A última aula

(A voz é opcional. Só o professor ouve e reage a ela. Ninguém mais ouve, nem quem assiste.)
(VOZ – Por que você não presta atenção ao que estou dizendo?)
PROFESSOR – Estou dando aula, você não está vendo?
(VOZ – Eu sou o vazio que está dentro de você. Eu sei tudo, sei o que você vai querer. Eu sou o seu querer.)
ALUNA – Professor, eu não entendi nada. Para que serve esse troço?
PROFESSOR – Você tem que mandar a cabeça separada do corpo, e no destino, os dois se encontrarão.
ALUNO – Para que diabos serve isto? Nós não estamos na Lua. Isto não vai voar, tampouco vai girar.
PROFESSOR – Girar vai. Leia direito a questão.
(VOZ – Preste atenção e me ouça.)
PROFESSOR – Me deixe em paz, por favor, já me bastam os alunos.
ALUNA – O que você disse, professor?
PROFESSOR – Nada, eu estava falando com o nada.
(VOZ – Eu sou o nada, mas se eu morrer, você será o nada. Eu sou você, eu sou seu vazio, mas eu estou fora, e vejo tudo. Eu sou sua existência.)
PROFESSOR – Olhe pessoal, estas duas têm que girar. Vocês têm que recortar igual. As setas precisam apontar para fora.
ALUNA – Professor, e o terceiro?
PROFESSOR – Eu já disse. A cabeça...
ALUNA – Eu sei, mas não consigo. Não é para aparecer em cima do sexo?
PROFESSOR – Não era para ter sexo, como você conseguiu isto?
ALUNO – Ela só pensa em sexo.
PROFESSOR – Você trocou os exercícios. Era para usar apenas os que eu indiquei.
(VOZ – Escute aqui, professor, você vai morrer hoje.)
PROFESSOR – Eu devia ter tomado os remédios...
(VOZ – Eu quero que você saiba. Vai estourar uma artéria no seu cérebro, à noite, no meio da peça, e você vai morrer.)
PROFESSOR – Tudo bem, eu não vou para peça alguma.
ALUNA – Professor, você vai ver minha peça?
PROFESSOR – Quando é?
ALUNA – Hoje a noite. É de graça.
PROFESSOR – Bem... eu não sei...
ALUNA – Ah, professor... o que você vai fazer hoje a noite? É curtinha. Pôxa... todo mundo vai.
PROFESSOR – Vou pensar.
ALUNO – Olhe aqui, eu não consegui fazer. Esse exercício não tem pé nem cabeça. Quem elaborou essa merda?
PROFESSOR – Venha cá por favor.
ALUNO – Como?
PROFESSOR – Venha cá! Vou lhe explicar.
ALUNO – Tudo bem.
PROFESSOR – Eu vou falar baixo e você vai me entender. Essa merda foi criada no início dos tempos. Foi criada por ele. E eu, sou o filho da mãe que achou que valia a pena ensinar como funciona, entendeu? Se você não quiser aprender, não tem problema. Faça do jeito que você quiser, mas eu vou logo avisando que a lei da gravidade provavelmente está certa.
ALUNO – Cara grosso.
PROFESSOR – Vá com calma.
ALUNO – Grosso! Quem contratou esse cara?
PROFESSOR – Pronto, começou!
(VOZ – Já começou há séculos e você não percebeu, mas hoje é seu último dia, então curta sua existência breve.)
PROFESSOR – Me deixe em paz! Droga!... Já me bastam os alunos!
ALUNA – Professor, você está bem?
PROFESSOR – Sim, desculpe.
ALUNA – Com quem você está falando, professor?
ALUNO – Ele é louco. Ouve vozes e fala sozinho.
ALUNO – É um grosso. Eu não sei fazer esse troço. Mandei duas cabeças e não chegou nenhum corpo.
ALUNA – Professor, está girando! Ih... está caindo... apagou.
(VOZ – Você vai me ouvir agora. Eu preciso que você tome uma decisão. É para o nosso bem. Você precisa sobreviver... )
PROFESSOR – Como assim... eu não ia morrer? O que foi, mudou de idéia?
ALUNA – Quem vai morrer professor?
(VOZ – Não sou eu quem decide. É você. Morrer é uma escolha. Você pode escolher outro caminho. Se você não me ouvir, você vai morrer... )
ALUNO – Professor! Não está funcionando. As letras estão sumindo. Vou embora.
ALUNO – Ele é uma cópia; só pode ser. Um clone.
PROFESSOR – Ninguém vai embora. Ainda faltam vinte minutos.
(VOZ – Daqui a alguns minutos você não terá mais volta. As letras vão acabar.)
PROFESSOR – Me deixe em paz, por favor.
ALUNO – Ele está falando sozinho.
ALUNA – Acho melhor irmos embora.
PROFESSOR – Ninguém sai! Volte para o seu lugar, agora! E você, sente-se! Agora!
ALUNA – Nossa... o que deu nele?
PROFESSOR – Cale a boca!
ALUNO – Está tremendo... acho que vai surtar.
(VOZ – Agora feche a porta e desligue a luz.)
PROFESSOR – Eu não vou fazer isto. Você não existe. Me deixe.
(VOZ – Então faça como quiser. Termine a aula, vá para casa e morra na peça.)
PROFESSOR – Eu não vou para essa maldita peça!
ALUNA – Ai... desculpa, se soubesse não teria convidado, desculpa, não precisa ir.
PROFESSOR – Desculpe, eu não estava falando com você.
ALUNO – Ô... professor! Tudo bem que você tenha seus problemas, mas nós não temos nada a ver com isto. Se você não se sente bem, termine a aula e continuamos depois. O que vocês acham?
ALUNO – É, acho que é o melhor. O despertador parou de girar.
ALUNO – Então vamos.
ALUNA – Sim.
PROFESSOR – Não! Ninguém vai sair daqui!
ALUNA – Ai... estou com medo.
ALUNO – Quem é esse cara? Eu vou sair e quero ver alguém me impedir. Sai do meio. Eu quero passar... Que é isso, meu?... Você é louco? Calma aí... eu volto, calma...
ALUNA – Ai... ai...
ALUNO – Ele surtou. É um psicopata. Vamos embora que o relógio parou.
ALUNA – Ele vai nos matar.
PROFESSOR – Silêncio! Eu não vou matar ninguém. Ainda faltam dez minutos para terminar. Nós vamos ficar aqui, em silêncio até passar esses dez minutos, certo? Eu vou apagar a luz. Não quero ouvir um pio. Quando terminar, eu abro os olhos e vocês poderão acordar.
ALUNA – Ai... tenho medo do escuro.
PROFESSOR – Silêncio! E você fique sentado. Vou ficar na porta. Se alguém tentar passar, não vai conseguir.
ALUNO – Você vai me matar?
PROFESSOR – Eu não vou deixar você passar.
ALUNO – Então vai me matar.
PROFESSOR – Interprete como quiser. Se ficar onde está nada vai acontecer. Acalme-se e durma.
ALUNO – Eu vou denunciar você ao conselho acadêmico, à polícia. Você é louco! Tem que ser internado. É um risco à sociedade. Você vai ser preso.
PROFESSOR – Silêncio!
ALUNO – Louco!
PROFESSOR – Cale a boca e fique onde está, em silêncio.
(Escuro.)
(VOZ – Está na hora.)
PROFESSOR – Eu sei.
(VOZ – Mas o que você está esperando? O despertador não vai tocar.)
PROFESSOR – Não consigo acordar.... abri os olhos e estou cego.
(VOZ – Os alunos estão saindo. Não deixe. Mate-os.)
ALUNOS – Mate-nos, professor.
PROFESSOR – O que está acontecendo? Por que estão saindo? Eu não estou vendo nada. Tirem-me daqui... Estou ficando tonto.
ALUNOS – Acorde, professor.
PROFESSOR – Minha cabeça! Devolva minha cabeça!
ALUNA – É para colocar em cima do sexo, professor?
ALUNO – Não, sua boba, é para fazer girar. Girar, entendeu?
PROFESSOR – Está girando. Está tudo girando.
ALUNA – Fique calmo. É só uma peça. Vai acabar logo, logo.
ALUNO – Você não recortou direito, foi isso. Duas cabeças com setas apontando para dentro. Nenhum corpo... tsc, tsc.
PROFESSOR – Minha cabeça vai explodir... que dor... Estou caindo.
ALUNO – A lei da gravidade provavelmente está certa. Você errou, professor.
ALUNA – Você fez o exercício errado, professor. As setas deviam ficar para fora.
ALUNA – Era uma peça tão curta, tão curtinha...
PROFESSOR – Quero acordar... me tirem daqui. Me ajudem, por favor.
ALUNA – Não há mais sonhos, professor. Parou de girar faz dez minutos.
PROFESSOR – Não estou vendo nada... não quero mais brincar.
ALUNA – Nunca ouve olhos. As setas, lembra? Tinha que ser para fora! Para fora!
ALUNA – A peça já terminou... não há mais nada para ver. Não há cabeça.
PROFESSOR – Então acorde-me, por favor... Não me deixe... Volte!... Para onde foram todos? Onde estou? Liberte-me, por favor... Me tirem daqui... agora!
ALUNO – As letras estão acabando.
PROFESSOR – Não me sinto, não me penso, não existo... Tenho que acordar... Onde está meu corpo?... não sinto minha mente. Quero sentir... pelo menos a dor! Me cortem!...
ALUNA – Acabou.
PROFESSOR – Eu quero acordar! Aaaaargh! Eu quero acordar! Eu quero existir!...
(Asfixia sem voz. Silêncio.)
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