Sobre o sentido da vida
Ontem eu estive em uma conferência muito séria. Como eu estava na platéia, e não em pé, defendendo pontos de vista, eu naturalmente adormeci, como sempre faço nas conferências. Na verdade, eu não lembro de ter ido à conferência, apenas lembro de ter acordado quando meu vizinho me cutucou, provavelmente porque eu estava roncando, embora eu tenha certeza que eu não ronco.
Eu demorei para perceber o tema da conferência, pois apesar de muito séria, os argumentos dos palestrantes me pareciam totalmente absurdos. Tinham uma lógica precisa, uma abordagem cuidadosa e tudo parecia claro, óbvio, perfeito, conseqüentemente absurdo.
Meu despertar foi lento, e a sala estava um tanto escura. Foi por isto que só algum tempo depois percebi que se tratava de um simpósio. Era o que estava escrito numa faixa que pendia da mesa que estava atrás do palestrante: XVII Simpósio Internacional sobre o Sentido da Vida. Era mesmo absurdo! Como é que se discute uma coisa dessas? Todos sabem que o sentido da vida é 42.
O próximo palestrante era o Paulo Betti. Concluí que só poderia estar tendo um pesadelo. Não sei o que ele estava fazendo ali, mas ele veio com uma tese interessantíssima: o sentido da vida é a Merda. Ele já havia, em outros fóruns, convincentemente demonstrado por argumentos filosóficos chauístas o papel importantíssimo da Merda na política e desenvolvimento das nações. Ele aparentemente foi convidado para desenvolver o seu argumento. Mas o que isto tem a ver com o sentido da vida? Ora, segundo o palestrante, toda a evolução da humanidade e das espécies visa unicamente à perpetuação dela: a Merda. É a principal fonte de vida e de energia. É ela quem nutre o solo, que nutre as plantas, que são comidas pelos animais, que são comidos pelos humanos, e que um dia irão fazer cocô em outros planetas e espalhar-se Universo. Mostrou que se o mundo parasse de fazer cocô, toda a civilização e a biosfera entrariam em colapso e a Terra viraria um deserto estéril. Através de complicadas equações matemáticas demonstrou sua tese de que era a Merda a misteriosa matéria escura cuja massa ocupa a maior parte do Universo, e o principal componente dos buracos negros que devoram as galáxias. Conseqüentemente, o Big Bang foi um gigantesco pum que espalhou os gases incandescentes e partículas fecais que formam todo o Universo conhecido. Em suma, enterrar as mãos na Merda é uma forma sublime de encontro com a divindade, com a essência primordial do Universo.
Eu não consegui assistir até o fim. Ele começou a viajar em digressões absurdas contrastando sua tese com as teorias do Rev. Dawkins e do Dr. Pangloss e eu cochilei. Tive pesadelos com lulas gigantes, porcos falantes e sanguessugas barbudas que me perseguiam. Fugi para a floresta. No meio do caminho, no fim da rua encontrei um precipício. Não tive dúvidas: pulei.
Fui salvo por um indiano de turbante rosa, hálito de alho, olhos enormes e um sorriso desdentado que se apresentou como Mustafá Smith. Ele por acaso passava no momento do meu salto em seu tapete voador fabricado em Ashgabat. A única coisa que ele falou que eu entendi foi seu nome. Depois passou o resto da noite contando piadas na língua dele e rindo da minha cara. Eu não entendia nada, mas ele ria tanto que eu ria também sem saber por que. O tapete era ridículo. Tinha ursinhos rosas estampados e uma etiqueta enorme onde se lia "Made in Ashgabat". Era tudo tão ridículo que não havia sentido em fazer outra coisa a não ser rir. Quando eu já não aguentava mais de tanto rir, Mustafá falou alguma coisa, fez umas caretas grotescas e me empurrou violentamente. Pude ouvir suas gargalhadas histéricas enquanto eu caia das alturas a espatifar-me nas areias do deserto. Doeu horrores. Fiz fumacinha que nem o coiote. Morri rindo, com a cabeça estourada e sem mandíbula. Tudo era uma grande piada.
Acordei algum tempo depois em outras terras com o Sol queimando a pele do meu rosto. Foi demais para uma noite. Tive uma crise de riso tão intensa que quase morri de asfixia. Passei o resto do dia rindo à toa, como um louco.
Acho que na noite passada corri um grande risco de levar a vida a sério, mas fui salvo por um tal de Mustafá Smith em seu tapete de ursinhos rosas.
Eu demorei para perceber o tema da conferência, pois apesar de muito séria, os argumentos dos palestrantes me pareciam totalmente absurdos. Tinham uma lógica precisa, uma abordagem cuidadosa e tudo parecia claro, óbvio, perfeito, conseqüentemente absurdo.
Meu despertar foi lento, e a sala estava um tanto escura. Foi por isto que só algum tempo depois percebi que se tratava de um simpósio. Era o que estava escrito numa faixa que pendia da mesa que estava atrás do palestrante: XVII Simpósio Internacional sobre o Sentido da Vida. Era mesmo absurdo! Como é que se discute uma coisa dessas? Todos sabem que o sentido da vida é 42.
O próximo palestrante era o Paulo Betti. Concluí que só poderia estar tendo um pesadelo. Não sei o que ele estava fazendo ali, mas ele veio com uma tese interessantíssima: o sentido da vida é a Merda. Ele já havia, em outros fóruns, convincentemente demonstrado por argumentos filosóficos chauístas o papel importantíssimo da Merda na política e desenvolvimento das nações. Ele aparentemente foi convidado para desenvolver o seu argumento. Mas o que isto tem a ver com o sentido da vida? Ora, segundo o palestrante, toda a evolução da humanidade e das espécies visa unicamente à perpetuação dela: a Merda. É a principal fonte de vida e de energia. É ela quem nutre o solo, que nutre as plantas, que são comidas pelos animais, que são comidos pelos humanos, e que um dia irão fazer cocô em outros planetas e espalhar-se Universo. Mostrou que se o mundo parasse de fazer cocô, toda a civilização e a biosfera entrariam em colapso e a Terra viraria um deserto estéril. Através de complicadas equações matemáticas demonstrou sua tese de que era a Merda a misteriosa matéria escura cuja massa ocupa a maior parte do Universo, e o principal componente dos buracos negros que devoram as galáxias. Conseqüentemente, o Big Bang foi um gigantesco pum que espalhou os gases incandescentes e partículas fecais que formam todo o Universo conhecido. Em suma, enterrar as mãos na Merda é uma forma sublime de encontro com a divindade, com a essência primordial do Universo.
Eu não consegui assistir até o fim. Ele começou a viajar em digressões absurdas contrastando sua tese com as teorias do Rev. Dawkins e do Dr. Pangloss e eu cochilei. Tive pesadelos com lulas gigantes, porcos falantes e sanguessugas barbudas que me perseguiam. Fugi para a floresta. No meio do caminho, no fim da rua encontrei um precipício. Não tive dúvidas: pulei.
Fui salvo por um indiano de turbante rosa, hálito de alho, olhos enormes e um sorriso desdentado que se apresentou como Mustafá Smith. Ele por acaso passava no momento do meu salto em seu tapete voador fabricado em Ashgabat. A única coisa que ele falou que eu entendi foi seu nome. Depois passou o resto da noite contando piadas na língua dele e rindo da minha cara. Eu não entendia nada, mas ele ria tanto que eu ria também sem saber por que. O tapete era ridículo. Tinha ursinhos rosas estampados e uma etiqueta enorme onde se lia "Made in Ashgabat". Era tudo tão ridículo que não havia sentido em fazer outra coisa a não ser rir. Quando eu já não aguentava mais de tanto rir, Mustafá falou alguma coisa, fez umas caretas grotescas e me empurrou violentamente. Pude ouvir suas gargalhadas histéricas enquanto eu caia das alturas a espatifar-me nas areias do deserto. Doeu horrores. Fiz fumacinha que nem o coiote. Morri rindo, com a cabeça estourada e sem mandíbula. Tudo era uma grande piada.
Acordei algum tempo depois em outras terras com o Sol queimando a pele do meu rosto. Foi demais para uma noite. Tive uma crise de riso tão intensa que quase morri de asfixia. Passei o resto do dia rindo à toa, como um louco.
Acho que na noite passada corri um grande risco de levar a vida a sério, mas fui salvo por um tal de Mustafá Smith em seu tapete de ursinhos rosas.
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