Elvis e o centro da terra: parte V (final)
Esta é a quinta e última parte da história iniciada neste post.
Já era dia. Chovia bastante e o trânsito na Marginal Tietê estava infernal. O ônibus tinha saído da via expressa e estava reduzindo a velocidade como se fosse parar. Pela primeira vez pude prestar atenção e perceber os outros passageiros. Alguns conversavam. Outros riam. Era um ônibus normal. A viagem é que foi estranha.
Na poltrona ao lado, meu companheiro Elvis dormia com seus óculos escuros. Não, foi engano. Ele estava acordado e assim que ele percebeu que eu também estava não perdeu a oportunidade de falar primeiro.
- Que chuva, hein?
Permaneci uns minutos olhando para ele. Não sei se ele continuou falando. É bem provável que sim (ele não ficaria calado), mas não lembro o quê. Fiquei aliviado ao contemplar meu reflexo dos seus óculos escuros. Foi tudo apenas um terrível pesadelo. Por um instante senti-me feliz.
Mas não durou muito. Quando ele parou de falar e sorriu, lembrei-me de todas as coisas que aconteceram na noite anterior, e tive raiva. Antes que ele começasse a falar de novo eu manifestei minha raiva.
- Cretino.
- Como?
- Você é um cretino. Por que você fez isto, hein? Eu não disse que não queria seus óculos?
- Como assim? Não entendi.
- Ah, você entendeu sim! - levantei a voz. - Você pôs esses malditos óculos no meu rosto depois que eu peguei no sono! Não foi? Seu filho da mãe! Foi horrível! Uma das piores experiências de toda a minha vida! Nunca mais quero passar por isto.
Ele parecia assustado.
- Eu não!
- Olha aqui. Eu não sou idiota. Eu lembro das suas histórias. Fique longe de mim e não fale comigo, ouviu? Se você vier com conversa ou pior, com esses óculos para o meu lado de novo eu mato você, entendeu?
- Tudo bem, desculpe - ele gaguejou e baixou o rosto.
O ônibus finalmente parou e abriu a porta.
- E por que diabos esse ônibus parou? - perguntei.
- É a primeira parada. Ele também pára perto da rodoviária, na Barra Funda, na praça da República, ...
- Eu não perguntei a você! Estou falando sozinho. Eu vou descer aqui, agora. Com licença.
Eu me levantei aos tropeços, me espremendo entre ele a poltrona da frente. Desci do ônibus sem olhar para trás, paguei o motorista e esperei na chuva enquanto ele tirava a minha mala. Caminhei lentamente até o abrigo. Paranóico, esperei que o ônibus saísse sem tirar os olhos da porta. Precisava ter certeza que ele iria embora e que o dito-cujo não desembarcaria. Desceu apenas mais uma pessoa. Uma mulher. Não era o Elvis. O motorista entrou no ônibus, fechou a porta e deu partida. Esperei mais um pouco e fui atrás de um taxi. No caminho, a mulher segurou meu braço.
- Senhor, com licença.
Tive um susto. Ela continuou.
- O senhor deixou cair isto dentro do ônibus.
Estendi a mão direita e ela me deu um par de óculos escuros. Não eram meus. Eu não uso óculos escuros. Eu odeio óculos escuros. Mas não me importei. Aceitei. Ela sorriu e eu agradeci com um sorriso. Olhei para os óculos, abri, pus no rosto e entrei no táxi.
- Para onde vamos? – perguntou o motorista.
Eu pensei um pouco, sorri, e dei-lhe as instruções.
- Siga em frente, e não pare até acabar o asfalto. Chegando lá eu explico o resto do caminho.
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