21.3.08

Al Magestum


Sandro Botticelli: La Nascita di Venere (Galeria Uffizi, Florença)

Mustapha tinha uma coleção de estrelas. Não eram estrelas fixas como nos mapas do Al Magestum. Suas estrelas se espalhavam no tempo e no espaço e por todas ele era apaixonado. Mustapha sonhava com as estrelas com as quais elaborava constelações originais, únicas e inesquecíveis.

Nas suas relações mais intensas descobria territórios, planetas e luas. Mergulhava em oceanos alienígenas e ardia nos fogos siderais. Misturava-se com nebulosas vizinhas, acompanhava suas órbitas, conhecia suas galáxias e assistia ao nascimento de supernovas. Mustapha amava seus mundos e os explorava como um aventureiro. Fazia mapas, dava nomes aos astros e ligava os pontinhos. Universos nasciam em explosões apaixonadas e expandiam-se pelo espaço e pelo tempo. As forças gravitacionais cresciam, mas sempre havia um dia em que as órbitas se separavam. Mustapha era vulnerável a correntezas.

- As estrelas se movem.
- Mas todos os dias elas estão lá, certinhas.
- É ilusão. As constelações se desfazem. Quando o tempo é curto parece que é tudo claro, certo, preciso, mas o mundo real é sempre mais misterioso.
- Então nosso universo vai se desfazer?
- Certamente vai mudar, talvez se desfazer. Isto não impede que seja eterno.
- Como não?
- A eternidade está no instante.

E as correntezas podiam tudo menos mover a eternidade do instante, que engolia tudo em redemoinhos. Mustapha aprendeu a fazer buracos negros, singularidades, curvar o espaço e parar o tempo. Fez ventos e tempestades, agitou os oceanos, multiplicou as correntezas.

Até que descobriu a arte: um universo de reflexos que imitam a vida. E houve um dia em que ao contemplar a imagem móvel das estrelas sobre os mares, Mustapha ofuscou-se com a luz de uma estrela refletida. Era ilusão. A luz nascia de um universo de estrelas fixas, imutáveis, mas deixava-se refletir nas ondas reais que moviam-se na correnteza onde eram contadas histórias inventadas. A ilusão era sedutora. Mustapha apaixonara-se por um reflexo.

Mas dizem que houve uma noite em que, como na célebre obra de arte, Zéfiro soprou do leste e Vênus nasceu do mar, e por instantes antes do amanhecer um novo universo surgiu no mundo real. Mustapha, vulnerável às correntezas do vento, deixou-se incendiar pela estrela da manhã e em pouco tempo estava criando novas constelações, explorando mundos, desenhando mapas, como se tudo fosse de verdade. Ao amanhecer ela sempre desaparecia e em certas noites era apenas um reflexo. Mas sempre voltava com as marés ou ventanias, e juntos criavam instantes eternos.

Ainda era uma estrela imaginária. Procurada nas marés do dia não refletia o mesmo olhar. Queria tocá-la mas não podia. Havia um conflito de mundos. Nas noites solitárias ele ansiava pela correnteza que a traria de volta. Ontem a maré subiu e desceu, o vento veio e partiu e ela não apareceu. Várias noites se passaram. Um dia Mustapha encontrou-a na água refletida como uma estrela do mar, e a convidou.

- A maré está enchendo; logo será noite; os ventos estão começando e não há nuvens.
- Eu não posso.
- Aumentarei o vento pela manhã.
- O mar é fundo.
- Farei ondas maiores, marés descomunais.
- O mar me prende.
- Aumentarei a correnteza. Cedo ou mais tarde terás que soltar.
- Eu sei, mas não devo soltar. Quando o instante é eterno parece que é tudo belo, simples, mágico. O mundo real é sempre mais complexo.
- O mar é vasto. O instante é tudo. Sei que queres deixar-te levar.
- Quero.
- Então eu espero anoitecer.

Ela não veio. Nasceu o Sol e nada de Vênus. Mustapha voltou-se para seus universos imaginários e sua coleção de estrelas variáveis que surgem nas correntezas. Mas sempre que acorda antes do Sol ele ainda espera que ela apareça entre as nuvens.

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5.10.07

Anna Abda

“Ha ocurrido una cosa que es increíble...”
J.L. Borges, “Emma Zunz”

Louise Burghes Azevedo faleceu no dia 14 de junho de 2006, aos 86 anos. Ela era viúva. Seu marido, um arquiteto, era falecido há mais de quarenta anos. Acredita-se que ela tinha dois filhos homens, que moravam fora do país, e que sua mudança para o apartamento da rua Baronesa de Itu ocorrera após a morte repentina de um deles. Louise era uma velhinha simpática. Sorria, fazendo sumir seus olhos azuis na sua pele clara e enrugada, mas não falava muito. Morava sozinha com um mordomo e uma enfermeira que às vezes eram vistos levando-a para caminhar pelos jardins do condomínio. Nos últimos anos ela era vista sempre numa cadeira de rodas, usando chapéu e óculos escuros. Praticamente não falava. Recebia visitas ocasionalmente, mas ninguém sabia muito sobre ela. Não sabiam, por exemplo, que Louise Burghes não era seu verdadeiro nome.

A coleção completa das obras de Jorge Luis Borges que encontrei no sebo do Brandão era assinada por Anna Loewenthal, Buenos Aires, 15 de janeiro de 1962. Era uma coleção atraente. Os volumes tinham capa verde, detalhes dourados e letras grandes. Eu certamente a teria comprado se não fosse o detalhe de que um dos volumes estava com várias páginas faltando. Faltava uma história inteira.

Saiu no jornal O Correio do Povo, de Porto Alegre, em 15 de maio de 1963 a notícia de que “foram encontrados mortos a tiros em sua propriedade rural no município de Bagé, o casal de aposentados Dora Martinez e Zacarias Herrera. O crime teria acontecido por volta das onze e meia da noite de ontem mas o casal só foi encontrado hoje pela manhã, pelo caseiro que chamou a polícia. Até o momento não há pistas dos assassinos.”

Em 11 de novembro de 1918 Hannah Abda conheceu Samuel Loewenberg, apaixonou-se por ele e tornou-se sua amante. Loewenberg era um homem rico, sério e discreto, e era casado. Sua esposa, Rachel, era uma distinta senhora da família Gauss. Eles nunca tiveram filhos. Quando Hannah ficou grávida, seis meses depois, Samuel passou a sustentá-la secretamente com uma pensão mensal. Pouco depois do nascimento de Anna, Rachel morreu de causas desconhecidas e Samuel tornou-se recluso, distante e religioso. Mesmo assim, não cortou a pensão que pagava a Hannah e comunicava-se com ela ocasionalmente por carta. Mas no ano seguinte Samuel foi assassinado, a pensão cessou e Hannah afundou na miséria.

Eurico me ligou no fim da tarde para dizer que havia encontrado as páginas que faltavam da coleção de Borges. Ele as encontrou dentro de um dos diários de Louise Burghes. Voltei do sebo com a coleção, os diários e as páginas soltas de Emma Zunz. Os diários, escritos em espanhol, não traziam nada de muito interessante. Falavam de coisas banais, da falta de dinheiro, das visitas inoportunas. Quase sempre reclamava da vida, uma vida sem graça, onde pequenos problemas eram ampliados para dar sentido às coisas. Em outras páginas havia contas, números de telefone, endereços, notas curtas, rabiscos. Meu interesse maior era pelo que estava solto dentro dos diários: fotos antigas, recortes de jornais e cartas incompletas.

Anna tinha quase dois anos quando seu pai, Samuel Loewenberg, sócio-proprietário da fábrica de tecidos Schreiber & Loewenberg, foi assassinado. Ele foi morto com três tiros no peito, numa noite de sábado, 14 de janeiro de 1922 por uma ex-funcionária que o surpreendeu no escritório. Alegando legítima defesa por ter sido vítima de assédio sexual, Manuela Mayer confessou o crime e submeteu-se a exame de corpo de delito comprovando o ato. Julgada e inocentada, desapareceu dois anos depois e nunca mais foi vista. Dizem que ela casou-se com um marinheiro sueco e mudou-se para o Brasil.

No jornal Diário de Notícias, também de Porto Alegre, a notícia de 27 de maio de 1963 informando que “o exame dos cadáveres do duplo assassinato da semana passada em Bagé revelou um detalhe macabro: uma assinatura, feita com um objeto cortante, no pulso de ambas as vítimas. O criminoso assinou sua obra com o nome de uma mulher: Anna Loewenthal.”

No dia 29 de novembro de 1947, Hannah Abda morreu de tuberculose em um hospital da periferia de Buenos Aires. Em 14 de maio de 1948, sua filha Anna casou-se com o arquiteto George Burghes, assumindo o nome de Louise. No dia seguinte George e Louise Burghes mudaram-se para Londres.

O último recorte datado de 25 de agosto de 1963, é do Jornal do Comércio de Bagé, e noticia que “a polícia de Bagé recebeu ontem uma carta anônima, assinada pela misteriosa Anna Loewenthal, acusando suas vítimas de serem assassinos. De acordo com a carta, Dora Martinez é na verdade Manuela Mayer, acusada de matar, em janeiro de 1922, o empresário argentino Samuel Loewenberg, em Buenos Aires. A carta é longa e revela em riqueza de detalhes as estratégias que teriam sido usadas pela vítima para realizar o crime perfeito e escapar como inocente. Especialistas acreditam que as informações da carta são falsas e foram inventadas pelo assassino, certamente um psicopata, e descartam a possibilidade de que se trate de uma mulher.”

Nas folhas arrancadas de Emma Zunz, que estavam soltas dentro do diário de Louise Burghes, os nomes das personagens estavam sublinhados, e havia uma nota no final, assinada por Anna Loewenthal em Buenos Aires, 31/01/63 (um dia após a morte do seu marido), que dizia: “George partiu então Louise não mais existe. Mas hoje ocorreu uma coisa que é incrível. Descobri Anna, filha de Hannah e Aaron Loewenthal. Ela está de volta para vingar o assassinato do pai e a infelicidade de sua mãe. A partir de hoje Anna Loewenthal é a Morte, e ela chegou para buscar Emma Zunz, onde quer que ela se encontre.”

Até onde pude verificar, foi tudo verdadeiro. Só eram falsas as circunstâncias, a hora, e um ou dois dos nomes próprios.


Clube de Leituras sobre Borges

Este conto foi inspirado pelo Clube de Leituras sobre Jorge Luis Borges organizado por Idelber Avelar, através do seu blog O Biscoito Fino e a Massa. Idelber convida todos a participarem das discussões através da caixa de comentários do seu blog ou escrevendo sobre os contos estudados. O Clube continua e haverá estudo de vários outros contos de Borges. Emma Zunz foi o conto de quarta-feira passada. Eu não consegui escrever sobre o conto, então escrevi uma resposta a Borges. O último parágrafo pertence a ele.

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23.7.07

Vôo 3721



O terminal não está emitindo o seu bilhete eletrônico? O senhor terá que enfrentar aquela fila. Mas meu vôo vai sair em 45 minutos! Para onde o senhor vai viajar? São Paulo, 18 horas? 3721? Este vôo foi cancelado. Dirija-se àquela outra fila, onde tentaremos acomodá-lo em outro vôo. Aquela fila imensa ali? Não, aquela não. A outra, depois dela. Ah, ok.

Aqui está seu bilhete. Vôo 3715, 19h30. Embarque às 18h50 no portão seis. Tenha uma boa viagem. Obrigado.

Aqui também? Por que esta fila? É porque agora é preciso mostrar a identidade ao entrar na área de embarque. Ah, entendi. Depois tem mais outra fila, para o detector de metais. Laptop? Sim. É preciso tira-lo da mochila. Ok. Por favor, tire também da capa protetora. Acendeu a luz. Moedas, chaves? Não? Tire o cinto, por favor. Ok. Por favor, senhor, poderia arrumar sua mochila em outro lugar para dar espaço para as bagagens dos outros passageiros? Sim, claro, estou apenas colocando o notebook de volta.

Portão seis? Não é este o vôo. A companhia é outra. Deve estar no painel. Ah, achei. É quatro. O portão agora é o quatro e o vôo não sai mais às 19h30 como foi informado no balcão. Está previsto para as 20h15.

Vôo 3715 para São Paulo, informamos aos senhores passageiros que sua aeronave tem seu pouso previsto para as 20 horas, e seu embarque, quando autorizado, será realizado através do portão onze. Ela falou mesmo o vôo 3715? O portão onze fica do outro lado do aeroporto. No bilhete está escrito seis, mas no painel continua quatro. E agora?

Embarque portões nove a onze. Sim, é preciso mostrar a identidade novamente, Sim, é preciso tirar o laptop novamente. Pode passar outra vez, senhor? Moedas, chaves, celular? O cinto. Ah, esqueci. O cinto!

Painel do portão onze. São Luís, Manaus. Não é o meu vôo. Provavelmente ainda não foi atualizado. Mas já são 20h15.

Parece que estão anunciando. O avião já se encontra em solo, mas devido ao reposicionamento das aeronaves agora seu embarque foi alterado para o portão C. No bilhete o portão é quatro, no painel foi seis, mudou e continua onze. Já são 20h30, mas no painel o vôo vai partir às 20h15.

O embarque é imediato. É um ônibus, normal, de quatro rodas. O ônibus não é tão confortável quanto o terminal, principalmente por não ter assentos na porta. Ele está lotado e é muito quente. Fica parado, com o motor ligado, soltando fumaça que os passageiros quietos inalam. O tempo passa devagar. Mais de quinze minutos. Talvez meia hora. Chegam os dois últimos passageiros engravatados e apressados, e ele parte.

Dois ônibus lotados esperam ao lado de um Airbus A320. Três pessoas uniformizadas esperam diante de uma escada e ao lado de um tapete vermelho. As portas do ônibus estão fechadas, o motor continua ligado, e passageiros suados e pacientes observam as pessoas uniformizadas, a nave e o tapete vermelho pelas janelas. Cinco, dez, talvez quinze minutos.

Outra fila. Ah, mas esta não preciso enfrentar. 22E fica nos fundos. Na porta traseira a fila é menor. A bagagem não cabe. O compartimento está cheio. Vou ter que colocar debaixo do assento. É ruim para esticar as pernas. Com licença, eu estou no 22F. Claro! Um momento que eu vou sair. Acho melhor tirar a minha mochila senão você não vai conseguir entrar. Desculpe. Com licença. Obrigado.

Todos sentados. Estamos esperando alguma coisa. Mais meia hora. Onde guardei o iPod? Devo ter despachado. Todos já embarcaram? Parece que sim. Bala de chocolate? Não obrigado. Pensando bem, eu quero.

Não ouvi. O que ele falou? Ah. Esperando o seqüenciamento das aeronaves. Quanto tempo dura isto?

Portas em automático. Neste momento é preciso desligar os telefones celulares. Já está desligado. Poltronas na posição vertical. Ela mal reclina.

E a nave se move, lentamente, até mais uma fila. Que sono. Não posso reclinar o banco ainda. Atenção tripulação. A nave acelera, decola. Agora posso reclinar a poltrona, pouco, um giro de cinco graus.

Perdi o lanche. Dormi. Sim. Eu ainda quero. Claro. Faz horas que não como nada. Sanduíche frio, úmido, pesado, que gruda no céu da boca. Cem mililitros de suco, 30% de gelo.

Não ouvi. O que ele falou? Ele está falando inglês? Não dá para entender nada. Parece que chegaremos às onze horas e trinta minutos. Que ótimo. Cinco horas e meia de viagem.

Vou saber de cor o mapa de Ribeirão Preto. Já vamos iniciar a sétima volta. Ou será a décima? Não sei. Já perdi a conta. Consigo identificar o estádio, avenidas, praças. Quase uma hora dando voltas como um urubu. É culpa do tal seqüenciamento. Tem uma fila para pousar em Congonhas.

Senhores passageiros, aqui quem fala é o comandante, obrigado pela paciência. O que mais ele falou? Não ouvi. O som é ruim. Por que as pessoas estão reclamando? Ele disse que Congonhas fechou e que teremos que pousar em Guarulhos. Ah, que ótimo. Que horas? Não sei.

Meia hora. Esteira D. Por que as malas não chegam? Quase uma da madrugada. As malas não chegam. A esteira é essa mesmo? As malas não chegam. Eu quero dormir. Ah, as malas.

Não senhor, o ônibus não pode parar no meio do caminho. Nós somos uma empresa terceirizada. O contrato é para levar os passageiros até Congonhas. O senhor pode falar com o motorista, se o senhor estiver sem bagagem ele talvez possa parar.

Não. Não vai dar. Vou pela Vinte e Três de Maio. Não dá para parar. Não posso assumir o risco, você me entende? Claro.

Congonhas, São Paulo. 15 graus, 1h55. Aeroporto fechado. Brasília a São Paulo, 8 horas. Cai uma chuva fina e constante. As pessoas esperam na fila do táxi. Esqueceram de colocar o tapete vermelho.

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12.7.07

É muito sério


Imagem: agência O Globo.

O técnico da seleção brasileira de arremesso de havaianas e seus doze atletas desembarcaram às 18 horas e dez minutos no aeroporto de Reykjavik, na Islândia. Eles foram selecionados para representar o Brasil no Campeonato Internacional de Arremesso de Calçados que aconteceria por lá. Era março e estava muito frio. A média estava em torno de seis graus negativos. Mas para os atletas estava mais frio ainda, pois era verão no Brasil.

O técnico e seis atletas chegaram primeiro no hotel, e dirigiram-se a uma sala aquecida onde fariam uma reunião e dariam entrevistas antes de descansar. Enquanto esperavam os outros, ficaram conversando e fazendo piadas sobre o frio.

– Nossa, isto aqui está uma Sibéria – comentou o técnico.

Todos riram. Os outros chegariam em breve, e o técnico, para saudá-los de forma bem-humorada, escreveu no quadro branco que havia na sala, “Bem vindos à Sibéria”.

Foi um escândalo. Jornalistas entraram na sala e viram o quadro. Tiraram fotos. Muitas pessoas apareceram e houve um tumulto na entrada. A entrevista acabou ficando para o dia seguinte. Mas, na manhã do dia seguinte jornais de todo o país estampavam na primeira página uma foto do quadro e do técnico. Políticos e autoridades locais se manifestaram contra a atitude do técnico:

– "É uma afronta. Um absurdo! Mas como ousam comparar-nos àqueles bárbaros siberianos? Nós somos sérios. Isto é um país sério." – Hagar Terribilis, juiz aposentado.

– Quem eles pensam que são? Só porque são campeões mundiais em arremesso de sapatos acham que são melhores? É isto? – Hans Ikikurrah, engenheiro.

Não adiantou o técnico explicar que era apenas uma brincadeira. Mas ele percebeu que havia cometido uma gafe diplomática. Pediu desculpas aos islandeses e se defendeu dizendo que não teve a intenção de ofendê-los. Era uma piada por causa do frio intenso que fazia lá fora.

– Ora, que desculpa esfarrapada! – comentou uma mulher – Frio? Que frio? Seis graus abaixo de zero? Faça me o favor! Ele escreveu isto dentro do hotel que é climatizado! Agora ele está atrás de uma desculpa para se safar!

O prefeito percebeu a gravidade da situação e fez uma declaração pública à imprensa:

– Foi uma declaração infeliz. Qualquer um sabe que somos muito diferentes da Sibéria. Nada contra a Sibéria, claro, um país bonito, de um povo honrado, nômade, descendentes dos grandes mongóis, mas a comparação foi irresponsável e revelou algum preconceito. Senso de humor é bom, mas tem limites.

O técnico ainda tentou defender-se através da mídia:

- Preconceito? Onde? Contra os imigrantes orientais? Eu juro que não fiz comparação alguma. Era uma piada, já disse. Mas, e se fosse uma comparação? Eu não sabia que era uma ofensa fazer comparações assim. Aqui também não há planícies e lagos frios como na Sibéria? E eu gosto daqui! Não ligo para o frio. Eu sempre quis conhecer a Islândia.

Temendo que o episódio causasse um desgaste nas relações entre os dois países, a CBAC – Confederação Brasileira de Arremesso de Calçados achou melhor afastar o técnico e enviar um substituto. O prefeito da cidade aplaudiu a decisão, e autoridades de ambos os países trocaram elogios. Tudo voltou ao normal e o evento foi um grande sucesso.

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8.7.07

Gôndolas



Sonhei outra vez com Mustaphá Smith numa tarde quente do dia sete de sete de dois mil e sete. Estávamos em uma minúscula gôndola verde, ele de um lado e eu do outro. Ninguém remava. A gôndola era levada pela correnteza. Mustaphá tinha três dentes, barba grisalha e olhos grandes. Desta vez ele não estava de turbante. Usava um quepe de oficial russo e vestia-se em pele de urso como um guerreiro esquimó. Sorrindo, cantava cantos armênios, mongóis, americanos e russos, misturando Karabushka com When The Saints Go Marching In e batendo os pés no barco com força ao ritmo do seu canto. Vez ou outra parava de cantar, olhava para mim e fazia sons de chuva com seus lábios secos. Às vezes parava bruscamente e gritava meia dúzia de frases incompreensíveis, ria alto e voltava a cantar. Como sempre, mesmo quando me olhava, agia como se me ignorasse, como se eu não existisse.

Eu tinha um sombreiro imenso sobre a minha cabeça, que impedia que eu olhasse para cima. Não havia muito para ver. Era só céu e mar. Nenhuma nuvem. Acima deveria estar o Sol. Na minha frente apenas Mustaphá, a gôndola e o mar.

Mas a gôndola parou no centro do oceano, no ponto mais distante de todas as costas, e quando isto aconteceu, ela tornou-se o mar. Não havia mais gôndola e nem Mustaphá, apenas um sombreiro colorido flutuando no meio do mar, que na verdade eu só percebi ao olhar para o alto e não achar o Sol, mas uma sombra circular num mar azul brilhante. O riso histérico de Mustaphá ecoava nas bolhas que subiam da minha garganta que se enchia de água salgada.

Acordei às sete horas e já era noite. Levantei-me e fui até a porta mas não consegui abri-la pois estava trancada. Abri a janela e procurei pela paisagem da cidade, mas ela não se movia e parecia pintada. Ainda sonhava. Precisava acordar. Corri, pulei e joguei-me contra a parede. Fiz cálculos complexos de cabeça. Eu tentava voar quando ouvi um riso vindo da sala. A porta do quarto estava entreaberta e eu saí. Na sala havia uma mesa, coberta por uma toalha branca e um castiçal de quatro velas ao centro. A toalha branca e tinha desenhos azuis de carneirinhos e umas vinte e poucas taças de tamanhos diferentes contendo líquidos coloridos. Havia alguém sentado do outro lado. As velas não deixavam ver o rosto, apenas as mãos escuras e ressecadas que desenhavam com um lápis de cera vermelho na toalha da mesa. Desenhava o que parecia um lobo.

Sentei-me do lado oposto da mesa, e ele não falou nada. Apenas ria baixinho, como se estivesse tendo uma crise e não conseguisse parar de rir. Bebi um pouco da taça roxa (parecia uva mas na verdade era tamarindo.) Mustaphá (sim, devia ser ele mas nunca tive certeza) começou a rir bem alto, e os carneirinhos começaram a correr. Eles berravam, corriam e a mesa tremia. O lobo devorava um a um com violência, derrubando as taças e manchando a toalha de sangue que escorria para o chão. Em poucos minutos a sala inteira estava submersa em sangue. Agarrei-me à mesa para não me afogar, mas a toalha cedeu. Sobre a mesa quatro anões de sombreiro cantavam músicas mexicanas e quando eu puxei a toalha, os quatro caíram e se afogaram (ou morreram eletrocutados por seus microfones, pois houve um curto-circuito.) Permaneceram os quatro sombreiros flutuando sobre o sangue. Eu fiquei observando e senti os pingos. Era a chuva. Começou a chover forte. Em poucos minutos ela havia levado embora todo o sangue e a sala estava limpa.

No centro do mar, agora, há uma gôndola. Dentro dela dorme uma mulher nua, de lado, abraçada a um travesseiro em posição fetal, protegida do frio por uma pele de urso. Ela tem pele clara, cabelos negros, lisos e traços orientais. Ela sonha. Ao lado da gôndola há um sombreiro colorido flutuando sobre a água. Está claro mas o dia ainda vai nascer. Sentado na mesa da sala eu observo a paisagem da cidade. O castiçal tem apenas duas velas, e elas estão apagadas. Tento fazer sons de chuva com meus lábios enquanto imagino carneiros roxos no vinho derramado sobre a toalha da mesa.

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30.5.07

Fantasmas



Originalmente em inglês: www.helderdarocha.com.br/bloggy.

Sábado. Nove horas da noite. Uma sala escura. Um sofá. Uma mesa. Uma porta. Um pouco de luz vaza por baixo da porta (se não fosse isto não veríamos nada). Tudo está em silêncio.

Mas agora parece que alguém tenta abrir a porta pelo lado de fora. Ouvimos a chave girar uma vez, duas vezes. Afastamos o olhar quando a porta é aberta por causa da luz, que é muito intensa. O ar parece incendiar-se.

Tudo está muito branco e claro demais. Estamos cegos. Mas, depois de um tempo, a claridade gradualmente se dissipa e mais uma vez percebemos a sala. Não há ninguém. A sala está escura, como sempre esteve. Seja quem foi que a atravessou não se importou em acender as luzes. Ele, ou ela, deixou algo sobre a mesa (uma mochila, me parece) e correu para dentro. Percebe-se uma luz fraca em outra parte da casa. Podem-se ver os reflexos nas paredes e móveis, pelo corredor. Ouvimos o som de água derramando. Alguém fazendo xixi. Som de descarga, de porta fechando, de luz sendo desligada. Ninguém retorna à sala. Tudo está escuro novamente. Ouvimos o som de um violino, mas está distante.

A mesa de madeira escura tem em volta quadro cadeiras vazias da mesma madeira escura. Há livros espalhados sobre a mesa, folhas de papel, café derramado. Não dá para perceber os detalhes. O lugar está muito escuro. Tem cheiro de café. Há o retrato de uma mulher na parede. Ela olha para o alto, mas não sorri.

Não há alma viva na sala. Alguns podem acreditar que há duas pessoas sentadas, mas isto não é verdade. Não há ninguém na sala. Alguém pode acreditar que essas duas pessoas sentadas estão conversando, mas é provável que seja apenas imaginação.

- Está vendo?
- Eu não vejo nada. Está muito escuro.
- Tem cheiro de madeira. Faz muito tempo que eu senti cheiro de qualquer coisa. Esqueci que podia cheirar.
- Não sinto cheiro de nada.
- Quando atravessamos aquela rua, naquela tarde, os carros frearam muito perto, quase me tocaram. Eu lembro do cheiro dos pneus. Eu pude sentir o ar que foi deslocado. Você não parou, nem voltou. Correu na direção deles.
- Quando foi isso? Eu lembro disso.
- Estava frio, não estava? Você sentiu a pulsação? Teve a sensação de que estava caindo?
- Eu, eu ainda não entendo isso.
- Você ainda é muito jovem.

O violino agora soa mais alto. Em algum lugar, uma porta foi aberta. Ouvimos passos e alguma luz se espalha pelo corredor, refletindo nas paredes. Alguém tosse. “Merda!” diz uma voz de homem. Uma superfície é arranhada. Alguém espirra, inspira ruidosamente e espirra de novo. Luzes são apagadas com um clique. Mais passos. Uma porta fecha com força. Volta a escuridão e o violino distante.

Mas o som logo pára. Depois de alguns cliques, o silêncio é substituído pelos acordes altos de uma guitarra, ritmos de bateria, vozes gritando. Parece uma banda dos anos setenta. Parece que há vozes falando ao contrário. Parece.

- Baixa isso. Eu não gosto.
- Simplesmente não ouça, e pronto. Não precisa. Ouça os cabos.
- Os cabos?
- Sim. Eles são bons para sentir também. Vibram. E são quentes.
- Eu não sei sentir.

O telefone começa a tocar. Depois de cada toque, o eco some no silêncio. Toca três vezes. Quando termina, a música está mais baixa e podemos ouvir a voz de um homem que vem do quarto. Eu saberia o que ele diz se as outras vozes na minha cabeça ficassem em silêncio, mas elas não calam.

- Lembra de quando a gente brincava?
- O que?
- Quero dizer, eu costumava subir na cerejeira do nosso quintal e me esconder de tal maneira que mamãe não me acharia mesmo se olhasse na minha direção.
- Não sei do que estás falando.
- Era sábado, eu acho. Não sei o que fiz de errado. Eu escorreguei, eu acho. Ainda lembro do filme na minha mente, como se fosse agora. O chão lentamente se aproximando, a grama escurecendo, o vento, a luz do sol. Lembro que senti os galhos rasgando minha pele do braço, as folhas no meu rosto. De repente ficou escuro e frio.
- Do que estás falando?
- É quente e molhado quando você toca, mas parece frio quando escorre sobre a pele, pulsando. Agora eu consigo sentir tudo, a grama, as folhas da cerejeira, o cheiro de chuva, o cheiro dos insetos. Mas no dia não senti como se estivesse caindo. Parecia que flutuava. Ainda não lembro do meu nome, mas você sabia.
- Eu?
- Sim. Você chegou lá antes de mim. Foi você quem a chamou, e ela estava tão triste. Eu tinha conseguido. Eu contei para ela antes da gente sair que eu conseguiria. Eu contei para ela mas ela não levou a sério. Achou que eu estava brincando.

A música foi interrompida com um clique ruidoso. A voz do homem no quarto ficou mais alta. Podemos distinguir palavras “… indo agora … não importa... vejo você já.” e um clique.

- Não tenho certeza se eu entendo.
- Você vai entender depois que eu for embora. Leva um tempo.
- Vais me deixar? Por que?
- Eu tenho que deixar você.
- Para onde vais?
- Não vou muito longe. A gente vai se encontrar. Algum dia.
- Quando?
- Não sei.
- Vamos nos lembrar um do outro?
- Mais ou menos. Talvez. Talvez não. Talvez a gente sinta que se conhece, de algum lugar.
- Não vamos nos reconhecer?
- Talvez nos sonhos, talvez, nos sonhos.

Tosse.

- Ele está doente?
- Está de mudança. Eu já lhe disse isto.
- Para onde.
- Para cá.
- Mas ele já não está aqui?
- Não. Ainda não.

Uma luz intensa e ofuscante toma conta da sala. Na cegueira branca ouvimos passos, a porta fechando, a chave girando. Mas depois tudo se dissipa lentamente para a escuridão. Tudo está outra vez em silêncio. Nem tanto. Podemos ouvir os cabos vibrando. Se você se concentrar pode distinguir diferentes freqüências, ou interrupções, como se fossem vozes.

- Para onde ele foi?
- Encontrar-se com ela, espero.
- Quando volta?
- Em umas duas horas, talvez menos.
- Menos.
- E ele se muda para cá, espero.
- Para cá?
- Sim, aqui.
- E a luz?
- Não haverá mais luz.
- Talvez ele nos veja.
- Ele vai ver a gente.
- Mas, o que ele vai pensar quando nos vir? O que vai acontecer?
- Provavelmente vai ficar confuso, como quando você me viu pela primeira vez.
- O que é que devemos fazer?
- Nós, nada. Você. Eu não estarei aqui. Vou me mudar para lá. Espero.
- Hoje?
- Sim.
- Mas eu preciso de ti. Não posso existir sozinho.
- Você não existe, e se existisse não estaria sozinho. Ele estará aqui com você. Pergunte a ele como é o cheiro da chuva, se ele conseguiu sentir o gosto dela, se estava frio.
- Eu não sei como fazer isto.
- Sabe sim. Você vai descobrir.

Carros passam na rua projetando suas luzes no interior da sala escura. Não ouvimos mais os cabos por causa da chuva. Chiando como um rádio, ela sintoniza minha mente nas suas freqüências, e nela eu ouço as vozes.

- Tenho que ir.
- Mas ele não chegou ainda.
- Olhe ele ali, deitado no sofá. Daqui a pouco acorda.
- Para onde vais?
- Encontrá-la. Me mudo para lá, eu espero.
- E não voltas?
- Não. Espero que não.
- Esperas?
- Espero que ela continue, e não desista.
- E se ela interromper? Tu voltas?
- Não. Me mudarei para outro lugar. Espero.
- Sentirei tua falta.
- Eu também.

Um raio. Trovão. Os cabos não vibram mais.

A sala está escura e em silêncio. Tem cheiro de café. Há o retrato de uma mulher na parede. Ela olha para cima e não sorri. Não há alma viva na sala. Alguns talvez acreditem que há uma pessoa dormindo no sofá e outra, a observando, sentada numa das cadeiras vazias que está diante da mesa, mas isto não é verdade. Não há ninguém na sala. É provável que seja tudo minha imaginação.

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27.5.07

Elvis e o centro da terra: parte V (final)

Esta é a quinta e última parte da história iniciada neste post.

Já era dia. Chovia bastante e o trânsito na Marginal Tietê estava infernal. O ônibus tinha saído da via expressa e estava reduzindo a velocidade como se fosse parar. Pela primeira vez pude prestar atenção e perceber os outros passageiros. Alguns conversavam. Outros riam. Era um ônibus normal. A viagem é que foi estranha.

Na poltrona ao lado, meu companheiro Elvis dormia com seus óculos escuros. Não, foi engano. Ele estava acordado e assim que ele percebeu que eu também estava não perdeu a oportunidade de falar primeiro.

- Que chuva, hein?

Permaneci uns minutos olhando para ele. Não sei se ele continuou falando. É bem provável que sim (ele não ficaria calado), mas não lembro o quê. Fiquei aliviado ao contemplar meu reflexo dos seus óculos escuros. Foi tudo apenas um terrível pesadelo. Por um instante senti-me feliz.

Mas não durou muito. Quando ele parou de falar e sorriu, lembrei-me de todas as coisas que aconteceram na noite anterior, e tive raiva. Antes que ele começasse a falar de novo eu manifestei minha raiva.

- Cretino.

- Como?

- Você é um cretino. Por que você fez isto, hein? Eu não disse que não queria seus óculos?

- Como assim? Não entendi.

- Ah, você entendeu sim! - levantei a voz. - Você pôs esses malditos óculos no meu rosto depois que eu peguei no sono! Não foi? Seu filho da mãe! Foi horrível! Uma das piores experiências de toda a minha vida! Nunca mais quero passar por isto.

Ele parecia assustado.

- Eu não!

- Olha aqui. Eu não sou idiota. Eu lembro das suas histórias. Fique longe de mim e não fale comigo, ouviu? Se você vier com conversa ou pior, com esses óculos para o meu lado de novo eu mato você, entendeu?

- Tudo bem, desculpe - ele gaguejou e baixou o rosto.

O ônibus finalmente parou e abriu a porta.

- E por que diabos esse ônibus parou? - perguntei.

- É a primeira parada. Ele também pára perto da rodoviária, na Barra Funda, na praça da República, ...

- Eu não perguntei a você! Estou falando sozinho. Eu vou descer aqui, agora. Com licença.

Eu me levantei aos tropeços, me espremendo entre ele a poltrona da frente. Desci do ônibus sem olhar para trás, paguei o motorista e esperei na chuva enquanto ele tirava a minha mala. Caminhei lentamente até o abrigo. Paranóico, esperei que o ônibus saísse sem tirar os olhos da porta. Precisava ter certeza que ele iria embora e que o dito-cujo não desembarcaria. Desceu apenas mais uma pessoa. Uma mulher. Não era o Elvis. O motorista entrou no ônibus, fechou a porta e deu partida. Esperei mais um pouco e fui atrás de um taxi. No caminho, a mulher segurou meu braço.

- Senhor, com licença.

Tive um susto. Ela continuou.

- O senhor deixou cair isto dentro do ônibus.

Estendi a mão direita e ela me deu um par de óculos escuros. Não eram meus. Eu não uso óculos escuros. Eu odeio óculos escuros. Mas não me importei. Aceitei. Ela sorriu e eu agradeci com um sorriso. Olhei para os óculos, abri, pus no rosto e entrei no táxi.

- Para onde vamos? – perguntou o motorista.

Eu pensei um pouco, sorri, e dei-lhe as instruções.

- Siga em frente, e não pare até acabar o asfalto. Chegando lá eu explico o resto do caminho.

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26.5.07

Elvis e o centro da terra: parte IV

Esta é a quarta e penúltima parte da história iniciada neste post.

Era ele, o velho careca.

- O senhor tem que ir.

- Como assim? – respondi de mau humor sem me levantar – Eu mal cheguei.

- O senhor disse que iria embora no dia seguinte.

- Sim, mas ainda é noite. Deixe-me dormir um pouco mais. Daqui a pouco eu levanto.

Não deu cinco minutos. Ele me cutucou de novo. Desta vez havia mais umas dez pessoas no quarto, homens, mulheres e crianças, a maioria parecia índio. Eu me levantei assustado e sentei na rede.

- O que houve? - perguntei.

- O senhor não vai embora?

- Eu lhe paguei por uma noite. A noite não terminou ainda. O que está acontecendo? Que horas são?

- São quatro horas.

- E vocês me acordam às quatro horas da madrugada? – levantei a voz, irritado – Quanto tempo dura uma noite pra vocês?

Eles cochicharam entre si, mas não responderam.

- O que está acontecendo? – perguntei.

Ninguém respondeu.

- Vejam bem, eu lamento atrapalhar a rotina de vocês, mas eu só quero dormir algumas horas. Eu estou aqui contra a minha vontade, mas assim que amanhecer vou dar um jeito de sair daqui, podem ficar tranqüilos. Prometo que vou embora no primeiro ônibus que aparecer.

- Aqui não aparece ônibus – respondeu o velho.

- Tudo bem – observei impaciente – mas eu cheguei aqui em um ônibus, talvez, quem sabe, amanhã chegue outro, ou um carro, um caminhão. Eu farei o possível para ir embora.

- Aqui não chega nem nunca chegou ônibus algum, nem carro, nem caminhão.

A conversa estava ficando irracional. Eles me olhavam como se eu fosse um alienígena e pareciam cada vez mais com um bando de loucos. Ninguém se movia nem ia embora. Só me encarava. Eu decidi me levantar.

- Tudo bem, qual é o problema? Me expliquem!

Houve um princípio de tumulto. Todos eles, com exceção do velho, deram um passo para trás. Pareciam apavorados e por um instante achei que iriam me atacar.

- Queremos que o senhor vá embora – falou o velho. – Já amanheceu. Já está claro. Por que o senhor não vai?

- Claro? Está claro? O senhor é cego? Está tudo escuro!

- Cego estás tu. Escuro é o mundo que está na tua cabeça, homem! – respondeu o velho com agressividade – Faz horas que estás nessa rede. São quatro horas da tarde e se tu não percebes é porque não tiras esses óculos da cara! Este não é teu lugar. Por que voltaste? Vai embora!

Neste momento eu tive uma das visões mais terríveis. Pus a mão no meu rosto e senti os óculos. Mas não foi apenas isto. Senti meus cabelos longos, minhas costeletas, o colar de contas, meu corpo magro. Não podia ser. Era um pesadelo. Tive medo de me olhar no espelho pois eu já sabia o que iria ver, então num impulso, arranquei aquela coisa do meu rosto e atirei longe.

Foi como um choque. Meu corpo endureceu e fiquei sem ar. Achei que ia morrer. A luz me ofuscou e antes que eu conseguisse fechar os olhos me empurrou para trás como se eu tivesse levado um tiro. Caí sentado num lugar macio e logo em seguida o chão começou a tremer. O silêncio foi ocupado por um zumbido ensurdecedor e constante, metal rangendo, roncos e buzinas. No ar havia um cheiro ácido de mofo misturado com fumaça. Ouvi muitas vozes misturadas ao som de chuva forte, mas não vi ninguém nem senti o molhado. Senti calor e mal estar. Minhas costas doíam nos músculos e na coluna. Minha boca ardia. Finalmente abri os olhos e tudo ficou claro.

Parte final

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25.5.07

Elvis e o centro da terra: parte III

Esta é a terceira das cinco partes de uma história iniciada neste post.

Aproveitei para descer e esticar as pernas.

O cheiro da noite lembrava proximidade de chuva, mas não estava quente nem frio, nem seco nem úmido. Não havia brisa, nem vento, nem claridade no horizonte. O céu estava completamente negro, como se estivesse coberto por uma camada uniforme de nuvens escuras. Não havia estrelas. Não havia insetos.

O caminho até o posto era iluminado pela luz amarelada que vazava das janelas e portas. Era possível distinguir três construções. Um mercadinho ou bar com três portas no centro, um casebre com duas janelas acesas à esquerda e uma casinha menor, com duas portas iluminadas por uma lâmpada fraca, mais perto, à direita.

Percebi vultos no interior do bar. Não consegui distinguir ninguém, pois a luz era muito fraca. Lembrei-me que se eu entrasse no bar provavelmente encontraria o Elvis (era estranho não ouvir a voz dele). Preferi adiar esse encontro e passar primeiro na casinha à direita, que parecia ser onde ficavam os banheiros.

Não lembro o que aconteceu depois. Quando eu saí algo havia mudado, ou talvez tenha mudado quando entrei no bar.

O chão do bar era liso de cimento vermelho queimado, paredes amarelas, lisas e limpas. Era tudo simétrico. Diante das duas paredes laterais havia exatamente duas mesas quadradas com duas cadeiras cada, e nos fundos, um balcão de madeira escura. Na parede atrás do balcão havia duas estantes vazias. No meio delas pendia uma cortina de retalhos vermelhos que escondia uma porta.

Além disso só o silêncio, e mais nada. Não havia ninguém nas mesas nem atrás do balcão. O bar estava vazio!

Voltei para a porta e procurei pelo ônibus mas não consegui enxergá-lo, então corri até o lugar onde ele deveria estar. Não estava. Custei a acreditar. Era impossível que tivesse sumido tão rápido, sem fazer barulho algum. Eu eu deveria ouvir o motor ou pelo menos conseguir ver o reflexo dos faróis.

Parado e em silêncio, a única coisa que ouvi foi o meu coração batendo acelerado. Será que eu passei mais tempo no banheiro do que eu me recordava? Temi que estivesse ficando louco, mas logo minha mente voltou a pensar de forma prática.

Era um ônibus clandestino, não havia dúvidas. O motorista com certeza não contava os passageiros. Seria difícil rastreá-lo. Minha mala eu poderia considerar perdida. Pelo menos fiquei com a mochila, dinheiro e documentos. A questão seria o que fazer agora.

Voltei ao bar. Parei diante do balcão, bati palmas e fiquei esperando que alguém me atendesse. Silêncio. Levou um minuto mais ou menos até começar a ouvir o som de passos se aproximavam. Tive até um susto quando a cortina foi afastada e dela surgiu uma mulher gorda de cabelos longos com aparência de índia. Sem alterar sua expressão séria, ela caminhou lentamente até o balcão onde eu estava e permaneceu imóvel, me olhando sem dizer nada, como se esperasse que eu falasse alguma coisa. Foi o que fiz:

- Oi! Tudo bem? É que eu acabo de perder meu ônibus. A senhora saberia me informar como eu poderia alcançá-lo? Talvez alguém me pudesse dar uma carona. Ou talvez se a senhora souber como pego um taxi para a cidade mais próxima.

Ela esperou que eu terminasse de falar, baixou os olhos e saiu em silêncio. Mais um minuto e novos passos. Desta vez apareceu um velho pálido e alto de olhos azuis. Ele era magro, careca e usava um uniforme militar cinza. Me encarou sério como se estivesse me examinando. Como ele também não falava, eu tomei a iniciativa:

- O ônibus que parou aqui, o senhor está lembrado? Ele partiu e me deixou por engano. Eu preciso alcançá-lo. O senhor sabe como?

- Aqui não pára ônibus – ele respondeu, lentamente, com uma voz grave e monotônica.

- Por favor, pergunte às pessoas que trabalham aqui - insisti. - Parou um ônibus aqui sim. Ele partiu faz dez minutos no máximo. Eu queria a sua ajuda. Talvez o senhor tenha um carro ou conheça alguém que possa me dar uma carona para tentar alcançá-lo. Eu pago.

- Eu não tenho carro.

- O senhor conhece alguém aqui perto que tenha? Um telefone para chamar um taxi?

- Não.

Desisti.

- Então me diga quando passa o próximo ônibus para São Paulo. Vou precisar também de algum lugar para passar a noite.

Ele não respondeu nada. Ficou só me encarando.

- O senhor me ouviu? Quando passa o próximo ônibus para São Paulo?

- Aqui não passa ônibus.

- Tudo bem. Deixa pra lá. Me arrume então um lugar para passar à noite. Amanhã eu me viro.

Ele calou-se de novo e permaneceu imóvel. Eu já estava ficando impaciente, até que respondeu:

- Dez.

- Dez o que?

- Dez reais.

- Por mim está ótimo.

Ele saiu pela lateral do balcão e saiu pela porta da frente do bar. Eu o segui. Entramos na casa, que era bem simples. O chão era de areia e as paredes mal tinham reboco. Dentro da casa voltei a sentir o cheiro de chuva. Era estranho, pois não havia vento algum.

Entramos pela sala. Sentados num sofá vermelho estava a mulher que vi no bar com duas meninas que pareciam gêmeas. Deviam ter uns sete anos e assistiam a um programa de desenho animado numa TV preto e branco com o som desligado. Se eu não me engano era o episódio de Pernalonga com Marvin, o marciano que vive querendo destruir a terra. Quando eu passei na frente os três me olharam rapidamente, todos sérios, mas logo retornaram suas atenções à TV.

O velho me levou até uma porta à direita, onde uma cortina de retalhos vermelhos isolava a sala de um quarto onde havia apenas uma rede, um espelho e uma janela, que estava aberta. Ele parou e olhou para mim estendendo a mão, onde eu coloquei uma nota de dez reais que tirei da minha mochila. Ele olhou contra a luz, que era fraquíssima, guardou o dinheiro e saiu em silêncio.

Deitei na rede com minha mochila e peguei no sono muito rapidamente. Acho que nem lembrei de apagar a luz. Eu dormi, eu acho, uns trinta minutos quando senti que alguém estava me cutucando. A princípio eu achei que era sonho. Na segunda vez foi mais forte e balançou a rede, que rangeu, e veio acompanhado de uma voz, que me chamava.

- Acorde! Senhor? Acorde por favor!

Continua na parte IV

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23.5.07

Elvis e o centro da terra: parte II

Esta é a segunda das cinco partes de uma história iniciada neste post.

- O coronel Fóshti - contava Elvis -, que já deves ter ouvido falar, vive lá há muitos anos. É um explorador americano que nasceu em Londres e dizem que morreu no Brasil. Mas que ele morreu não é verdade. Ele está bem vivo no centro da terra, sabia?

Eu já havia ouvido essas histórias. Acho que o tal coronel chamava-se Fawcett. Ele misturava essas histórias com outras tão absurdas que eu acabava prestando atenção, e consequentemente não conseguia dormir.

– Eu não cheguei a entrar no lago do portal, porque, tu sabes, se entrar não volta mais, mas eu tive a coragem de chegar até a beirada pelo caminho do terceiro fim. É mais simples e não depende da conjunção de astros. Sabes como funciona?

Eu não queria saber. Nada me interessava naquele momento exceto o silêncio. Ele calou-se por um instante, talvez esperando que eu respondesse, mas como eu permaneci imóvel com os olhos fechados, ele continuou.

- Vou explicar como eu fiz. Assim que cheguei na cidade, eu desci do ônibus e entrei no primeiro táxi. Mandei o motorista seguir em frente, sempre em frente, até acabar o asfalto. Depois continuamos toda a vida até acabar a estrada, e quando ela também acabou eu desci e caminhei até não ter mais como continuar. Sabes por que? Porque tudo na frente era escuro. Um breu completo. O silêncio era absoluto. Eu havia chegado ao fim.

Adorei esta parte, pena que não era o fim.

- Era muito escuro! Nossa! - quebrou o silêncio com empolgação - Passei mais de uma hora contemplando a escuridão. E tinha gente morando lá, acreditas? Eu vi um pontinho amarelo no horizonte e fui atrás para descobrir o que era. Chegando mais perto descobri que a luz vinha do interior de uma casa onde vivia uma família humilde, um casal, um velho, filhos e netos. Era um pessoal muito calado, pensei até que eram mudos. Eles nunca viram a luz do sol, tu acreditas?

Eu não estava prestando atenção. Minha mente estava ocupada em fabricar idéias assassinas.

- Mas para eles era tudo claro. Por não ter dia, também não tinha noite. Para mim era só noite. Para eles era só dia. Incrível, não é? E sabe de uma coisa, eu posso te ajudar a chegar lá. Eu não me engano; sei que tu és um iluminado e buscas essa experiência. Não é verdade, meu amigo?

Com isto eu não agüentei. Abri os olhos. A única verdade é que nesse momento eu queria esganá-lo. Minha paciência já estava no limite. Encarei-o com uma cara bem feia para ver se o danado se tocava.

Ele sorriu.

- Eu sabia. Então eu vou começar com...

- Não! Por favor. Não faça isto. Me desculpe. Eu sei que tudo isto deve ser muito interessante, mas no momento, se é que me entende, eu só quero dormir. Eu preciso dormir, entende?

- Claro que entendo. O sono é fundamental. E eu posso lhe ajudar.

Não seria difícil. Calar a boca, por exemplo, seria um bom começo, mas ele tinha uma idéia melhor.

- Eu vou te ensinar uma técnica de meditação que eu desenvolvi especialmente para relaxar em viagens de ônibus.

- Não, não. Muito obrigado. Eu prefiro dormir mesmo.

- Mas tu não estás com sono.

- Eu vou ficar logo, logo, não se preocupe.

- Então coloca isto. Vai ajudar.

Ele tirou não sei de onde um par de óculos escuros e quando percebi, estava tentando por no meu rosto.

- O que é isto? Sai! – eu gritei, afastando a coisa.

- São óculos especiais de relaxamento. Tu vais conseguir relaxar melhor. Eu uso o tempo todo. Ele produz uma energia que ativa a aura e...

- Não, eu não quero. Tira essa coisa daqui. Eu nem imagino como você consegue enxergar no escuro com isto.

- Ah, com eles eu vejo tudo. Tu sabes o que é tudo? É tudo como se fosse um sonho, ou uma viagem na mente, sabe? Ele vai ajudar a expandir tua consciência e assim vais conseguir ver ...

- Pelo amor de deus, cara, você não entende que eu não quero ouvir suas histórias?

Pela primeira vez ele permaneceu calado, me olhando, de óculos escuros, sem sorrir. Fiquei meio sem jeito por ter gritado.

- Me desculpe ter sido grosso com você - continuei, mais calmo -, eu sei que você tem boa intenção, é que eu realmente preciso dormir. A viagem é longa e eu preciso de silêncio, de paz, entende? Se você puder me deixar só por um instante.

- Mas coloca os óculos. Tu vais te sentir melhor. Ele traz o silêncio e a paz que tu procuras, e ainda vais ter um sono tranqüilo e não sentirás o tempo passar. Quando acordares já estarás em São Paulo.

Lá vinha o maluco outra vez tentando colocar aqueles óculos no meu rosto.

- Porra meu! Eu já não disse que não quero! Mas que inferno! Me deixa em paz, por favor, ok?

- Tudo bem - ele gaguejou - Me desculpa. Se quiser, eu espero para te mostrar quando o ônibus parar.

Eu bati o pé com força causando um estrondo na lataria do ônibus e o encarei com uma cara muito, muito feia. Ele virou o rosto e não ousou abrir a boca. Finalmente eu havia conseguido a paz e o silêncio que eu procurava.

Ah, mas dormir foi uma dificuldade. A simples presença do Elvis já era motivo para irritação. Minha mente estava alerta, aguardando ouvir a voz do desgraçado a qualquer instante.

Mas ela não veio, e em algum momento, não sei como nem quando, eu consegui adormecer. Devo ter dormido bastante. A simples ausência da voz do cretino fez com que o ruído do motor e o ranger da lataria parecessem o mais puro silêncio. Era um silêncio profundo, completo, absoluto. Eu sequer sentia os buracos da estrada. Parecia até que o ônibus estava parado.

E estava mesmo. Tive até um susto. Achei até que havia morrido, mas não, o ônibus estava parado. Olhei pela janela e vi que a uns cem metros havia algo que parecia um posto de beira de estrada. Não havia ninguém dentro do ônibus. Aparentemente todos tinham descido, inclusive meu inimigo Elvis.

Continua na parte III

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21.5.07

Elvis e o centro da terra: parte I

Era para ser uma viagem curta. Eu devia estar em São Paulo em duas horas, mas o avião não pôde pousar por causa da chuva. Era o único vôo da semana. A cidade era um ovo. A companhia iria providenciar um táxi para um hotel na capital, que ficava a três horas de viagem, onde eu e os outros três passageiros esperaríamos o vôo da manhã seguinte com partida marcada para onze e meia. Como já eram cinco horas da tarde, eu só chegaria em São Paulo depois de umas vinte horas, e olhe lá. Isto, se o vôo não atrasasse como era costume. Mas eu não tinha escolha. Sentei-me na sala de embarque e fiquei esperando o táxi. Eu estava tão distraído que não percebi o cara que sentou-se do meu lado, até que ele me perguntou.

- Tu vais para São Paulo?

Era uma figura que parecia ter saído de um filme dos anos 70. Magro, costeletas, bigode, camisa listrada, colar de contas, calça de boca de sino e sapato de duas cores. Parecia uma versão caipira e mais baixinha do George Harrison. Sorria o tempo todo. Apesar da pouca luz do fim da tarde, usava óculos bem escuros e parecia não ligar para isto.

- Estou tentando, mas pelo visto só vou chegar amanhã à tarde, se tiver sorte.

- Eu sei de um ônibus que sai daqui a pouco e chega em São Paulo em 12 horas.

- Ah é? Então eu vou nele. Onde fica a rodoviária?

- Ele não pára na rodoviária. Passa na beira da estrada. É só mandar parar. Queres? Eu vou agora esperar por ele.

Então fomos para a beira da estrada, que ficava ao lado do aeroporto. Esperamos uns vinte minutos, e nesse meio-tempo o cara não parou de falar por um segundo sequer. Ele começou se apresentando com um cartão de visitas.

- Meu nome é Adalberto Wanderley, mas podes me chamar de Elvis.

- Elvis?

- É. Elvis Presley.

- Ah. Ok.

De acordo com o cartão, ele fazia de tudo: era músico, encanador, motorista, escritor, inventor, pintor, guia turístico, veterinário, místico, e mais um monte de outras coisas que não lembro.

- Você faz tudo isto?

- Faço bem mais. É que não cabe no cartão.

- Entendi.

Chegou o ônibus. Devia ter uns cinqüenta anos. Era uma coisa prateada com listras vermelhas e milhares de penduricalhos atrás do pára-brisa. Combinava com o Elvis. Eu achei que aquilo jamais chegaria em São Paulo, então resolvi que seria melhor retornar à opção do táxi. Ah, mas meu guia de viagem foi mais rápido. Já havia entregue minha bagagem ao motorista que estava fechando a mala do ônibus. Um ônibus feio e velho, pensei, mas inteiro; talvez não tivesse freios, mas já vi piores. As estradas estão repletos deles e eles atravessam o país todos os dias. Eu agüentaria tranqüilamente as 12 horas. Era só arrumar um jeito de pegar no sono.

O resultado foi pior que eu imaginava. O interior do ônibus cheirava a fumaça, e as poltronas de couro vermelho tinham manchas claras e escuras que pareciam mofo. Tive certeza quando sentei. Mas nenhum desses era o pior dos problemas. Já consegui dormir em ônibus fedorento, barulhento e úmido. O pior era que o ônibus estava lotado e as únicas duas poltronas vazias estavam juntas lado-a-lado, ou seja, eu teria que viajar do lado do Elvis Wanderley.

O ônibus partiu, e, como era de se esperar, meu companheiro de viagem iniciou o seu discurso.

- Sabias que a Terra é oca?

E assim começou uma longa exposição místico-pseudo- científica sobre mundos subterrâneos e terras desconhecidas. No início eu fui educado e depois passei gradualmente a demonstrar pouco interesse pela conversa, para ver se ele desistia, mas isto não causou efeito. Como eu não interferi, a história começou a ficar mais absurda.

- Eu já estive lá, no centro da terra.

- Sério?

Ele se animava com essas respostas monossilábicas e falava cinco minutos sem parar. O jeito era não responder. Decidi fechar os olhos e fazer de conta que havia adormecido, mas não funcionou. Ele mesmo respondia às perguntas que fazia. E assim acabei aprendendo sobre a vida e os costumes dos habitantes de Atlântida, bases alienígenas que existem na lua, e outros temas que recheiam as teorias conspiratórias mais esdrúxulas.

Continua na parte II

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7.3.07

Coisas importantes

Foi um dia corrido. Reuniões e reuniões. No final, algumas coisas seriam decididas. Coisas importantes. No dia seguinte, mais pessoas, mais reuniões, novos prazos. Responsáveis. Problemas a serem solucionados. Coisas muito importantes. O vôo atrasou e o trânsito não ajudou. Era preciso ficar até mais tarde. Havia documentos a redigir e pontos a serem esclarecidos.

Lá dentro tem um robô que atende ao aperto de um botão, mói grãos de café e mistura com água quente e açucar. A luz é branca, artificial, e pisca sessenta vezes por segundo. Há janelas. Elas são escuras. O ar é condicionado e a temperatura é constante. Há um zumbido constante e baixo, bipes de máquinas diversas, telefones celulares, impressoras rangendo, cliques, vozes discutindo coisas importantes.

Lá fora tem o universo que não atende a botões, que não se controla. Chove. Foi uma chuva rápida depois de um dia quente. Um mendigo seminu corre atrás de um casal de quero-queros, que voam e gritam. Folhas das árvores balançam. Nuvens refletem no lago onde ainda bate sol. Mas aqui dentro não dá para ouvir nada disso. Aqui dentro é outro mundo, que atende a botões, que se acredita controlar. Vozes de fora entram pelo telefone, digitalizadas. Pessoas entram pela garagem nos carros de vidros escuros e fechados. Protegidos do mundo de fora, da chuva, do sol, dos mendigos e dos quero-queros, nós, os robôs orgânicos cuidamos das coisas realmente importantes, dia após dia, hora após hora, reunião após reunião, apertando nossos botões, controlando nossas torneiras, planejando a vida e inventando um sentido controlável, certo, previsível para tudo.

Uma tarde, sonhei que a energia acabava. O universo lá de fora não atende a botões. Não havia como ligar a chave. Mas lá fora era dia, havia sol, havia vida. Era aqui dentro que os botões não funcionavam. As impressoras não se mexiam, o robô do café não trabalhava, o ar condicionado não funcionava, as luzes fluorescentes não ligavam, os elevadores não íam nem vinham, os computadores não respondiam e nem mesmo os celulares tocavam. Estava tudo escuro, quente, abafado. Os prazos iriam atrasar. A reunião teria que ser cancelada. O cronograma estourou. Procurava-se o responsável pois ninguém mais sabia quais eram as coisas importantes. Do lado de fora meninos seminus corriam atrás dos quero-queros, e riam. Aqui dentro a coisa mais importante era saber de quem era a responsabilidade pelo botão da energia.

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7.12.06

Succubus



Era uma tarde de chuva, e eu estava sozinho em casa lendo um livro de Umberto Eco (que nunca terminei) quando algo me distraiu. A princípio não vi nada nem ninguém. Veio como apenas uma palavra. Não lembro se foi uma palavra vista, ou ouvida, ou simplesmente pensada.

- Olá!

Acho que depois vieram outras palavras, tanto que não foi possível continuar a leitura. Surgiram imagens, cartas inteiras, lembranças inexistentes, um eclipse do Sol e um ônibus viajando por estradas esburacadas numa madrugada chuvosa. Com tanta informação acho que adormeci e quando acordei já era noite. Ela estava lá, em pé na varanda observando a paisagem. Eu a vi de costas. Tinha cabelos loiros e as costas nuas. Acho que usava um corset e uma saia longa, brancos. O vento movia a saia e os cabelos. Parecia uma miragem. Ela percebeu que eu a observava, e sem se mover me chamou.

- Venha, vamos ver as estrelas!

- As estrelas?

Não lembro se falei ou se pensei, mas ela respondeu mesmo assim.

- Sim. Foi você que me falou delas, lembra?

Não lembrava. Lembrava que já havia falado de estrelas, mas não lembro de ter falado para ela. Eu não lembrava dela. Parecia alguém familiar, mas não lembrava.

- Não fique aí parado. Venha!

A preguiça era imensa, mas eu fui. Lembro quando cheguei na varanda e virei o rosto para olhá-la. Ela me olhou de volta. Era linda. Não consegui desviar o olhar. Não queria desviar. Não queria mais nada. Talvez por ter me ofuscado eu tenha fechado os olhos, mas então ela me abraçou e eu deixei-me encantar. Explorei suas curvas, abracei suas costas, deslizei sobre suas pernas e em algum momento escorregamos. Fizemos amor em queda livre e não lembro como terminou.

Acordei diante do mar. Estava claro. A luz era a luz de luar. A brisa era morna e a areia estava quente. Eu estava nu e ela ainda escorregava sobre minha pele como se fosse parte de mim.

- Hélio.

Ela me chamava de Sol. Não tinha pensado nisto. Mas como ela parecia lunar! Tinha uma luz azul, clara, suave. Me seduzia da forma mais sutil e preenchia todos os horizontes. Me tirou do meu cubículo e me trouxe para este universo vasto e sem limites.

- Hélio!

Mas a luz era pouca. Eu achava pouca. Imenso era o céu, mas a luz era de luar. A luz vinha dela e ela parecia estar em todos os lugares, em todas as estrelas, em todos os reflexos. Por um instante tentei me mexer, e senti sua pele outra vez. Tive uma breve asfixia e quis acordar.

- Hélio.

Me levantei e senti as mãos escorrendo pelas minhas costas. Novamente me senti preso. Olhei para o mar e vi seus olhos, senti o cheiro do mar e ouvi a brisa dizer:

- Hélio.

Isto começou a me incomodar profundamente. Ela estava em todos os lugares, ocupava o universo, e a luz azulada que não me nutria estava sugando minhas energias. Comecei a achar que estava sendo consumido. Tentei de todas as formas acordar mas foi em vão. Esperneei. Tentei gritar.

- Hélio.

- Não! - gritei, e me afastei dela.

Ela me olhou assustada sem entender, e não disse nada. Parecia uma criança. Me olhou de novo com aqueles olhos e parecia querer se aproximar.

- Não! Eu não sou o Sol! Não sou! Não quero! Não sou quem você procura!

Ela apagou-se. A brisa do mar mudou tornando-se vento e nuvens começaram a cobrir as estrelas. Seu olhar agora refletia tristeza. Fiquei com pena. Quase me arrependi do que disse. Ela não falou nada. Apenas me olhou, fechou os olhos, e quando abriu novamente, sorriu. Lágrimas desceram dos dois olhos. Quis abraçá-la naquele momento; achei que talvez estivesse errado, mas as nuvens finalmente cobriram o céu e logo começou a chover forte. Corremos para debaixo da árvore, mas ela não me olhou mais. Encarou o mar e a chuva que caia sobre as ondas. Sem se virar, ela me disse:

- Feche os olhos.

Eu obedeci. Então fez-se silêncio. Acho que adormeci. Quando acordei já eram dez horas da manhã. Estava atrasado e exausto. Não iria chegar a tempo. Peguei um trânsito infernal. Foi um dia péssimo.

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28.11.06

Não pense mais nisso

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     Ela era uma menina brilhante, e ele apenas um cara qualquer, um sonhador. Eles representavam seus papéis na vida, como todo mundo. Mas um dia ela descobriu sua ilha de tesouros e o viu com outros olhos. E alguns dias depois ele se encontrou nos olhos dela. No início nada foi dito e nada foi realizado. Eles apenas falavam suas próprias línguas e entendiam tudo. No princípio foram levados pelo vento, leves, brilhando. Como sementes de dente-de-leão deixaram-se levar, sem saber onde iriam se encontrar, ou se iam mesmo pousar em algum lugar.

     – O que você acha de tudo isto? – ela perguntou, um dia.

     – Eu não sei – respondeu ele – Eu não penso nisso, eu só deixo levar.

     Ela era uma menina esperta, e ele apenas um sonhador qualquer, apaixonado. Eles representavam seus papéis na vida, para todo mundo. Mas um dia ela descobriu outra ilha de tesouros e o viu com outros olhos. E alguns dias depois ele não mais se encontrou nos olhos dela. No final nada foi dito e tudo foi realizado. Eles apenas falavam suas próprias línguas e entendiam nada. No final foram separados pelo vento, bruscos, sangrando. Como sementes de dente-de-leão deixaram-se afastar, sem saber por que nunca se acharam, ou se queriam ir mesmo pousar em algum lugar.

     – O que você acha de tudo isto? – ele perguntou, um dia.

     – Eu não sei – respondeu ela – Não pense mais nisso; só deixe que eu vá.

(Adaptada de versão original em inglês)

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24.11.06

Singularidades



Na manhã em que acordei sozinho fui despertado por um beijo gelado em meu rosto. Era o vento. A janela aberta agitava as cortinas como naqueles filmes de terror, iluminadas por uma luz suave ou sinistra (não sei) de um amanhecer lento, meio azulado, meio amarelado. Levantei-me para fechá-la quando percebi que não estava no meu quarto, pois na janela do meu quarto não há cortinas.

Não eram cortinas. Eu as toquei e elas se desfizeram. Pareciam de seda, mas ao tocá-las percebi que eram de algo pegajoso que se desmanchava como teia de aranha, como açúcar. As paredes me pareceram normais. Eram ásperas, frias e duras.

Finalmente eu encarei a paisagem. Um horizonte plano, imenso, amarelo em baixo e azul em cima. Era um azul meio pálido, assim como o amarelo era meio cinza ou marrom. A cena parecia fotografia com baixa saturação e lembrava pintura em aquarela. Mas não era estática. O vento assobiava em notas dissonantes e rabiscava desenhos na relva. Talvez fosse uma plantação de trigo (mas não sei se era trigo; eu não tenho certeza se sei com que se parece uma plantação de trigo.) As folhas não eram verdes. Eram meio amareladas, desbotadas.

Por alguns instantes, as folhas se mexendo pareciam multidões (de gente mesmo). Pareciam pessoas se deslocando de um lado para o outro, como numa praça de uma cidade grande. Era uma miragem, eu creio. Gente circulando sem parar como se fossem robôs. Era uma visão turva, às vezes transparente, meio névoa, porque quando eu parava para olhar com atenção eu via apenas um campo de folhas amarelas sendo agitadas pelo vento.

Fechei a janela porque não suportei a visão. Tudo parecia estranho demais. Voltei para a cama e deitei-me novamente. Procurei nos lençóis cheiros que não fossem meus, mesmo que imaginários e voltei a dormir na esperança que despertaria em um lugar menos deserto.

Acho que até dormi. Não estou certo. Só sei que acordei no mesmo lugar. Era tudo igual. As cortinas eram as mesmas e ainda estavam rasgadas. Era desanimador. Restou a porta, fechada, que ainda estimulava minha curiosidade. Não precisei de muita coragem para me levantar, girar a maçaneta e abri-la deixando entrar uma luz ofuscante. Quando abri os olhos lá estava ela: a mesma paisagem desbotada, azul, amarela, pálida, cinza, chata! Novamente eu estava sozinho num mundo familiar que eu não queria encontrar.

Sim, era familiar. Era o mesmo universo, sempre! A mesma casa, as mesmas paredes, os mesmos campos. Eu o conhecia. Sabia que se andasse o suficiente, de um lado eu encontraria o mar, e do outro, um penhasco. Conhecia os castelos, as ruínas, os jardins, as fontes, os rios, as árvores, os labirintos, as passagens secretas, as estrelas e as paisagens mágicas. Eu sabia exatamente onde estava e que eu poderia andar para sempre em qualquer direção e nunca encontraria outra alma viva naquele universo senão a minha. Eu estava preso dentro de mim. Era um pesadelo.

Então senti como se alguém me tocasse as costas; uma mão macia acariciando a minha nuca. Fechei os olhos e tentei tocar a mão que me acariciava, mas quando toquei ela derreteu. Não havia nada. Eram as cortinas me iludindo! Estendidas pelo quarto, ondulavam-se como luzes da aurora boreal, desenhando um mundo colorido. Nesse mundo eu a vi surgir no meio das luzes como em holograma.

Ah, mas não durou. Pelas costas, o vento me atingiu batendo a porta violentamente. A onda de choque trincou as cortinas como cristal, que fragmentou-se em milhões de pedacinhos junto com todas as ilusões. O pó que restou espalhou-se pelo chão, e quando abri novamente a porta o vento soprou tudo embora. Não havia mais ninguém (nunca houve, eu imagino), então eu fugi. Saí pela porta da frente para enfrentar a relva e tentar encontrar o sentido de tudo.

Encontrei. Foi um encontro inesperado. Caminhei por mais de uma hora até perceber, no meio do campo amarelado, a silhueta que surgira no horizonte. Eu sabia quem era. Era eu. Ansioso, eu corri na minha direção. Corremos. Mas quando cheguei perto eu parei, ou paramos, por um instante. Encontramo-nos ali, nós, a sós, eu e eu. Olhei, ou olhamos, sem coragem de tocar a visão narcisística. Mas certa hora o medo foi esquecido e me abracei sem pensar em mais nada. Foi um longo abraço. Eu e eu choramos juntos a nossa solidão em meio às multidões que balançavam ao vento, comemoramos juntos a nossa solidão em meio às plantações que recuperavam suas cores, brindamos juntos à nossa solidão rindo no meio das ilusões que se desfaziam, e a terra tremeu.

Começou com um tremor leve, mas logo a paisagem começou a se derreter e as cores tornaram-se mais saturadas. Senti que tornava-me o mundo, mas também que sempre fui o chão, o vento e o espaço. Enquanto estávamos eu e eu abraçados, nós, as plantações, fomos despertando aos poucos, acordamos nas cores saturadas e percebemo-nos vivas. Levantando-nos, corremos para também nos abraçar. Eu, todos nós, de todos os anos, de todos os minutos, de todos os segundos, de todos os lugares. Chegamos e partimos em espirais, girando como estrelas numa grande festa que durou por uma eternidade e que acelerava-se ansiosa pelo fim. Giramos eu e todos os eus na crescente curvatura de mim, este universo, até que um lado dos meus lados encontrou o outro – o mesmo, e o espaço que me define foi encolhendo, encolhendo, até consumir-se completamente, no silêncio do vácuo, numa autofagia urobórica.

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14.11.06

A máquina do tempo



- Fico imaginando. Se com meu beijo o sapo vira príncipe, e com outras coisas, no que será que ele se transforma?

- Acho que ele se transubstancializa em outra dimensão; acho que ele enxerga o infinito. Sabia que sapos vêem fótons individuais? Eles percebem quando o espaço encolhe, quando o tempo pára.

- O que é muito mais maravilhoso que ser príncipe.

- Croac!

***

- Será que existe uma máquina do tempo?

- Quando não há mais espaço entre nós o tempo pára de repente, por um instante apenas.

- É verdade. Quando o tempo pára as outras pessoas ficam minúsculas como grãos de poeira.

- Isso tem uma explicação física. A atração cresce de forma infinitesimal, a luz fica presa, a matéria some e o tempo pára. É a verdadeira máquina do tempo: um buraco negro que dilacera a matéria mas que faz tudo renascer em outro universo.

- E que mundo será esse que surge quando o espaço entre eu e você desaparece? Será que fica próximo a uma certa paisagem de cerejeiras?

- Sem dúvida. Lá existe um grande jardim de cerejeiras.

- Ao lado de um oceano lunar.

- Com um riacho que flui entre elas, de pedras polidas, de águas claras. É mesmo aquela paisagem de sonho que existe, que se deseja, da qual se sente falta, e que se só se alcança por breves instantes.

- Instantes que valem mais que muitos e muitos dias terrenos. No mundo das cerejeiras o tempo tem uma lógica própria.

- Sim. O lugar é como se fosse o próprio tempo, e se ele passa nós passamos juntos. É o espaço que fica para trás.

- É uma visão que não tem preço. É uma das coisas mais lindas que há no mundo.

- É outro mundo. As estrelas são outras.

***

- Mas como é se faz uma maquina do tempo?

- Pode ser com uma Sonata de Vênus?

- Sonata de Vênus?

- Preciso de um vinho. Você tem algum?

- Tem Merlot, Pinot Noir.

- Acho que eu tenho Syrrah e Malbec.

- E então.

- Eu faço assim, derramando um pouco nesta superfície quente e macia.

- Ui!

- Lentamente. É preciso deixar que escorra um pouco, pelos caminhos curvos. Prova-se com uma língua ávida, mas suavemente, lentamente, deixando que ele passe por lugares interessantes antes de saboreá-lo. Tem um sabor unico! Dizem que uma mistura do vinho com esses temperos e líquidos vivos tem o poder de parar o tempo por um instante.

- Eu acredito. Um instante tão breve que parece infinito. Não consigo pensar em mais nada.

- Também não. Apenas vejo os rios de vinho descendo o planalto na direção do monte, atravessando a selva, buscando o vale. Preciso controlar o fluxo das afluentes. Acho que uma mistura de merlot com syrrah e malbec ficará bem. Um no meio e dois nas laterais, para misturar melhor com as nascentes.

- Acho que o chão está tremendo.

- Sim. Eu também sinto. É o músico deslizando suas notas sobre os caminhos lisos. Ele é um barítono e precisa exercitar a língua. Os sons vibram em passadas transversais, ressoam em cortes diagonais, e de vez em quando silenciam em uns mergulhos verticais bastante profundos.

- Estou ficando tonta.

- Deve ser o vinho.

- Não. Deve ser o tempo.

- Ainda falta preparar a orquestra. Preciso sentir o território, inspecionar os instrumentos. Desço devagar e paro no alto do monte. Está ótimo. Agora deixo-me escorregar para um dos lados, fazendo pressão para não cair no solo liso.

- Eu que vou cair.

- O chão está mesmo vibrando. É isto. É o músico. Ele gira como um redemoinho até tornar-se onda. Lamberá as costas até inundar toda a selva rolando sobre suas praias úmidas, em um ritmo constante, como um pulso.

- Vai começar a música. Já sinto que ela se inicia.

- Sim. A princípio parecem notas tocadas em um piano. Mas não são ouvidas. São sentidas como dedos que fazem pressão suave em todas as teclas, formando acordes nas notas altas e arpejos nas notas baixas. Às vezes parecem violinos, esticando as cordas em pizzicatto ou sendo feridos com stacattos. Outras vezes arrastam-se escorregadios como legatos e gemem como se fossem rabecas.

- As palavras vão virar pontinhos.

- É o tempo que já desacelera, e se o tempo muda as freqüências mudam junto. Cada vez surge uma nova composição, ora harmônica, ora melódica, sempre espasmódica, que no auge será...

- Orgásmica!

- Mas ainda repetem. Da Capo Al Fine, Al Coda, Ad Infinitum. Por ora accellerando, depois ritardando, rallentando, a tempo em diferentes intensidades: piano, mezzo piano. Em ritmo de pulso, às vezes mazurca, às vezes valsa, às vezes ardendo num rock intenso. A crina passa arranhando as cordas com firmeza enquanto os dedos as apertam em vibrato. E assim cresce a melodia que entra em ressonância intensa e constante até o instante em que...

- ... o tempo pára!

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13.10.06

Ela se foi

" But our love it was stronger by far than the love
Of those who were older than we-
Of many far wiser than we-
And neither the angels in heaven above,
Nor the demons down under the sea,
Can ever dissever my soul from the soul
Of the beautiful Annabel Lee."
(Edgar Allan Poe, Annabel Lee)

Não consigo dormir, apesar do sono. Então fico aqui, sozinho, escrevendo, expondo-me, nesta manhã nublada, buscando algo que mude as cores do dia. Eu sou aquele que deixou-se apaixonar, eu diria, perdidamente (que outra palavra poderia usar?), que deixou-se cegar, que deixou-se acreditar, que abriu espaço na sua alma para que fosse preenchida por ilusões inventadas (belíssimas, por sinal), que deixou-se entorpecer por carinhos e palavras, que acreditou em sputniks, cerejeiras, e em sonhos felizes e distantes (e que faria tudo isto de novo e de novo). Tão perdido estava que quando caí (ou fui empurrado) do navio em alto mar, a princípio achei que era sonho, ou pesadelo, e sequer tentei nadar para me salvar. Tendo escapado do afogamento e dos tubarões famintos, escrevo isolado no alto de um penhasco de uma ilha deserta que apenas eu conheço (antes diria que ela também conhecia). Escrevo palavras inúteis, inebriadas, numa folha encharcada, que depois lançarei ao mar aberto dentro desta garrafa de vinho tinto (que ainda não está vazia.) Escrevo que amo, e que amei-a, que aprendi a amá-la, incondicionalmente, a amá-la de amor, e agora de saudade. Escrevo que preciso do cheiro do seu corpo, do qual tornei-me dependente. Escrevo para aquela que um dia chamei de minha sputnika; aquela com a qual por dois verões, dois outonos, dois invernos, e uma primavera foi minha companheira de viagem, com a qual fui feliz. Escrevo em vão, pois este mar é vasto, e ela está longe, e a garrafa é escura.

Hoje, sinto dor na minha alma vazia. As feridas, que cicatrizam, de vez em quando abrem e sangram, como agora. Do alto deste penhasco eu vejo o meu mundo, eu me vejo, eu vejo o meu paraíso, mas eu não a vejo mais quando acordo. Sinto apenas a brisa, e escrevo.

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28.9.06

Sobre o sentido da vida

Ontem eu estive em uma conferência muito séria. Como eu estava na platéia, e não em pé, defendendo pontos de vista, eu naturalmente adormeci, como sempre faço nas conferências. Na verdade, eu não lembro de ter ido à conferência, apenas lembro de ter acordado quando meu vizinho me cutucou, provavelmente porque eu estava roncando, embora eu tenha certeza que eu não ronco.

Eu demorei para perceber o tema da conferência, pois apesar de muito séria, os argumentos dos palestrantes me pareciam totalmente absurdos. Tinham uma lógica precisa, uma abordagem cuidadosa e tudo parecia claro, óbvio, perfeito, conseqüentemente absurdo.

Meu despertar foi lento, e a sala estava um tanto escura. Foi por isto que só algum tempo depois percebi que se tratava de um simpósio. Era o que estava escrito numa faixa que pendia da mesa que estava atrás do palestrante: XVII Simpósio Internacional sobre o Sentido da Vida. Era mesmo absurdo! Como é que se discute uma coisa dessas? Todos sabem que o sentido da vida é 42.

O próximo palestrante era o Paulo Betti. Concluí que só poderia estar tendo um pesadelo. Não sei o que ele estava fazendo ali, mas ele veio com uma tese interessantíssima: o sentido da vida é a Merda. Ele já havia, em outros fóruns, convincentemente demonstrado por argumentos filosóficos chauístas o papel importantíssimo da Merda na política e desenvolvimento das nações. Ele aparentemente foi convidado para desenvolver o seu argumento. Mas o que isto tem a ver com o sentido da vida? Ora, segundo o palestrante, toda a evolução da humanidade e das espécies visa unicamente à perpetuação dela: a Merda. É a principal fonte de vida e de energia. É ela quem nutre o solo, que nutre as plantas, que são comidas pelos animais, que são comidos pelos humanos, e que um dia irão fazer cocô em outros planetas e espalhar-se Universo. Mostrou que se o mundo parasse de fazer cocô, toda a civilização e a biosfera entrariam em colapso e a Terra viraria um deserto estéril. Através de complicadas equações matemáticas demonstrou sua tese de que era a Merda a misteriosa matéria escura cuja massa ocupa a maior parte do Universo, e o principal componente dos buracos negros que devoram as galáxias. Conseqüentemente, o Big Bang foi um gigantesco pum que espalhou os gases incandescentes e partículas fecais que formam todo o Universo conhecido. Em suma, enterrar as mãos na Merda é uma forma sublime de encontro com a divindade, com a essência primordial do Universo.

Eu não consegui assistir até o fim. Ele começou a viajar em digressões absurdas contrastando sua tese com as teorias do Rev. Dawkins e do Dr. Pangloss e eu cochilei. Tive pesadelos com lulas gigantes, porcos falantes e sanguessugas barbudas que me perseguiam. Fugi para a floresta. No meio do caminho, no fim da rua encontrei um precipício. Não tive dúvidas: pulei.

Fui salvo por um indiano de turbante rosa, hálito de alho, olhos enormes e um sorriso desdentado que se apresentou como Mustafá Smith. Ele por acaso passava no momento do meu salto em seu tapete voador fabricado em Ashgabat. A única coisa que ele falou que eu entendi foi seu nome. Depois passou o resto da noite contando piadas na língua dele e rindo da minha cara. Eu não entendia nada, mas ele ria tanto que eu ria também sem saber por que. O tapete era ridículo. Tinha ursinhos rosas estampados e uma etiqueta enorme onde se lia "Made in Ashgabat". Era tudo tão ridículo que não havia sentido em fazer outra coisa a não ser rir. Quando eu já não aguentava mais de tanto rir, Mustafá falou alguma coisa, fez umas caretas grotescas e me empurrou violentamente. Pude ouvir suas gargalhadas histéricas enquanto eu caia das alturas a espatifar-me nas areias do deserto. Doeu horrores. Fiz fumacinha que nem o coiote. Morri rindo, com a cabeça estourada e sem mandíbula. Tudo era uma grande piada.

Acordei algum tempo depois em outras terras com o Sol queimando a pele do meu rosto. Foi demais para uma noite. Tive uma crise de riso tão intensa que quase morri de asfixia. Passei o resto do dia rindo à toa, como um louco.

Acho que na noite passada corri um grande risco de levar a vida a sério, mas fui salvo por um tal de Mustafá Smith em seu tapete de ursinhos rosas.

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5.9.06

Frio


O ar está frio. O espaço é silêncio. O que um dia tinha cores vivas está a tornar-se pálido, comum. Perdeu-se o hábito de buscar novos ângulos desconhecidos. Na fria calmaria, as falhas vieram à tona, repetindo-se em tons irritantes. O amor exposto à dura realidade da razão tornou-se ridículo. Não tinha mais graça. Todas as fantasias, quando expostas, revelaram-se absurdas. A paciência esgotou-se com os truques do mágico, que, diante de tais olhos não mais surpreende. Seu mundo revelou ser apenas um palco vazio, comum, com manchas e rachaduras, como qualquer outro palco. O castelo era apenas a ruína de um casebre de taipa e o riso imaginário era apenas vento. O que um dia pulsava e aquecia, petrifica-se e volta a ser estátua, de gelo opaco. Se não acordar a tempo, derreterá no próximo Sol, até evaporar, tornando-se nada, espalhando-se pelo todo até o esquecimento.

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23.5.06

Encontro ao por do Sol



Havia neblina, mas era da imagem pois era como sonho. Foi num domingo à tarde (essas coisas sempre acontecem num domingo à tarde.) Eu estava dentro do ônibus. Eu conseguia vê-la esperando no segundo andar da plataforma, na sacada. Ela ficou lá em pé uns cinco minutos antes de ir embora. Não sei no que ela estava pensando. Ela olhava para o nada. Eu estava partindo, mas logo nos viríamos novamente. No entanto, ela estava lá esperando o ônibus partir, e aquele olhar eu nunca esqueci.

Anos depois ela partiu para sempre, ou fomos nós que partimos um do outro. O mundo nos afastou e hoje ela existe apenas na minha memória.

- Eu lembro desse dia.

- Sério?

- Sim. Eu não sabia se ia vê-lo de novo. Era como um sonho bom quando chega a hora de acordar. Eu não queria esquecer, não queria acordar.

Ela falava, mas eu não a via. Ela estava do meu lado e contemplávamos o Mediterrâneo que nunca vi. Eu apenas sentia a sua presença ao meu lado. Eu falava para o mar como se não houvesse ninguém ali, como se ela fosse a brisa.

- Você não veio, não é? Você não conhece?

- Não. Nunca fiz a viagem.

- Era seu sonho. Você devia fazer. Até brigamos por causa disso!

- Vou fazer.

- Este mar azul é lindo não é?

- É. Ainda vou vê-lo e lembrarei de você, quando vier.

As crianças estavam brincando n