A máquina do tempo

- Fico imaginando. Se com meu beijo o sapo vira príncipe, e com outras coisas, no que será que ele se transforma?
- Acho que ele se transubstancializa em outra dimensão; acho que ele enxerga o infinito. Sabia que sapos vêem fótons individuais? Eles percebem quando o espaço encolhe, quando o tempo pára.
- O que é muito mais maravilhoso que ser príncipe.
- Croac!
***
- Será que existe uma máquina do tempo?
- Quando não há mais espaço entre nós o tempo pára de repente, por um instante apenas.
- É verdade. Quando o tempo pára as outras pessoas ficam minúsculas como grãos de poeira.
- Isso tem uma explicação física. A atração cresce de forma infinitesimal, a luz fica presa, a matéria some e o tempo pára. É a verdadeira máquina do tempo: um buraco negro que dilacera a matéria mas que faz tudo renascer em outro universo.
- E que mundo será esse que surge quando o espaço entre eu e você desaparece? Será que fica próximo a uma certa paisagem de cerejeiras?
- Sem dúvida. Lá existe um grande jardim de cerejeiras.
- Ao lado de um oceano lunar.
- Com um riacho que flui entre elas, de pedras polidas, de águas claras. É mesmo aquela paisagem de sonho que existe, que se deseja, da qual se sente falta, e que se só se alcança por breves instantes.
- Instantes que valem mais que muitos e muitos dias terrenos. No mundo das cerejeiras o tempo tem uma lógica própria.
- Sim. O lugar é como se fosse o próprio tempo, e se ele passa nós passamos juntos. É o espaço que fica para trás.
- É uma visão que não tem preço. É uma das coisas mais lindas que há no mundo.
- É outro mundo. As estrelas são outras.
***
- Mas como é se faz uma maquina do tempo?
- Pode ser com uma Sonata de Vênus?
- Sonata de Vênus?
- Preciso de um vinho. Você tem algum?
- Tem Merlot, Pinot Noir.
- Acho que eu tenho Syrrah e Malbec.
- E então.
- Eu faço assim, derramando um pouco nesta superfície quente e macia.
- Ui!
- Lentamente. É preciso deixar que escorra um pouco, pelos caminhos curvos. Prova-se com uma língua ávida, mas suavemente, lentamente, deixando que ele passe por lugares interessantes antes de saboreá-lo. Tem um sabor unico! Dizem que uma mistura do vinho com esses temperos e líquidos vivos tem o poder de parar o tempo por um instante.
- Eu acredito. Um instante tão breve que parece infinito. Não consigo pensar em mais nada.
- Também não. Apenas vejo os rios de vinho descendo o planalto na direção do monte, atravessando a selva, buscando o vale. Preciso controlar o fluxo das afluentes. Acho que uma mistura de merlot com syrrah e malbec ficará bem. Um no meio e dois nas laterais, para misturar melhor com as nascentes.
- Acho que o chão está tremendo.
- Sim. Eu também sinto. É o músico deslizando suas notas sobre os caminhos lisos. Ele é um barítono e precisa exercitar a língua. Os sons vibram em passadas transversais, ressoam em cortes diagonais, e de vez em quando silenciam em uns mergulhos verticais bastante profundos.
- Estou ficando tonta.
- Deve ser o vinho.
- Não. Deve ser o tempo.
- Ainda falta preparar a orquestra. Preciso sentir o território, inspecionar os instrumentos. Desço devagar e paro no alto do monte. Está ótimo. Agora deixo-me escorregar para um dos lados, fazendo pressão para não cair no solo liso.
- Eu que vou cair.
- O chão está mesmo vibrando. É isto. É o músico. Ele gira como um redemoinho até tornar-se onda. Lamberá as costas até inundar toda a selva rolando sobre suas praias úmidas, em um ritmo constante, como um pulso.
- Vai começar a música. Já sinto que ela se inicia.
- Sim. A princípio parecem notas tocadas em um piano. Mas não são ouvidas. São sentidas como dedos que fazem pressão suave em todas as teclas, formando acordes nas notas altas e arpejos nas notas baixas. Às vezes parecem violinos, esticando as cordas em pizzicatto ou sendo feridos com stacattos. Outras vezes arrastam-se escorregadios como legatos e gemem como se fossem rabecas.
- As palavras vão virar pontinhos.
- É o tempo que já desacelera, e se o tempo muda as freqüências mudam junto. Cada vez surge uma nova composição, ora harmônica, ora melódica, sempre espasmódica, que no auge será...
- Orgásmica!
- Mas ainda repetem. Da Capo Al Fine, Al Coda, Ad Infinitum. Por ora accellerando, depois ritardando, rallentando, a tempo em diferentes intensidades: piano, mezzo piano. Em ritmo de pulso, às vezes mazurca, às vezes valsa, às vezes ardendo num rock intenso. A crina passa arranhando as cordas com firmeza enquanto os dedos as apertam em vibrato. E assim cresce a melodia que entra em ressonância intensa e constante até o instante em que...
- ... o tempo pára!
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