Cinco, de Abbas Kiarostami

Um filme minimalista ao extremo, com um ritmo muito, mas muito lento. Se eu fosse escolher um filme para definir o Zen, seria este, pois é um daqueles filmes onde se compreende claramente o que ele quer expressar, desde que se desista de tentar entendê-lo racionalmente. Antes do início do filme (eram 23:45, e várias pessoas estavam no CineSESC desde o início da tarde) o diretor advertiu à platéia que não tentasse encontrar lógica no filme. "Relaxem" ele disse, "e se tiverem sono, fechem os olhos e durmam que eu não ficarei chateado."
Dedicado ao cineasta japonês Yasujiro Ozu, Cinco é um conjunto de cinco cenas longas (1h15 no total). As cenas foram feitas diante do Mar Cáspio, próximo da residência do diretor. Foi usada uma filmadora digital que, na maior parte dos filmes, permanece totalmente estática. As cenas, vistas objetivamente, parecem banais, mas a concentração que conseguem extrair do espectador realizam a mágica de transformá-las em histórias dramáticas. É como ler um livro que estimula a imaginação, ou ainda como mergulhar nas possibilidades de uma obra de arte abstrata. Cada filme é algo parecido com uma pintura. Não sei se seria a mesma coisa assistir em vídeo. A concentração total é fundamental para viver a experiência.
A primeira história retrata a saga e o "sofrimento" de um toco de madeira na sua luta contra as ondas do mar que quer levá-lo embora (eu não vou conseguir descrever isto objetivamente). O momento de maior tensão é quando o mar finalmente consegue quebrar o toco em duas partes. Uma parte flutua e vai embora, e ficamos na esperança de um reencontro. Perto do fim, ele reaparece, mas não volta mais e é levado pela correnteza.
A segunda história mostra pessoas que passam em um calçadão diante da praia. Vez ou outra passa uma pessoa, ora mais perto da câmera, ora mais distante. A sua chegada é antecipada por um ou dois pombos, que fogem apressados dos passantes (mas nunca chegam a voar). Num certo momento, um grupo de velhos se encontra e se reúnem para discutir. Não dá para ouvir o que eles dizem, tampouco ver qualquer expressão em seus rostos. No fim, eles vão embora, a cena fica vazia e começa a ficar menos nítida. Quando aves começam a aparecer ao longe, no céu, a cena vai terminando, muito lentamente enquanto o contraste diminui e o brilho aumenta.
A terceira história é uma história de amor e de muita preguiça. Inicialmente, vê-se umas manchas perto da praia. Depois de um tempo percebe-se que trata-se de uma matilha de cães. Uma das manchas, de pele malhada, deve ser a fêmea que está no cio. Em volta dela uns cinco machos. A cena é muito lenta e deve durar uns 20 minutos. Os cães estão com uma preguiça imensa. Vez ou outra um se levanta e muda de lado. Outro levanta-se, balança o rabo e fica do lado da fêmea. E depois um deles senta, depois outro senta, e ficam parados. Tudo sempre muito devagar. Num certo momento, a fêmea levanta-se e preguicosamente se afasta deles até deitar-se no lado esquerdo da tela. Pouco a pouco os cães vão se levantando, muito lentamente, e se agrupam pouco a pouco perto da fêmea. Não dá para perceber, mas a imagem vai ficando cada vez menos nítida. E de novo eles se levantam. E de novo outro balança o rabo. Tudo muito lento. No fim, a imagem já é quase branca e três manchas pretas imóveis descansam diante das ondas.
A quarta história é uma comédia. Primeiro, voltamos a ver a cena da praia, com o ruído das ondas quebrando na areia vazia. De repente, ouve-se um quac e eis que um pato surge do nada quebrando a tranquilidade da cena. Depois chega outro pato, andando calmamente para a direita. Depois passa mais um, correndo. Patos brancos, patos marrons, malhados, grandes, pequenos, de todos os tipos. Em pouco tempo centenas de patos estão passando em procissão, ora rápido ora lentos para a direita. Lá pela metade da cena, depois de muitos patos terem passado, eis que um pato pára, faz quac para o outro que vem atrás, que também pára. E então, começam a andar no outro sentido. E aí todos os outros patos surgem correndo no sentido contrário.
A última cena ocorre na escuridão total. Ouvimos sons de sapos, latidos ao longe, uivos e trovões distantes. Finalmente uma pequena mancha aparece. É o reflexo da lua na água. Parece ser uma lagoa. Pontinhos se movem e pulam de um lado para outro. É deles que vêm os sons. São sapos. Vários e diferentes coaxares são ouvidos. Uns parecem frágeis, como o som de um grilo. Outros soam mais agressivos, principalmente quando respondem ao som do mais frágil. Vez ou outra aparece um coaxar estranho que pare reclamar da vida. É muito engraçado. E assim prossegue a melodia da lagoa. De vez em quando os sapos se calam e ouvimos latidos de cachorros. Os trovões se aproximam. Ficam mais fortes. Chuva. Escuro total. Relâmpagos iluminam a chuva por um breve instante. Terminada a chuva, volta o reflexo da lua, das nuvens, dos sapos. Voltam os coaxares. Cães uivam e finalmente os galos começam a cantar. Já está amanhecendo e o filme termina com o céu azul refletindo na lagoa.
Vale a pena assistir este filme, se não pelo cinema, pelo menos como uma relaxante sessão de meditação.
Cinco, de Abbas Kiarostami, ainda será exibido na 28a. Mostra Internacional de Cinema de São Paulo no dia 04 de novembro, às 13h30, no Frei Caneca Unibanco Arteplex 2.
Marcadores: cinema

Gosto de Cereja (Palma de Ouro em Cannes, 1997) é sobre um homem vai se suicidar. Dirige seu carro na periferia de Teerã procurando alguém que esteja disposto a enterrá-lo, depois que ele estiver morto. Ele tem dinheiro e oferece a todos os que encontra, mas a maioria não aceita. Finalmente ele encontra um cientista disposto a ajudá-lo, mas que tenta convencê-lo a não se suicidar. O filme levanta questões interessantes sobre o direito ao suicídio, sobre a liberdade e a natureza da compaixão.
Eu não sei exatamente como descrever Dez sobre dez. Diria que é um documentário, um meta-filme - uma espécie de making-of de Dez, uma aula de cinema imperdível ministrada por um professor que inventou suas próprias teorias sobre o cinema. Como Dez, o filme inteiro ocorre no interior de um carro, e tem dez capítulos ou lições. Como Gosto de Cereja, viaja pelas estradas sinuosas da periferia de Teerã. No volante, o próprio Abbas Kiarostami é observado por uma câmera digital fixa, enquanto conversa com o passageiro (que é o espectador) mantendo sempre a atenção na estrada. Para mim o filme foi uma surpresa muito agradável, não só pelo formato original do documentário, mas pelas idéias geniais, senso de humor e opiniões estimulantes do cineasta iraniano. Terminado o filme, fiquei com vontade de comprar uma filmadora digital e começar a fazer uns experimentos cinematográficos.









Ragle Gumm vive com sua irmã, cunhado e sobrinho numa cidadezinha do interior dos Estados Unidos. O ano é 1959. Auge da guerra fria. O seu cunhado e sua irmã trabalham fora, e ele fica em casa o dia inteiro resolvendo quebra-cabeças de um concurso nacional de jornal. Ele vem ganhando um concurso atrás do outro há dois anos, e com os prêmios, contribui para a economia doméstica. Por causa do concurso, todos o reconhecem nas ruas. Veterano da segunda guerra mundial, ele vive uma vida tranqüila, apesar de ter alucinações ocasionais e ter se apaixonado pela esposa do vizinho. Mas um dia Ragle começa a entrar em crise existencial, a questionar o sentido da vida e outras coisas. Aprofunda-se em questões filosóficas. Procura significado nas alucinações. Começa a ficar paranóico e achar que o mundo inteiro está o observando. Um dia, depois de sintonizar um rádio feito pelo seu sobrinho e ouvir seu nome numa transmissão, conclui que está ficando louco. Decide então deixar o concurso de lado e fazer uma viagem para fora da cidade, quando descobre que não consegue, pois uma série de acontecimentos banais e aparentemente naturais (carros quebrados, rodoviária paralisada, fiscalização nas estradas) impedem que ele saia. As pessoas e as coisas não parecem mais reais. Os eventos parecem automáticos, mecânicos. Parece que todo o mundo gira em torno dele.












