"No meio do caminho desta vida"
por Carlos Eduardo O. Berriel
Banido de Florença em 1302, o autor da Divina Comédia, livro central na literatura em língua italiana, permaneceu para sempre no exílio, condição que ampliou os limites de sua obra e imprimiu a sua poesia a marca da universalidade.
A prudência nos avisa: a documentação sobre a vida de Dante é escassa - pouco se sabe sobre ela - e este pouco é extraído em grande parte de sua própria obra, principalmente da Vita nuova e da Commedia, e em menor escala da fama precoce que o poeta adquiriu. A maior parte das informações sobre sua educação, a sua família e suas opiniões são de maneira geral meras suposições.
Não chegou até nós nenhum manuscrito que lhe tenha pertencido, nenhum livro de sua biblioteca, nenhum texto escrito por sua mão, nem mesmo uma assinatura. Isso em parte vem do fato de Dante ter passado metade de sua vida exilado, em condições precárias, quase na indigência. As especulações sobre a sua vida deram origem a vários mitos que foram difundidos por seus primeiros biógrafos, dificultando o trabalho de separar o fato da ficção. Quando falou de si, Dante sempre optou por generalidades ou por indícios propositadamente obscuros, e que colocam em relevo elementos úteis para o ambiente histórico no qual escrevia.
A parte que conhecemos bem da história de Dante é aquela que se entrelaça com os acontecimentos públicos, principalmente políticos, de sua época. Sabemos que nasceu em Florença, sob o signo de Gêmeos, em algum dia entre 14 de maio e 13 de junho (a Itália dedica-lhe o 22 de maio) de 1265, na casa de Alaghiero degli Alighieri, uma família da baixa nobreza, em San Marino de Vescovo. Sua família vivia dos rendimentos de bens imóveis e do empréstimo de dinheiro, gravitando na área das atividades mercantis de Florença.
Nada sabemos de concreto quanto a sua infância, mas há segurança quanto à data do seu batismo: 26 de março de 1266.
Recebeu o nome de Durante, depois abreviado. Sua mãe, Bella, morreu quando ele ainda era criança, entre 1270-1278. Mas há completo silêncio sobre isso. É possível que Dante tenha posto em prática, aqui, uma exigência retórica: o poeta deve calar sobre seus parentes próximos. Seu pai casou-se novamente quando Dante tinha 18 anos, e deduz-se que o jovem manteve boas relações com a madrasta.
FORMAÇÃO E VIDA NOVA
A educação de Dante foi certamente recebida de um doctor puerorum, uma instrução elementar de gramática, com leituras de Cícero - adequada a um jovem de seu padrão social. O poeta teve forte influência dos trabalhos de retórica e filosofia de Brunetto Latini, que ele no "Inferno" recorda pelos ensinamentos recebidos. Latini foi escritor em língua d'oïl e em toscano (escrevia em dialeto toscano e não em latim, a língua culta da época), típico intelectual da Comuna, típico mediador entre a cultura transalpina e a italiana. No início de sua vida intelectual, Dante se beneficiou também da amizade com o poeta Guido Cavalcanti, considerado seu melhor amigo, e sabemos que esta amizade foi alimentada por razões intelectuais e que haveria depois uma ruptura pessoal, por motivos políticos. Guido Cavalcanti não aparece diretamente na Commedia, mas sua figura é evocada algumas vezes.
É possível que Dante tenha estudado na Universidade de Bolonha, onde esteve por seis meses em 1287. De lá, traria a influência do dolce stil nuovo, do qual será um nome principal.
Podemos datar de 1284 o início de suas atividades poéticas, que de modo geral serão incluídas na Vita nuova, seu primeiro trabalho literário de importância, iniciado pouco depois da morte de Bice da Folco Portinari, eternizada como Beatriz. Dante narra a história do seu amor idealizado na forma de sonetos e canções, complementados por comentários em prosa. Ele encontra Beatriz pela primeira vez quando ambos tinham 9 anos, em 1274 ("Nove fiate già appresso lo mio nascimento...") e só voltaria a vê-la outros nove anos mais tarde, em 1283.
Desde os 12 anos, Dante sabia que deveria se casar com uma moça da família Donati, já que, por costume, o casamento era decidido principalmente por alianças políticas entre famílias. A própria Beatriz casou-se em 1287 com o banqueiro Simonei dei Bardi. Provavelmente em 1295, Dante casou-se com Gemma Donati, com quem teve pelo menos três filhos. Uma filha de Dante tornou-se freira e foi batizada com o nome de Beatriz. Em 9 de setembro de 1290, no nono dia do nono mês da nona década do século, segundo a versão poética, mas provavelmente em 8 ou 19 de junho, a musa Beatriz morreu repentinamente, deixando Dante inconsolável. Esse acontecimento provocou uma mudança radical na sua vida, levando-o a iniciar estudos intensivos das obras filosóficas de Aristóteles e dedicar-se à arte poética.
No período florentino, a experiência de Dante escritor é caracterizada fundamentalmente pelo uso do idioma vulgar e pela escolha do gênero lírico, ou melhor, pela pesquisa, no vulgar, de um estilo adequado aos temas da poesia lírica; poesia d'amore, segundo a tradição cortesã. A Vita nuova representa o momento de uma seleção, temática e de estilo, muito compacta e coerente. As outras poesias pertencem, ao contrário, a um arco de tempo mais amplo, de diversas circunstâncias, em momentos diversos da vida e dos interesses de Dante, e mostram, com grande variedade de modos expressivos e de argumentos, sua forte propensão ao experimentalismo. Por outro lado, a obra Fiori (se de fato é sua) mostra a familiaridade de Dante com a literatura em língua d'oïl e a sua informação sobre aquelas correntes do aristotelismo radical (chamado averroísmo, que recolhia de Aristóteles inclusive as proposições avessas à ortodoxia católica).
Não existe nenhum documento que prove que Dante tenha estado em Paris, grande centro desses debates. Também não sabemos por quanto tempo esteve em Bolonha, nem com que finalidade. Sabemos com certeza que sua viagem além túmulo descrita na Commedia, ocorreu na Semana Santa de 1300, quando Dante tinha 35 anos - no meio do caminho da vida. Dentro de cada uma das duas fases da biografia de Dante - antes e depois do exílio, em 1302 - existem períodos claramente identificáveis. No período florentino ocorre uma mudança em torno de 1290: é o ano no qual ele coloca a morte da mulher celebrada como Beatriz na Vita nuova e, em decorrência, dá início à busca de consolação pelo aprofundamento dos estudos filosóficos. Dante freqüentou em Florença, provavelmente, as aulas de filosofia e teologia no Studio dos franciscanos, no convento de Santa Croce, e nos agostinianos do Santo Espírito, aulas abertas também aos leigos. Este é o momento em que aparecem os primeiros sinais da sua atividade política, que se tornou dominante nos anos seguintes, após 1295, quando uma revisão dos ordenamentos da cidade lhe deu acesso a todas as instituições públicas.
GUELFOS E GIBELINOS
A Itália no tempo de Dante estava dividida entre dois poderes: o do papa e o poder do Sacro Império Romano, que compreendia basicamente a região que hoje constitui a Alemanha. O norte italiano era predominantemente alinhado com o imperador, e o centro, incluindo Roma, naturalmente com o papa. A Itália, porém, não era um Estado coeso, assemelhando-se mais a um tabuleiro de xadrez de acordos circunstanciais, em constante mutação. Não havia um centro de poder unificado, mas vários centros, distribuídos pelas cidades-Estados autônomas. A política era dominantemente oligárquica, atendendo aos interesses das famílias mais poderosas. Florença era, na época, uma das mais importantes cidades da Europa, equivalente em tamanho e importância a Paris, com uma população em torno de 100 mil habitantes e interesses financeiros e comerciais espalhados por toda a Europa.
A Florença de Dante era governada pelos gibelinos, partido que representava a posição de alta nobreza e do poder imperial, que haviam tomado a cidade dos guelfos - que, por sua vez, reuniam a baixa nobreza e o clero - na sangrenta batalha de Montaperti, em 1260. Os nomes dos dois grupos eram oriundos de partidos alemães.
A família de Dante pertencia ao guelfo, e como a filiação era hereditária, em 1289 Dante lutou com o exército guelfo de Florença na batalha de Campaldino, da qual participou como combatente a cavalo, quando os florentinos venceram os exércitos gibelinos de Pisa e Arezzo, e recuperaram a hegemonia sobre a cidade.
O governo da cidade era exercido por representantes eleitos pelas guildas, que eram corporações de operários, artesãos e profissionais. Dante se inscreveu na guilda dos médicos e farmacêuticos e disputou as eleições em Florença em 1296, vindo a fazer parte do Conselho dos Cem. Depois, em 1300, foi eleito um dos seis priores (presidentes) do Conselho da Cidade para o bimestre 15 de junho - 15 de agosto.
A maior parte do poder em Florença estava então nas mãos dos guelfos - opositores do poder imperial. Mas o partido em pouco tempo se dividiu em duas facções. A causa foi uma rixa entre famílias, oriundas da cidade de Pistóia. Os Cancellieri eram uma grande família dessa cidade, descendentes de um mesmo pai que tivera, durante sua vida, duas esposas. A família Cancellieri se dividiu quando um membro desajustado da família assassinou o tio e cortou a mão do primo. Os descendentes da primeira esposa de Cancellieri, que se chamava Bianca, decidiram chamar a si mesmos de Bianchi. Os rivais, que defendiam o jovem assassino, passaram a se identificar como Neri (negros), em espírito de oposição. O conflito tomou conta de Pistóia, e a cidade acabou sofrendo a intervenção de Florença, que prendeu os líderes dos grupos rivais. Mas as famílias de Florença não demoraram a tomar partido, posicionamento deflagrado por uma briga de rua.
O episódio, fortuito, deu-se quando um membro da família Buondelmonti não honrou a promessa de casamento com uma jovem da família Amadei, e foi assassinado. As famílias da cidade aderiram a um lado ou ao outro, e Florença viu-se dividida em facções mortalmente inimigas. A divisão se espalhou pela cidade, dividindo os guelfos florentinos, igualmente, em negros e brancos. Depois de criados, os partidos assumiram posições políticas: os guelfos brancos, moderados, respeitavam o papado, mas se opunham a sua interferência na política da cidade; já os guelfos negros, mais radicais, defendiam o apoio ao papa contra as ambições do imperador, que era apoiado pelos gibelinos.
A briga entre os negros e brancos tornou-se cada vez mais intensa durante o mandato de Dante, até que, em 24 de junho de 1301, os priores deliberam exilar oito expoentes representativos de cada uma das frações. Dante foi extremamente imparcial incluindo, entre os exilados, um dos seus melhores amigos, Guido Cavalcanti, e um parente de sua esposa (da família Donati).
Os priores de Florença (entre eles Dante) viviam em constante atrito com a igreja de Roma que, sob o governo do papa Bonifácio VIII, pretendia colocar toda a Itália sob a ditadura da Igreja. O cardeal Matteo Acquasparta, delegado pontifício em Florença, requereu plenos poderes na cidade, que os priores evidentemente não lhe concederam. O primeiro abandonou a cidade, lançando contra ela um ameaçador interdito. Em novembro, foi enviada uma embaixada ao papa Bonifácio VIII para pedir a revogação da resolução: Dante integrou a comitiva e foi, provavelmente, o chefe da embaixada. Em um dos encontros, o papa Bonifácio VIII respondeu ameaçando-os com a excomunhão.
Durante o conflito entre os guelfos de Florença, o papa decidiu enviar Carlos de Valois (irmão do rei Felipe da França) como pacificador entre as facções. A suposta ajuda, porém, revelou-se um golpe dos negros para tomar o poder. Eles ocuparam o governo de Florença e condenaram vários brancos ao exílio e à morte. Na primeira metade de janeiro de 1302, Dante, ainda ausente de Florença - e cuja casa tinha sido saqueada -, foi julgado culpado, sem provas, de várias acusações, entre as quais corrupção, improbidade administrativa e oposição ao papa, sendo banido da cidade por dois anos e condenado a pagar uma multa de 50 mil florins em três dias, a dois anos de confinamento e à interdição perpétua nos cargos públicos. Não tendo pago a multa, em 10 de março foi ordenado o confisco de seus bens e Dante, condenado a ser queimado vivo.
A partir de 1303 os brancos exilados fazem algumas tentativas de retorno à cidade: a participação de Dante é relutante, e na segunda metade do ano ele se separa dos companheiros, iniciando um exílio que durará o resto de sua vida. Inicialmente encontrou hospitalidade em Verona junto a Bartolomeo della Scala, duque de Milão e senhor da cidade. Entre 1304 e 1306 estará em Treviso, junto a Gherardo da Camino, em Pádua, e talvez em Veneza. Na sofrida trajetória do exílio, Dante esteve ainda em Forlì, Arezzo, Lucca, Pádua, e provavelmente em Paris e Bolonha.
A vida de Dante está claramente repartida em 1302, quando se envolveu na ruína política dos brancos e, em decorrência, jamais retornou a Florença. Existe um Dante florentino até os 37 anos, e depois, dos 37 aos 56, um Dante exilado, que se desloca de cidade em cidade, mais e mais se distancia de Florença, estando quase sempre na região Valpadana. A diferença entre os dois períodos é importante para sua figura profissional e sua relação com as instituições: antes do exílio Dante encarna o tipo do intelectual da Comuna, um tipo do Duecento, que resume em si as duas facetas, tanto da atividade literária quanto da política. No exílio, inaugura um outro gênero de relação, que duraria séculos, entre os literatos e a política. Não apenas perde o contato com uma municipalidade específica e se transforma, de cidadão da comuna, em homem solitário e desprovido de tudo, em busca de hospitalidade junto às famílias senhoriais: ele continua a se ocupar de política ativamente e no modo próprio de um intelectual (com funções de conselheiro e observador, escrevendo epístolas, elaborando teorias) que, no entanto, coloca as suas competências a serviço de outros. Muda a posição de Dante e muda o destinatário de suas obras. Naquelas compostas antes do exílio, Dante tem em mente um ambiente restrito e preciso e um círculo de leitores que conhece bem e que são seus semelhantes, literatos e amigos a quem muitas vezes se dirige explicitamente.
No exílio a mensagem aos leitores vem sobrecarregada de uma dolorosa intensidade. Dante não cessou nunca de escrever para os florentinos, esperando ser chamado de volta à cidade graças ao prestígio adquirido. Porém, o público ao qual agora ele se dirigia perdera as conotações familiares e comunitárias. A realidade definida tornou-se uma área a ser definida, o interlocutor precisa ser identificado a cada momento, a cada obra. O leitor ao qual Dante se dirige na Commedia parece coincidir com o ser humano de todos os lugares e de todos os tempos.
A OBRA
Da obra de Dante pertencem à fase florentina a Vita nuova (1292-1294) e várias poesias líricas mantidas fora deste libreto, algumas de autoria questionável. Pertencem à fase do exílio as demais obras: nos primeiros anos foram dois tratados, escritos em latim, que ficaram incompletos: Convivio no qual pretendia resumir todo o conhecimento da época em 15 livros, dos quais apenas os quatros primeiros foram concluídos, e De vulgari eloquentia, no qual defende a língua italiana. Escreveu ainda um tratado completo e de tema político: Monarchia, onde defende a total separação entre a Igreja e o Estado. Escreveu várias epístolas, alguns textos breves, e a obra maior, a Commedia, que consumiu 14 anos de esforços e em cuja composição trabalhou até a sua morte, em 1321, ocorrida pouco após a conclusão do "Paradiso".
As poesias líricas, denominadas Rime, parecem quase formar uma lembrança, uma ponte entre as duas fases. Foram compostas em grande parte na época florentina e algumas, de grande labor, nos primeiros anos do exílio.
Também dentro do período do exílio é preciso assinalar pelo menos uma data de ruptura. Nos primeiros anos, Dante mantém contato com outros exilados, que tentavam retornar à cidade por todos os meios, políticos e militares. Em 1304, porém, ele já havia desistido. No verão daquele ano, houve um confronto sangrento, chamado "della Lastra", no qual os brancos aliados aos expatriados gibelinos foram derrotados. Dante preferiu o isolamento, e o declarou e justificou concentrando-se na composição de sua obra. Da sua vida durante o exílio muito permanece obscuro (como pôde se manter durante os primeiros duríssimos anos?), mesmo conhecidos os nomes de cidades e senhores que o hospedaram. Aparecem entre estes o de Cangrande della Scala, de Verona, e o de Guido Novello da Polenta, de Ravenna, disso resultando que ele tivesse, quando compunha o "Paradiso" (1319-20), um círculo de amigos e leitores.
Dante apoiou apaixonadamente, durante o exílio, Henrique VII, conde de Luxemburgo, eleito imperador da Alemanha em 1308, e que tentou restaurar na Itália a autoridade do Império Romano Germânico. Em 1311 endereça uma epístola aos "celeradíssimos florentinos de dentro" e uma ao imperador, na qual celebra a missão de justiça do monarca, exortando-o a marchar contra Florença. Dedica-se provavelmente nestes anos à composição da Monarchia.
Nesse mesmo ano Henrique VII invadiu a Itália com um pequeno exército, para fazer-se coroar em Roma; entretanto, morreu inesperadamente em 1313, deixando a realização do plano incompleto.
As esperanças de Dante de voltar a Florença haviam retornado depois que o sucessor de Bonifácio VIII chamara à Itália o imperador Henrique VII. O objetivo deste era reunir a Itália sob seu reinado. Porém a traição do papa, que ainda alimentava a idéia de ter um império próprio, seguida por uma nova vitória dos negros, e a morte de Henrique VII, três anos mais tarde, sepultaram de vez as suas esperanças.
O PENSAMENTO DANTESCO
No conjunto de sua obra encontramos todos os temas que eram então urgentes na cultura: as teorias do amor e as teorias políticas, a questão da língua, as novas filosofias e o seu encontro com o modelo sacro do mundo. Sobre cada um destes problemas Dante tratou mais de uma vez, no espaço de anos, com reflexões, revisões e transformações, às vezes profundas. O seu pensamento não é original, mas eclético. Dante não criou uma filosofia nova. Ele possui a formação típica de seu tempo, fundada sobre uma base de cultura religiosa e clássica, esta última, sobretudo, através de obras e compilações da antiguidade tardia. Mas Dante utiliza habilmente várias tendências e vários sistemas filosóficos: o aristotelismo, tanto na expressão ortodoxa de Tomás de Aquino e de Alberto Magno como na versão radical dos mestres de Paris, Sigieri de Brabante e Boécio de Dácia; o pensamento místico de franciscanos como Boaventura de Bagnoregio; a atitude visionária e profética de Joaquim de Fiore.
0S ÚLTIMOS ANOS
Como vimos, foi no exílio que Dante compôs a maior parte de sua obra. Em 1309 termina a composição do "Inferno". Inicia três anos depois, em 1312, o "Purgatório", concluído em 1313. É o momento em que retorna, junto a Cangrande della Scala, a Verona, onde ficará até 1319 ou 1320. Essa é a cidade onde, afinal, Dante escreve a maior parte da Commedia. Em 1314 dirige uma epístola aos cardeais italianos reunidos em conclave após a morte de Clemente V, exortando-os a eleger um pontífice que reconduzisse a Roma a sede da cristandade (que desde 1309 estava em Avignon, na França, e lá ficaria até 1417). Cinco anos antes de sua morte, em 1315, foi convidado pelo governo de Florença a retornar à cidade. Mas os termos impostos eram humilhantes, semelhantes àqueles reservados a criminosos perdoados, e Dante rejeitou o convite, respondendo que só retornaria se recebesse a honra e dignidade que merecia. Neste mesmo ano, 1315, voltou a Verona, e dois anos depois se fixou em Ravenna.
Em 1321, durante o verão, fez parte de uma embaixada enviada a Veneza por seu protetor Guido Novello. Adoece durante a viagem, provavelmente de malária. Morre em 13 ou 14 de setembro, aos 56 anos, próximo a Ravenna, onde foi sepultado com honras. Fizeram-lhe uma máscara mortuária em gesso, hoje no Palazzo Vecchio de Florença, de modo que sabemos com fidelidade como era seu rosto: digno, austero, concentrado, elevado. Inesquecível.
Durante séculos, depois da sua morte, os florentinos procuraram apoderar-se dos seus restos mortais. Construíram-lhe um nobre túmulo na igreja de Santa Croce, onde repousam Galileu, Michelangelo e Maquiavel, entre tantos outros. Mas os cidadãos de Ravena não aceitam que Florença, que não o quisera vivo, possa tê-lo depois da morte. O túmulo de Santa Croce está vazio, silencioso, eternizando a relação de Dante com sua cidade.
CARLOS EDUARDO O. BERRIEL é professor de teoria literária da Unicamp, editor da revista Morus - Renascimento e Utopia, e coordenador de um grupo de estudos sobre pensamento utópico. Atualmente organiza uma antologia de utopias italianas do Renascimento.