Gauss. Eles nunca tiveram filhos. Quando Hannah ficou grávida, seis meses depois, Samuel passou a sustentá-la secretamente com uma pensão mensal. Pouco depois do nascimento de Anna, Rachel morreu de causas desconhecidas e Samuel tornou-se recluso, distante e religioso. Mesmo assim, não cortou a pensão que pagava a Hannah e comunicava-se com ela ocasionalmente por carta. Mas no ano seguinte Samuel foi assassinado, a pensão cessou e Hannah afundou na miséria.

Eurico me ligou no fim da tarde para dizer que havia encontrado as páginas que faltavam da coleção de Borges. Ele as encontrou dentro de um dos diários de Louise Burghes. Voltei do sebo com a coleção, os diários e as páginas soltas de Emma Zunz. Os diários, escritos em espanhol, não traziam nada de muito interessante. Falavam de coisas banais, da falta de dinheiro, das visitas inoportunas. Quase sempre reclamava da vida, uma vida sem graça, onde pequenos problemas eram ampliados para dar sentido às coisas. Em outras páginas havia contas, números de telefone, endereços, notas curtas, rabiscos. Meu interesse maior era pelo que estava solto dentro dos diários: fotos antigas, recortes de jornais e cartas incompletas.

Anna tinha quase dois anos quando seu pai, Samuel Loewenberg, sócio-proprietário da fábrica de tecidos Schreiber & Loewenberg, foi assassinado. Ele foi morto com três tiros no peito, numa noite de sábado, 14 de janeiro de 1922 por uma ex-funcionária que o surpreendeu no escritório. Alegando legítima defesa por ter sido vítima de assédio sexual, Manuela Mayer confessou o crime e submeteu-se a exame de corpo de delito comprovando o ato. Julgada e inocentada, desapareceu dois anos depois e nunca mais foi vista. Dizem que ela casou-se com um marinheiro sueco e mudou-se para o Brasil.

No jornal Diário de Notícias, também de Porto Alegre, a notícia de 27 de maio de 1963 informando que “o exame dos cadáveres do duplo assassinato da semana passada em Bagé revelou um detalhe macabro: uma assinatura, feita com um objeto cortante, no pulso de ambas as vítimas. O criminoso assinou sua obra com o nome de uma mulher: Anna Loewenthal.”

No dia 29 de novembro de 1947, Hannah Abda morreu de tuberculose em um hospital da periferia de Buenos Aires. Em 14 de maio de 1948, sua filha Anna casou-se com o arquiteto George Burghes, assumindo o nome de Louise. No dia seguinte George e Louise Burghes mudaram-se para Londres.

O último recorte datado de 25 de agosto de 1963, é do Jornal do Comércio de Bagé, e noticia que “a polícia de Bagé recebeu ontem uma carta anônima, assinada pela misteriosa Anna Loewenthal, acusando suas vítimas de serem assassinos. De acordo com a carta, Dora Martinez é na verdade Manuela Mayer, acusada de matar, em janeiro de 1922, o empresário argentino Samuel Loewenberg, em Buenos Aires. A carta é longa e revela em riqueza de detalhes as estratégias que teriam sido usadas pela vítima para realizar o crime perfeito e escapar como inocente. Especialistas acreditam que as informações da carta são falsas e foram inventadas pelo assassino, certamente um psicopata, e descartam a possibilidade de que se trate de uma mulher.”

Nas folhas arrancadas de Emma Zunz, que estavam soltas dentro do diário de Louise Burghes, os nomes das personagens estavam sublinhados, e havia uma nota no final, assinada por Anna Loewenthal em Buenos Aires, 31/01/63 (um dia após a morte do seu marido), que dizia: “George partiu então Louise não mais existe. Mas hoje ocorreu uma coisa que é incrível. Descobri Anna, filha de Hannah e Aaron Loewenthal. Ela está de volta para vingar o assassinato do pai e a infelicidade de sua mãe. A partir de hoje Anna Loewenthal é a Morte, e ela chegou para buscar Emma Zunz, onde quer que ela se encontre.”

Até onde pude verificar, foi tudo verdadeiro. Só eram falsas as circunstâncias, a hora, e um ou dois dos nomes próprios.


Clube de Leituras sobre Borges

Este conto foi inspirado pelo Clube de Leituras sobre Jorge Luis Borges organizado por Idelber Avelar, através do seu blog O Biscoito Fino e a Massa. Idelber convida todos a participarem das discussões através da caixa de comentários do seu blog ou escrevendo sobre os contos estudados. O Clube continua e haverá estudo de vários outros contos de Borges. Emma Zunz foi o conto de quarta-feira passada. Eu não consegui escrever sobre o conto, então escrevi uma resposta a Borges. O último parágrafo pertence a ele.

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22.9.07

A Loteria em Babilônia


As Moiras (fiandeiras do destino), por Francisco de Goya.

A Loteria em Babilônia – o conto de Jorge Luis Borges – me parece um monólogo. Consigo até visualizar o ator, sentado em uma cadeira na sala de espera de uma estação, ou de um porto, ou aeroporto, contando, com entusiasmo, a sua história para alguns outros que, como ele, também esperam. Ele se move, gesticula, fixa-se nos olhos de sua platéia, varia o tom e intensidade da voz, cala-se, olha para o lado, e volta a falar com emoção ao descrever suas experiências de vida inacreditáveis. Ele quer a nossa atenção.
“Olhem: à minha mão direita falta o indicador. Olhem: por este rasgão da capa vê-se em meu estômago uma tatuagem vermelha: é o segundo símbolo, Beth (...)”
Quando finalmente consegue prender a atenção da platéia, ele explica a razão que está por trás de tudo: a loteria. Mas não é uma simples loteria. É um jogo de acasos controlado por uma organização onipotente e secreta que tem o poder sobre a sorte e o azar de cada habitante, que interfere na natureza manipulando e intensificando o acaso. Essa organização, que ele chama de A Companhia, tem o poder de causar tempestades ou calmarias, determinar se alguém irá matar ou morrer, alcançar a glória ou a desgraça. Através de pequenas ações, às vezes inócuas, distribui a sorte ou o azar a todos os jogadores. Como as Moiras da mitologia, a Companhia fia os destinos de todos, dia após dia, até a hora da morte.

Ele está de partida, e a nave que vai levá-lo embora já chegou na estação, ou no porto. Mas o tempo que resta é suficiente para que ele nos conte toda a história da loteria, em detalhes. É uma história fascinante, inverossímil. Ao final, admitindo a influência da loteria, confessa ter talvez exagerado, ou mesmo mentido:
“Sob o influxo benfeitor da Companhia (...) eu mesmo, nessa apressada exposição, falseei certo esplendor, certa atrocidade.”
E conclui:
“É indiferente afirmar ou negar a realidade da tenebrosa corporação, porque Babilônia não é outra coisa senão um infinito jogo de acasos.”
A Loteria na Babilônia é, portanto, uma metáfora do acaso. Pode não ser o acaso. Pode ser, como se define, uma ordem que interfere no acaso, mas qual a diferença? Como distinguir o crime perfeito de um acidente? Se um evento for tão bem planejado que seu resultado pareça um evento do acaso, embora não seja, há como dizer que ele não o é? Suponha que estamos em Babilônia, e lá dois carros deslocam-se em sentidos opostos numa rodovia. Um dos motoristas invade a outra faixa. Os carros colidem. Os motoristas morrem. Um acidente. Uma fatalidade. Será? Um animal cruzou a pista? O motorista se distraiu? Uma peça quebrou? Como ter certeza que não houve interferência?

É como se o mundo fosse uma simulação, um programa. Uma ordem de eventos precisamente calculada pode ser o acaso dentro desse sistema. Se você consegue habitar fora do sistema terá condições de entender o algoritmo e decifrar sua chave, mas dentro dele essa ordem parece o caos, o acaso. É por isto que não existe, no mundo dos computadores, nada realmente aleatório (para nós que habitamos fora deles.) No conto, a loteria começa como um sistema simples contido no universo, e é, portanto, compreensível, mas quando se expande a ponto de ocupar todo o universo, torna-se cada vez mais incompreensível para os que habitam nele. Somente quem está de fora é capaz de ter certeza que os eventos não são obra do acaso. Aos habitantes, resta apenas especular sobre isto, ou aderirem à fé.

A Companhia me lembra uma das minhas teorias de conspiração favoritas: a sociedade secreta dos Illuminati da Baviera, que seus seguidores acreditam ainda existir e ser formada por pessoas vivas e mortas. Os Illuminati exercem um governo paralelo do mundo, controlando os rumos da humanidade, influindo nas decisões dos governos, das organizações poderosas, até mesmo alterando o clima. Sua justiça é como a justiça divina: incompreensível aos mortais comuns. Assim, como Deus e A Companhia, suas decisões são indistinguíveis do acaso.

A história, portanto, brinca com a teoria da predestinação, de que não temos controle algum sobre o noso futuro. Nesse contexto tem semelhanças com um conto de Philip K. Dick: Minority Report. Enquanto o conto de Borges descreve uma organização que interfere na realidade, intensificando o caos e causando eventos que não eram previstos, o Minority Report descreve uma organização que utiliza-se de videntes para descobrir eventos que irão acontecer, produzindo um relatório, que é usado, dentre outras coisas, para identificar pessoas que irão cometer um crime e prendê-las antes que elas o façam. Em ambos os contos a predestinação faz parte da natureza: as pessoas não têm a liberdade de decidirem o rumo que darão às suas vidas, não existe livre arbítrio.

Há contos que me fazem viajar nas imagens, outros me enchem de idéias e me estimulam a pensar (nem sempre estou disposto a isto.) Vários contos de Borges são assim, mas eles combinam imagens (nem sempre fáceis de formar) com idéias. Pela forma como descreve a realidade, A Loteria em Babilônia se assemelha a outro conto de Borges: A Biblioteca de Babel.

O conto também associa o jogo de sorte e azar com a alegria de viver. O narrador explica que as pessoas tinham prazer em participar dos acasos, das paixões. Os que não tinham como comprar o bilhete ficavam com inveja dos que se aventuravam no jogo e poderiam ganhar uma grande sorte ou um grande azar. Todos querem viver intensamente. Buscam o terror e a esperança. Qualquer coisa é melhor que a monotonia da paz. Acreditam que a vida vale a pena quando corre-se o risco de perdê-la. Participar da loteria é como entregar-se completamente às paixões da vida, mesmo arriscando encontrar a dor em vez da felicidade. Para amar a vida, é preciso amar o acaso.

Clube de Leituras sobre Borges

Esta resenha sobre o conto A Loteria em Babilônia foi inspirado pelo Clube de Leituras sobre Jorge Luis Borges organizado por Idelber Avelar, através do seu blog O Biscoito Fino e a Massa. Idelber convida todos a participarem das discussões através da caixa de comentários do seu blog ou escrevendo sobre os contos estudados. O Clube continua e haverá estudo de vários outros contos de Borges. A Loteria em Babilônia foi o conto de segunda-feira passada. Eu cheguei atrasado.

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21.7.07

Lançamentos

Eu li Virgínia Berlim, de Luís Biajoni. É ótimo. Escrevi um post mas acabei não publicando. Vou publicar na semana que vem junto com outro post inédito que escrevi há séculos sobre outro e-book (um livro de contos) de Alex Castro. Hoje tem lançamento em São Paulo de três livros, dois do Alex e um do Biajoni. Um dos livros é intangível, mas vai ser lançado mesmo assim. Apesar de intangível é legível. Você pode assistir ao trailer do livro lendo este blog.



Ah, também existe um trailer de Virgínia Berlim, que foi escrito como um livro mas que ao ser lido flui como um filme ou uma peça de teatro. E que tem uma ótima trilha sonora!

Ainda não li as crônicas cubanas - o tal livro intangível, que Alex escreveu durante uma viagem a Cuba no mês passado. As crônicas libertinas são ótimas. O livro é uma boa introdução ao blog Liberal Libertário Libertino, que tem várias outras pérolas nunca publicadas como As Prisões.

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14.2.07

Resposta da editora

Eu enviei na segunda-feira o email abaixo para a editora EntreLivros.
----- Original Message -----
From: Helder da Rocha
To: jaguiar@duettoeditorial.com.br
Sent: Monday, February 12, 2007 2:11 AM
Subject: A Entre Livros publicou um texto plagiado

Prezado Editor,

O texto publicado entre as páginas 6 e 13 da edição especial Entre Classicos sobre Dante Alighieri, assinado pelo professor doutor Carlos Eduardo O. Berriel, PhD, contém parágrafos inteiros retirados do meu texto "Dante Alighieri", uma minibiografia do poeta que faz parte da minha tradução em prosa do Inferno e Purgatório disponíveis desde 1999 na Web brasileira. O meu site é a principal referência em português sobre Dante (verifique pesquisando no Google).

Verifiquei que o professor utilizou-se de 80% do meu texto para compor 1/3 do seu artigo. A utilização foi não autorizada, não cita a fonte e contém não apenas as idéias do texto mas as mesmas seqüências de palavras, pontuação, e parênteses com pequenas variações na ordem dos parágrafos e escolha de sinônimos.

Eu disponibilizei, na Internet, uma página para a comparação dos dois textos, onde o Sr. poderá verificar a semelhança. O link é http://www.helderdarocha.com.br/blog/comparacao.html. Eu já divulguei esse link para várias pessoas (jornalistas, acadêmicos, cineastas, escritores) que conhecem meu site desde que foi criado, e tenho como provar que meu texto foi escrito antes.

Espero providências da revista quanto a ssa situação. Este email tem a finalidade apenas de informá-lo(s) a respeito.

Atenciosamente,

Helder da Rocha

E obtive como resposta um e-mail que contém uma resposta do professor Carlos Berriel ao editor da série EntreClássicos, Manuel da Costa Pinto. O e-mail está parcialmente reproduzido abaixo:

Prezado Helder,
(... trechos omitidos ...)
Abaixo, reproduzo o e-mail que o prof. Berriel, que está fora do país, enviou a Manuel da Costa Pinto. (...)
Joselia Aguiar
Editora
EntreLivros

Caro Prof.Manuel,
lido o material que voce me enviou, e numa resposta imediata, longe que estou de meus materiais (estou fora do pais) posso responder o seguinte:
1) o leitor tem parcialmente razao em suas queixas.
2) utilizei-me de suas informacoes basicas sobre datas e algumas passagens da vida de Dante, como alguem que se utiliza de um verbete de enciclopedia para um artigo de imprensa. As informacoes utilizadas, entretanto, nao sao produto de uma investigacao original por parte do leitor, mas fazem parte de um patrimonio cultural acumulado nos ultimos muitos seculos, pelo menos desde a biografia de Dante publicada, ainda no seculo XIV, por Bocaccio, e incessantemente enriquecida pela tradicao de pesquisa sobre vida e obra dantesca. Este material foi igualmente extraido, pelo leitor justamente queixoso, deste acervo, e nao poderia proceder de outra forma. Seria muito dificil, por exemplo, escrever de uma forma original que Dante foi apaixonado por Beatriz, e que a viu pela primeira vez aos 9 anos, e pela segunda vez depois de outros 9 anos.A leitura de meu artigo indica que seu cerne e possivel interesse està na parte nao exclusivamente informativa, mas que sugere uma compreensao do sentido cultural da vida do poeta. Meu artigo, lido isentamente, està na parte nao reclamada.
3) Entretanto, acredito que involuntariamente causei desconforto ao leitor, pelo que lamento profundamente.
Atenciosamente,
Carlos Berriel

O que vocês acham? Mais tarde escreverei mais sobre este assunto. Estou sem tempo agora.

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9.2.07

Ei, esse texto é meu!


Falsários na décima vala do oitavo círculo do Inferno, por Gustave Doré

"Vimos dois pecadores sentados, um de costas para o outro, com os corpos totalmente cobertos de sarnas. Eles se coçavam freneticamente, afundando suas unhas na pele e tentando, em vão, atenuar a coceira que nunca cessava." (Inferno, Canto XXIX - oitavo círculo, vala dos falsários)
Eu acho que muitos de vocês sabem que eu tenho um site sobre Dante Alighieri, onde publiquei uma tradução em prosa (ou adaptação, versão, como quiser chamar) dos dois primeiros livros da Divina Comédia, que eu fiz de 1998 a 2000. O site não tem só as traduções mas também notas, imagens, desenhos, e outros textos que escrevi durante a pesquisa. Apesar de ter iniciado o trabalho sem grandes pretensões, eu o levei a sério, pesquisei em vários livros, traduzi do inglês, do italiano, e revisei várias vezes. Caprichei também no site, na navegação, na estrutura, usando os melhores recursos que havia na época (não mudei nada desde 2000).

Nunca terminei a Divina Comédia, mas nesses sete anos o site atraiu inúmeros visitantes. Recebi centenas de e-mails de estudantes, pesquisadores, produtores de cinema, promotores de eventos culturais, jornalistas, escritores. Pode ser que seja “apenas mais uma” tradução em prosa, mas não é igual às outras. Estudei e procurei ser fiel ao autor, dentro das possibilidades de uma obra em prosa. Enviei para seis editoras. Tive resposta negativa de duas, e as outras nunca responderam. Ano passado disponibilizei em formato PDF online para quem quisesse baixar e imprimir. O Inferno tem em média 1000 downloads por mês, e o Purgatório pouco mais que a metade disso. O site é a principal referência sobre Dante e sua obra em português, e foi a primeira tradução em português publicada a Internet. Digite “Dante” ou "Dante Alighieri" no www.google.com.br e meu site é o segundo link (o primeiro é da Wikipedia, que cita meu site). Digite “Divina Comédia” e é o primeiro link.

Hoje eu apenas mantenho o site no ar. Já pensei em terminar, em rescrever tudo, em fazer o Paraíso. Talvez aconteça, mas não vai ser tão cedo (talvez com um estímulo - tipo uma editora interessada - as coisas mudem). Mas ainda me interesso sobre o que falam do site. Enquanto esperava um vôo atrasado há duas semanas, achei uma edição especial da revista Entre Livros sobre Dante, com artigos biográficos, textos sobre suas obras, influência nas artes, traduções, livros. Logo comprei a revista e passei a folheá-la para procurar alguma referência ao meu site, uma recomendação, quem sabe uma crítica de uma ou duas frases. Nada. Talvez eles não usem a Internet ou o Google; ou talvez minha tradução seja mesmo muito "mundana". Já é ruim o suficiente ser em prosa e não verso como o original. Não ser tradução direta do original e nunca ter sido publicada em papel deve selar a sentença: não é boa o suficiente para uma revista tão séria. Ah, eu não gosto mesmo de textos sérios; são muito chatos. Mas eu não acredito que os autores que escreveram na Entre Livros sobre Dante não tenham pesquisado no meu site. Duvido que não tenham pelo menos passado por lá!

Mas por que será mesmo que eu estou escrevendo este post? Ora, porque eu me enganei! Um dos meus textos está lá nessa revista, publicado, impresso! Tudo bem, está em pedaços, misturado com outras palavras. Oh, até que meus textos não são tão ruins assim!

Hmmm, mas tem algo errado: o meu nome não é... Carlos. Nunca orientei alunos de mestrado e não me recordo de ter dado aulas de literatura na Unicamp. Também não me lembro de ter sido convidado pra escrever uma biografia sobre Dante. E se tivesse, jamais utilizaria este texto que escrevi há sete anos. De 2000 para cá eu aprendi a escrever bem melhor, mergulhei nos universos de inúmeros autores, filósofos, dramaturgos loucos e escritores malditos, viajei para dois outros continentes, descobri o teatro, já passei da "metade do caminho da nossa vida" e descobri meus próprios infernos e purgatórios. Sou outra pessoa. Não escrevo igual. Hoje tenho um distanciamento para escrever sobre Dante que eu não tinha na época. Se hoje eu fosse convidado para escrever uma biografia de Dante Alighieri, eu certamente escreveria um artigo muito melhor, mais bem humorado e bem mais interessante que esse.

Ah, mas não seria publicado. Seria insuficientemente sério. E eu com certeza arancaria fora do artigo a maior parte das datas e outros detalhes irrelevantes.

Não fui mesmo eu quem escreveu. O autor é outro. Tem as credenciais acadêmicas que eu não tenho. Ele é professor da Unicamp: Carlos Eduardo O. Berriel, PhD. Não, não é verdade que ele publicou meu artigo como sendo dele. Ele apenas utilizou quase 80% de minhas palavras e frases para compor 33% do artigo que leva a sua autoria na revista, que não faz nenhuma menção ao meu site. Ele “melhorou” o texto com datas, datas, detalhes, detalhes, palavras mais bonitas! Mudou também a ordem das frases (ah, mas acho que isto não funcionou direito, professor: o senhor acabou misturando dois conflitos e confundindo guelfos negros e brancos com guelfos e guibelinos!)

Eu tinha que me divertir um pouco com isto, mas agora chega de ironias. O post de hoje não é ficção. Eu sou (ou fui, sei lá) um tradutor de Dante, por mais que alguém questione o método, ou a qualidade do que escrevi. Não ter sido publicado em meio impresso é detalhe irrelevante. Eu também sou escritor e pesquisador. Para escrever os prefácios, as biografias, as notas, eu pesquisei em várias fontes (e as citei) e escrevi os textos com minhas próprias palavras, destacando as citações entre aspas ou em blocos anotados. O texto que foi copiado, foi publicado na Internet em 1999 e provavelmente visto mais vezes que o prefácio de uma tradução impressa (o site foi acessado centenas de milhares de vezes desde 2002). Para mim (e para a Lei de Direitos Autorais) copiar da Web é a mesma coisa que copiar de um texto impresso. Além disso, é muito feio copiar coisas dos outros e dizer que são suas (desde pequeno eu aprendi a não fazer isto). E é pecado também: garante um lugar no penúltimo círculo do inferno de Dante, bem perto do diabo.

Ainda não sei o que vou fazer sobre isto. Há sete anos eu pago para manter o site sobre a Divina Comédia no ar para as pessoas terem acesso aos meus textos de graça, e não gostei de ver coisas que eu escrevi publicadas numa revista impressa, paga, sem citar minha autoria. O mínimo que eu espero é que a revista Entre Livros corrija esse erro. E professor Carlos Berriel, independente da explicação que o senhor vai me dar (que o senhor se enganou, que foi outra pessoa que escreveu o texto), o senhor me deve - no mínimo - um pedido de desculpas público.

Eu transcrevi (sem autorização) o texto do professor Carlos Berriel publicado na Entre Livros, e o publiquei uma comparação com os dois textos lado a lado, para quem quiser avaliar as semelhanças. O que vocês acham? Será que eu estou exagerando?

Atualização

Segui as sugestões do Alex e enviei e-mail para a editoria da revista e para a reitoria da Unicamp (se um pesquisador doutor da Unicamp faz pesquisa com cut-and-paste, o que se pode esperar das teses de doutorado dos seus orientandos?). Um comentarista anônimo me sugeriu o Internet Archive, onde pude comprovar a existência do texto pelo menos desde 2004 (mudei de site 3 vezes desde 2000). Não tenho registro na Biblioteca Nacional para esse texto, mas eu enviei cópias impressas para acadêmicos, escritores, cineastas, jornalistas, desde 2000. Não consegui enviar email para o Carlos Berriel ou para qualquer pessoa do IEL (Instituto de Estudos da Linguagem) da Unicamp. O site parece estar fora do ar. Seguem os links.

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25.5.06

A montanha do Purgatório

Baixe aqui o e-bookComo fiz com o Inferno, agora estou disponibilizando para download minha adaptação do Purgatorio, - o segundo livro da Divina Comédia de Dante, em formato PDF. São 240 páginas e o arquivo é menor que o Inferno: 2Mb. Foi formatado para ser impresso em frente-e-verso (as notas ficam nas páginas pares e o texto flui nas páginas ímpares). É necessário ter o Adobe Acrobat Reader ou compatível para ler e imprimir o arquivo.

Dentre os mundos descritos na Divina Comédia, o Purgatório é a criação mais original de Dante. Os outros dois livros falam de reinos cuja existência é doutrina fundamental em diversas religiões. Já o purgatório é mais recente e tem origem nas doutrinas patrísticas consolidadas por teólogos como Santo Agostinho e Tomás de Aquino. O purgatório de Dante é uma montanha que fica "do outro lado do mundo" em oposição a Jerusalém, e é um lugar de sofrimento também, como o inferno, mas é um sofrimento que tem fim. Como o inferno, também é dividido em círculos e habitado por personalidades mitológicas e históricas. Em alguns círculos o sofrimento é tão terrível quanto no inferno.

Dos três livros, é o meu favorito. Não há grandes momentos dramáticos nem personalidades de grande destaque como no Inferno, tem um ou outro discurso mais longo, mas a história vai ficando mais interessante à medida em que se sobe a montanha, e os cantos finais recompensam todo o esforço da subida. No final, Dante conta a história da igreja Católica como se estivesse presenciando o Apocalipse, usando símbolos e representações metafóricas que seriam escandalosas até mesmo nos dias de hoje.

Quem quiser ler o Purgatorio online ainda pode fazê-lo através do meu site sobre a Divina Comédia, que tem informações e recursos que não estão incluídos na versão em PDF.

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13.5.06

Que tal ir para o Inferno?

Baixe aqui o e-bookEu disponibilizei para download minha tradução do Inferno de Dante, em PDF, para impressão. São 250 páginas. O arquivo tem 4Mb. Fica melhor (e menor) se imprimir frente-e-verso. Você vai precisar do Adobe Acrobat Reader ou compatível para ler e imprimir o arquivo.

Em 1999 publiquei na Web uma tradução da Divina Comédia de Dante Alighieri que hoje está no site www.stelle.com.br e pode ser lida online. Se você tem vontade de ler a Divina Comédia e apreciar sua poesia, sua música, seus efeitos sonoros e suas narrativas dramáticas, leia em italiano. Nenhuma tradução preserva a simplicidade e a musicalidade dos versos de Dante. No mínimo, procure uma edição bilíngüe. Mas se quiser ler a história em português como se lê um romance, então leia uma versão em prosa como a minha.

Sempre recebo emails de leitores do meu site sobre a Divina Comédia, mas nunca tive o cuidado de comparar as estatísticas de acesso ao site. Surpreendi-me ao descobrir que ele tem dez vezes mais acessos diários que este blog, mesmo sendo um site estático que praticamente não mudo há quase seis anos. Tenho um monte de leitores que nunca vieram aqui.

Já me perguntaram e eu não sei responder porque decidi fazer essa tradução. Foi por acaso. Era o livro que eu estava lendo no momento que veio a vontade. Poderia ter sido outro. Qualquer outro. Poderia escrito algo original. Não sou cristão nem sou religioso e a Divina Comédia nem é meu clássico favorito, e nem mesmo o meu estilo favorito de obra clássica. Me interesso muito mais por obras como o Decamerão, de Boccacio e Histórias, de Heródoto. Eu nem gosto muito de chamar o que eu fiz de "tradução" pois o original é um poema e comecei adaptando do inglês e não do italiano, por diversão, sem pretensão alguma. Foi só mais uma das coisas que comecei. Eu sempre começo. Começo mil coisas e consigo terminar meia dúzia, às vezes nem isto, se é que eu termino alguma coisa. Acho que comecei porque queria entender, e continuei porque seria um desafio, porque iria ter um pretexto para estudar italiano, porque adoro história, porque gosto de estudar religiões, porque sinto prazer em pesquisar qualquer coisa, interpretar, traduzir, inventar, porque gosto de escrever, porque quero aprender a escrever melhor.

Decidi ler a Divina Comédia depois de ler os Lusíadas e ficar boiando nas referências que o autor fazia à obra de Dante. Na época eu estava terminando um mestrado e escrevendo uma série de livros de Web Design (nunca terminados) para usar como apostilas em treinamentos, e buscava um exemplo de site cujo conteúdo se lê em seqüência. Usei seis cantos do meu resumo do Inferno. Me perguntaram sobre os outros cantos, então aumentei o site. Procurei corrigir, melhorar, rescrever, fui me aprofundando, e acabei me envolvendo por dois anos com a obra de Dante. Depois me dispersei. Quando leio muito meus interesses se espalham. Me apaixonei pelos pecadores do Inferno. Foi Dante me me mostrou Epicuro. E assim como Virgílio guiou Dante, Aristóteles me levou a Peter Singer, por Santo Agostinho me aproximei de Voltaire e Nietszche e conheci Sade. Em pouco tempo eu estava em outro universo e não dava mais para suportar as sumas teológicas de Tomás de Aquino, nem mesmo quando ele fala em terça rima na esfera do Sol.

Então me perguntam quando eu vou terminar de traduzir a obra toda. A resposta é: eu não sei. Primeiro, eu considero que terminei duas obras (Inferno e Purgatório), e não dois terços. Nem todo mundo concorda. Pessoas que poderiam ter interesse em publicar meu livro não concordam. Isto só já seria um bom motivo para terminar o Paraíso. Não é minha prioridade no momento (mas passará a ser caso alguma editora com distribuição nacional tenha interesse em publicar a obra) Para continuar, teria me envolver com a Divina Comédia de novo. Talvez eu esteja mesmo condenado a não entrar no Paraíso. Para entrar vou precisar de um guia, mas Dante me deixou. Acho que não dá para entrar sem guia. Até o Alexandre Soares Silva precisou de um guia (um anjo ateu como guia não seria nada mal, só não sei se o Paraíso seria o de Dante.)

Mas já me desviei do assunto deste post. Escrevi-o para responder a segunda pergunta mais freqüente que recebo. Não é pergunta, é um pedido: "por favor me envie a obra toda para que eu possa ler offline." Eu tinha criado um serviço para enviar os cantos por e-mail, mas não é a mesma coisa. Então agora disponibilizo os livros em formato para impressão. Vou começar pelo Inferno. Semana que vem (se eu tiver tempo) eu faço o mesmo com o Purgatório, e assim terei duas perguntas a menos que não precisarei responder.

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19.10.04

"A Vila" de Philip K. Dick

"The time is out of joint - O cursed spite,
That ever I was born to set it right!"
William Shakespeare, Hamlet: 188-189, Scene V

Salvador Dalì: Persistência da MemóriaRagle Gumm vive com sua irmã, cunhado e sobrinho numa cidadezinha do interior dos Estados Unidos. O ano é 1959. Auge da guerra fria. O seu cunhado e sua irmã trabalham fora, e ele fica em casa o dia inteiro resolvendo quebra-cabeças de um concurso nacional de jornal. Ele vem ganhando um concurso atrás do outro há dois anos, e com os prêmios, contribui para a economia doméstica. Por causa do concurso, todos o reconhecem nas ruas. Veterano da segunda guerra mundial, ele vive uma vida tranqüila, apesar de ter alucinações ocasionais e ter se apaixonado pela esposa do vizinho. Mas um dia Ragle começa a entrar em crise existencial, a questionar o sentido da vida e outras coisas. Aprofunda-se em questões filosóficas. Procura significado nas alucinações. Começa a ficar paranóico e achar que o mundo inteiro está o observando. Um dia, depois de sintonizar um rádio feito pelo seu sobrinho e ouvir seu nome numa transmissão, conclui que está ficando louco. Decide então deixar o concurso de lado e fazer uma viagem para fora da cidade, quando descobre que não consegue, pois uma série de acontecimentos banais e aparentemente naturais (carros quebrados, rodoviária paralisada, fiscalização nas estradas) impedem que ele saia. As pessoas e as coisas não parecem mais reais. Os eventos parecem automáticos, mecânicos. Parece que todo o mundo gira em torno dele.

Philip K. Dick
Philip K. Dick
Assim começa Time Out of Joint, livro escrito em 1959 pelo escritor americano Philip K. Dick. Falecido em 1982, Dick foi autor de contos e livros de ficção científica que inspiraram filmes como Blade Runner (1982), O Vingador do Futuro (1990), Minority Report (2002), Impostor (2002), O Pagamento (2003). É impossível ler o livro e não perceber semelhanças com dois filmes recentes: A Vila (2004), de M. Night Shyamalan, e principalmente, O Show de Truman (1998) de Peter Weir. Em todas as histórias há dois mundos e uma redescoberta do conceito de realidade quando o segundo mundo é revelado. Neste aspecto, todas as histórias assemelham-se também aos filmes Matrix (1999), 13o. andar (1999) e ao mito da caverna contado por Platão em A República.

À medida em que alimenta sua paranóia, Ragle questiona por que nunca teve vontade de deixar a cidade. Pistas como revistas encontradas numa ruína, que falavam de pessoas famosas que ele nunca ouvira falar, ou uma lista telefônica de telefones inexistentes reforçam sua tese conspiratória. Depois de uma tentativa frustrada de deixar a cidade, teve a certeza de que estavam observando sua vida. Havia sempre um veículo suspeito perto de sua casa e nos locais para onde ia. Finalmente, com a ajuda do cunhado, tramou uma fuga roubando um dos caminhões que o vigiavam e seqüestrando o motorista. Com isto, conseguiu escapar, passando pelas barreiras policiais, para descobrir que o mundo real era outro. O tempo era outro. Era 1998. A sua história de veterano de guerra era falsa. Tudo era falso. Sua realidade era falsa.

Gradualmente, sua memória foi retornando. Ele era Ragle Gumm, milionário, estilista, exímio decifrador de enigmas. O mundo estava em guerra. Mísseis eram enviados diariamente para bombardeá-los, mas um sistema de anti-mísseis sempre adivinhava onde o míssil ia cair. Era ele quem salvava o mundo. Todos os dias, quando Ragle acertava o concurso do jornal, ele estava na verdade adivinhando onde o míssil ia cair, sem o stress de imaginar quantas vidas seriam perdidas se errasse.

A história é muito interessante. Daria uma boa adaptação. Eu, pessoalmente, não gostei do final do livro nem de vários trechos desnecessários, mas isto é típico dos livros de Philip K. Dick. Ele escrevia muito e não passava muito tempo revisando pois tinha que sobreviver escrevendo (e os editores de ficção científica nunca tiveram muita preocupação com essas questões). O ruim de livros de ficção científica antigos são detalhes que ficam obsoletos (o livro foi escrito em 1959, e imaginava um 1998 com colônias na Lua e em Vênus). Mas a essência da história não depende desses detalhes. Vale a pena ler. O livro foi publicado em português, em 1985, com o título O Homem Mais Importante do Mundo, pela editora Livros do Brasil, de Portugal. Parece estar esgotado em português (o título é terrível, mas quem sabe a tradução não se salva?)

Time Out of Joint
Philip K. Dick
Vintage Books
US$ 10.40 na Amazon.com



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19.9.04

Confissões de uma Máscara - Yukio Mishima

Eu acabei de ler Confissões de uma Máscara, romance auto-biográfico de Yukio Mishima, polêmico escritor japonês autor de dezenas de romances, poesias, peças e ensaios políticos e filosóficos.

Yukio MishimaYukio Mishima nasceu em Tóquio em 1925, filho de um oficial do governo. Seu nome verdadeiro é Hiraoka Kimitake. Considerado o mais importante escritor japonês do século XX, Mishima escreveu dezenas de romances, poesias, peças e ensaios políticos e filosóficos. Foi indicado três vezes ao prêmio Nobel de Literatura. Entre suas obras primas estão O Templo do Pavilhão Dourado (1956) e O Mar da Fertilidade (1965). Explorou tanto temas da cultura oriental como ocidental como na peça Madame de Sade em que procura ver o Marques de Sade através de olhos femininos.

Sua primeira obra de destaque foi Confissões de uma Máscara (1949) que explora a descoberta de sua homossexualidade. Escrito na primeira pessoa, conta a história da infância, adolescência e juventude de Kochan - máscara do próprio Mishima. As datas, fatos históricos, e outros dados biográficos da personagem são os mesmos de Mishima. Com um estilo quase poético a história explora o universo de pensamentos, sentimentos e visões do mundo de um jovem que descobre sua homossexualidade, descrevendo seus conflitos internos, suas tentativas de adequação na sociedade e dificuldades de conciliar o amor com desejo sexual. O livro narra um período da vida do autor que começa no seu nascimento (ele diz lembrar-se do momento em que nasceu), passando pelo período da Segunda Guerra Mundial, as bombas atômicas, até o momento em que o livro foi escrito, em 1949.

Yukio Mishima era uma personagem controversa. Tinha um lado extremamente nacionalista e nutria grande interesse pelo Japão imperial e o passado dos guerreiros samurais (apesar de viver e usufruir dos benefícios do mundo ocidental). Em 1968 ele fundou um exército privado de extrema direita com ideais fascistas: o Tatenokai (Sociedade do Escudo) com aproximadamente 100 jovens, que tinha como objetivo ressuscitar o Bushido - código de honra samurai - e proteger o imperador. No dia 25 de novembro de 1970, ele entregou aos seus editores as páginas finais de sua obra-prima O Mar da Fertilidade, uma tetralogia iniciada em 1965. Depois, invadiu com o seu exército o quartel general em Tóquio onde fez um discurso tentando convencer os militares a aderirem à sua causa. Sua tentativa de golpe fracassou. Terminado o seu discurso e vendo-se ignorado pelos militares, Mishima cometeu seppuku (suicídio ritualístico), rasgando seu ventre com sua espada diante de seus soldados.

Um filme sobre a sua vida foi produzido em 1985 por Paul Schrader, com Ken Ogata como Yukio Mishima e trilha sonora de Philip Glass.


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18.9.04

São Sebastião, por Yukio Mishima

Trecho do poema em prosa escrito por Yukio Mishima, do livro Confissões de uma Máscara, inspirado em uma reprodução do quadro São Sebastião, de Guido Reni (séc XVII), do Museo Palazzo Rosso de Gênova (reproduzido abaixo). Tradução de Jacqueline Nabeta.

Santo Sebastiano, Guido Reni, Museo Palazzo Rosso, Genoa
"(...) Contam os anais do martírio que, nos anos seguintes à posse de Diocleciano, quando ele sonhava com o poder sem limites, desobstruído como o vôo de um pássaro por céu aberto, um jovem capitão da Guarda Pretoriana foi acusado e preso por ter adorado um deus proibido. Seu corpo maleável lembrava o de um famoso escravo do Oriente por quem o imperador Adriano se apaixonara, e seu olhar era tal qual o de um conspirador, despido de emoções feito o mar. Era de uma arrogância encantadora. Levava no elmo um lírio branco, oferecido todas as manhãs pelas donzelas da cidade. Enquanto descansava de intensos treinamentos, a flor acompanhava as curvas de seus cabelos viris, e a forma graciosa como pendia lembrava a nuca de um cisne.
     Não havia uma só pessoa que soubesse seu local de nascimento, de onde viera. Mas todos pressentiam algo. Que aquele jovem com um físico de escravo e feições de príncipe estava ali de passagem. Que aquele Endimião era um pastor de ovelhas. Que ele, mais do que ninguém, fora escolhido como guardador de rebanhos do mais verde dos pastos, de que não havia igual.
     Por outro lado, algumas donzelas acalentavam a certeza de que ele viera do mar. Porque de seu peito podia-se ouvir o bramido das ondas. Porque em seus olhos pairava o horizonte misterioso e inextinguível que o oceano deixa como lembrança no fundo das pupilas daqueles que nasceram na costa e de lá precisaram partir. Porque seu hálito era quente como a brisa do mar no auge do verão, e exalava o odor das algas lançadas à praia.
     A beleza que exibia Sebastião, o jovem capitão da Guarda Pretoriana, não estaria destinada à morte? E as robustas mulheres de Roma, com seus cinco sentidos aguçados pelo sabor da boa bebida, de estremecer os ossos, e pelo gosto da carne gotejante de sangue, não teriam elas logo percebido seu malfadado destino, que ele próprio ignorava, não o teriam amado por causa disso? O sangue corria no interior daquele corpo alvo com fúria e velocidade ainda maiores, espreitando a fenda por onde jorraria tão logo dilacerada a carne. Como poderiam as mulheres deixar de ouvir desejos tão intensos de um tal sangue?
     Não se tratava de uma vida frágil. Não era, de modo algum, um destino lastimável. Era, antes, insolente e trágico. A ponto de se poder chamá-lo resplandescente.
     É provável que, mesmo em meio a doces beijos, a agonia da morte em vida se tenha prenunciado no franzir das sobrancelhas. (...)"*


* Yukio Mishima, Confissões de uma Máscara, Tradução de Jacqueline Nabeta, Companhia das Letras, São Paulo, 2004.

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