24.11.06

Singularidades



Na manhã em que acordei sozinho fui despertado por um beijo gelado em meu rosto. Era o vento. A janela aberta agitava as cortinas como naqueles filmes de terror, iluminadas por uma luz suave ou sinistra (não sei) de um amanhecer lento, meio azulado, meio amarelado. Levantei-me para fechá-la quando percebi que não estava no meu quarto, pois na janela do meu quarto não há cortinas.

Não eram cortinas. Eu as toquei e elas se desfizeram. Pareciam de seda, mas ao tocá-las percebi que eram de algo pegajoso que se desmanchava como teia de aranha, como açúcar. As paredes me pareceram normais. Eram ásperas, frias e duras.

Finalmente eu encarei a paisagem. Um horizonte plano, imenso, amarelo em baixo e azul em cima. Era um azul meio pálido, assim como o amarelo era meio cinza ou marrom. A cena parecia fotografia com baixa saturação e lembrava pintura em aquarela. Mas não era estática. O vento assobiava em notas dissonantes e rabiscava desenhos na relva. Talvez fosse uma plantação de trigo (mas não sei se era trigo; eu não tenho certeza se sei com que se parece uma plantação de trigo.) As folhas não eram verdes. Eram meio amareladas, desbotadas.

Por alguns instantes, as folhas se mexendo pareciam multidões (de gente mesmo). Pareciam pessoas se deslocando de um lado para o outro, como numa praça de uma cidade grande. Era uma miragem, eu creio. Gente circulando sem parar como se fossem robôs. Era uma visão turva, às vezes transparente, meio névoa, porque quando eu parava para olhar com atenção eu via apenas um campo de folhas amarelas sendo agitadas pelo vento.

Fechei a janela porque não suportei a visão. Tudo parecia estranho demais. Voltei para a cama e deitei-me novamente. Procurei nos lençóis cheiros que não fossem meus, mesmo que imaginários e voltei a dormir na esperança que despertaria em um lugar menos deserto.

Acho que até dormi. Não estou certo. Só sei que acordei no mesmo lugar. Era tudo igual. As cortinas eram as mesmas e ainda estavam rasgadas. Era desanimador. Restou a porta, fechada, que ainda estimulava minha curiosidade. Não precisei de muita coragem para me levantar, girar a maçaneta e abri-la deixando entrar uma luz ofuscante. Quando abri os olhos lá estava ela: a mesma paisagem desbotada, azul, amarela, pálida, cinza, chata! Novamente eu estava sozinho num mundo familiar que eu não queria encontrar.

Sim, era familiar. Era o mesmo universo, sempre! A mesma casa, as mesmas paredes, os mesmos campos. Eu o conhecia. Sabia que se andasse o suficiente, de um lado eu encontraria o mar, e do outro, um penhasco. Conhecia os castelos, as ruínas, os jardins, as fontes, os rios, as árvores, os labirintos, as passagens secretas, as estrelas e as paisagens mágicas. Eu sabia exatamente onde estava e que eu poderia andar para sempre em qualquer direção e nunca encontraria outra alma viva naquele universo senão a minha. Eu estava preso dentro de mim. Era um pesadelo.

Então senti como se alguém me tocasse as costas; uma mão macia acariciando a minha nuca. Fechei os olhos e tentei tocar a mão que me acariciava, mas quando toquei ela derreteu. Não havia nada. Eram as cortinas me iludindo! Estendidas pelo quarto, ondulavam-se como luzes da aurora boreal, desenhando um mundo colorido. Nesse mundo eu a vi surgir no meio das luzes como em holograma.

Ah, mas não durou. Pelas costas, o vento me atingiu batendo a porta violentamente. A onda de choque trincou as cortinas como cristal, que fragmentou-se em milhões de pedacinhos junto com todas as ilusões. O pó que restou espalhou-se pelo chão, e quando abri novamente a porta o vento soprou tudo embora. Não havia mais ninguém (nunca houve, eu imagino), então eu fugi. Saí pela porta da frente para enfrentar a relva e tentar encontrar o sentido de tudo.

Encontrei. Foi um encontro inesperado. Caminhei por mais de uma hora até perceber, no meio do campo amarelado, a silhueta que surgira no horizonte. Eu sabia quem era. Era eu. Ansioso, eu corri na minha direção. Corremos. Mas quando cheguei perto eu parei, ou paramos, por um instante. Encontramo-nos ali, nós, a sós, eu e eu. Olhei, ou olhamos, sem coragem de tocar a visão narcisística. Mas certa hora o medo foi esquecido e me abracei sem pensar em mais nada. Foi um longo abraço. Eu e eu choramos juntos a nossa solidão em meio às multidões que balançavam ao vento, comemoramos juntos a nossa solidão em meio às plantações que recuperavam suas cores, brindamos juntos à nossa solidão rindo no meio das ilusões que se desfaziam, e a terra tremeu.

Começou com um tremor leve, mas logo a paisagem começou a se derreter e as cores tornaram-se mais saturadas. Senti que tornava-me o mundo, mas também que sempre fui o chão, o vento e o espaço. Enquanto estávamos eu e eu abraçados, nós, as plantações, fomos despertando aos poucos, acordamos nas cores saturadas e percebemo-nos vivas. Levantando-nos, corremos para também nos abraçar. Eu, todos nós, de todos os anos, de todos os minutos, de todos os segundos, de todos os lugares. Chegamos e partimos em espirais, girando como estrelas numa grande festa que durou por uma eternidade e que acelerava-se ansiosa pelo fim. Giramos eu e todos os eus na crescente curvatura de mim, este universo, até que um lado dos meus lados encontrou o outro – o mesmo, e o espaço que me define foi encolhendo, encolhendo, até consumir-se completamente, no silêncio do vácuo, numa autofagia urobórica.

Marcadores:

3 Comentário

escreveu...

11/24/2006 05:36:00 PM  
escreveu...

11/24/2006 05:39:00 PM  
escreveu...

11/24/2006 07:06:00 PM  

<< Voltar para a página principal