A dinastia dos Krupp, em Essen

A Família Krupp. Fonte: WikiPedia.
Ao pesquisar a história de Essen, uma das principais cidades da região do Ruhr, é impossível não se deparar com a presença constante da família Krupp. Não é por acaso. Os Krupp têm uma história de 400 anos na cidade e região e seus negócios na indústria do aço e armamentos tiveram impacto mundial. E é uma história fascinante. Essa família fez sua fortuna na indústria do aço, forneceu armamentos para quatro grandes guerras e adquiriu um poder de manipulação econômica e política que se estendeu além das fronteiras da Alemanha. Ao mesmo tempo, ajudou a desenvolver uma importante região da Alemanha e estabeleceu relações trabalhistas inovadoras para a época da revolução industrial.
Em Essen eu conheci dois lugares ligados à família Krupp: o bairro de Margarethenhöhe, construída por Margarethe Krupp em 1906 para abrigar 10 mil trabalhadores das indústrias Krupp, e a Villa Hügel - a mansão da família Krupp construída em 1873 e usada por três gerações da dinastia. Um pouco da história da família Krupp foi contada pelo guia em um dos passeios que fiz em Essen, mas descobri que há muito mais. Muitos detalhes, principalmente os relacionados com o envolvimento dos Krupp com o regime nazista, são pouco mencionados ou minimizados nas versões oficiais.
A parte mais interessante da história dos Krupp começa em 1811, quando Friedrich Krupp, aos 19 anos, assumiu uma pequena fundição da família que era administrada pela sua avó. Friedrich não administrou muito bem o negócio da família e em pouco tempo foi à falência, mas continuou a gastar o dinheiro que tinha à disposição.

Alfred Krupp (1812-87)
Alfred Krupp era amigo do imperador do Brasil, D. Pedro II, com quem se correspondia regularmente desde 1837. O imperador várias vezes foi hóspede na mansão dos Krupp em Essen, na Villa Hügel. A Krupp forneceu ao Brasil não apenas canhões, mas milhares de toneladas de trilhos e outros acessórios para a construção de ferrovias.
A empresa especializou-se na fabricação de armas. No final dos anos 1880, 50% da produção estava envolvida na fabricação de canhões para exportação. Alfred Krupp, conhecido no mundo como o Rei do Canhão, já era uma das figuras mais importantes da revolução industrial. Sua empresa, herdada do pai com pouco mais de 5 empregados, já empregava mais de 25 mil pessoas apenas em Essen. Era a maior empresa industrial do mundo.

Friedrich Krupp AG, em Essen, 1906. Foto: Deutsches Historisches Museum, Berlin
Na área social, Alfred também foi um inovador. Numa época em relações trabalhistas praticamente não existiam, construiu e subsidiou as residências para seus empregados e suas famílias. As vilas residenciais tinham parques, escolas e áreas de recreação. Também criou para os empregados um programa de seguro de saúde e aposentadoria.
Após a morte de Alfred, em 1887, seu único filho Friedrich Alfred herdou a companhia. Em 1902 Friedrich foi acusado de pedofilia em um escândalo envolvendo crianças e adolescentes e cometeu suicídio poucas semanas depois. Bertha Krupp, casada com Gustav von Bohlen und Halbach, era a única herdeira viva. Ao casar-se, Gustav acrescentou o sobrenome Krupp ao seu nome, e em 1903, após a vaga deixada por Friedrich, assumiu a direção da empresa.
A história dramática da família Krupp até então já era lendária e inspirou escritores e dramaturgos, como George Bernard Shaw, que teria buscado inspiração nos Krupps para escrever sua peça Major Barbara.
Em 1914 a Krupp praticamente detinha o monopólio da fabricação de armas na Alemanha. Nesse ano ela produziu um dos principais armamentos usados na Primeira Guerra Mundial: um canhão móvel de grande potência e eficiência chamado Big Bertha (em homenagem à sua esposa).
De acordo com os historiadores oficiais, os Krupp nunca tiveram interesse por política e eram inicialmente hostis ao partido nazista, mas em 1930 eles aparentemente mudaram de idéia e filiaram-se ao Schutzstaffel (SS). Gustav, que era presidente da federação das indústrias alemãs, foi nomeado por Hitler como presidente do fundo industrial cujos recursos ajudaram a financiar o governo nazista. Nesta época, Alfried, filho de Gustav, já administrava a empresa junto com o pai, embora só tenha assumido a direção da empresa em 1943. Depois que Hitler assumiu o poder na Alemanha em 1933, as indústrias Krupp tornaram-se o centro do rearmamento alemão. No mesmo ano as fábricas Krupp começaram a fabricar tanques. Durante a Segunda Guerra Mundial, Krupp foi o maior fornecedor de armas ao exército alemão. De acordo com William Manchester, autor do livro The Arms of Krupp, as empresas Krupp também construíram fábricas em países ocupados pela Alemanha e usaram o trabalho de mais de 100 mil escravos residentes em campos de concentração.
Em 1940, o presidente Getúlio Vargas chegou a negociar com a Krupp a construção de uma siderúrgica no Brasil depois de várias negociações fracassadas com empresas americanas. A negociação foi um dos momentos mais tensos nas relações entre o Brasil e os Estados Unidos, que ofereceu crédito federal para a criação da Companhia Siderúrgica Nacional. De acordo com documentos militares confidenciais revelados nos anos 90, havia planos de invasão do país pelos Estados Unidos caso as negociações fracassassem.
Em 1943, Adolf Hitler nomeou Alfried Krupp como ministro da economia de guerra. No mesmo ano a SS autorizou que ele usasse 45 mil civis russos como escravos em suas fábricas de aço além de outros 120 mil prisioneiros de guerra em suas minas de carvão. Devido à sua associação ao regime nazista, suas fábricas eram os principais alvos dos bombardeios aliados. No fim da guerra, dois terços das fábricas tinham sido ou destruídas ou danificadas.
Preso pelo exército canadense em 1945, Alfried foi julgado como um criminoso de guerra em Nuremberg. O seu pai Gustav também foi indiciado, mas foi poupado por estar velho e demente. Gustav morreu em 1950.
A Krupp alegou que não teve escolha ao aliar-se ao regime nazista. Contou com os melhores advogados americanos e lobbies que atendiam a interesses não declarados. Durante a Segunda Guerra Mundial várias empresas alemãs utilizaram-se de trabalho escravo de prisioneiros capturados nos territórios ocupados. A versão oficial é que essas empresas foram forçadas pelos nazistas a aceitar os escravos. No caso das indústrias Krupp, segundo Manchester, documentos obtidos nos arquivos do próprio Alfried Krupp mostram que o industrial deliberadamente solicitou o fornecimento de escravos, muitas vezes exigindo mais que os nazistas estavam dispostos a fornecer. Alfried foi considerado culpado e condenado a doze anos de prisão e a ter sua propriedade confiscada.
Mas sua prisão não durou muito. Em 1951 o alto comissário americano da zona de ocupação na Alemanha, John McCloy, ordenou sua libertação e devolveu sua propriedade e suas indústrias (McCloy foi presidente do Banco Mundial, diretor do Chase-Manhattan e da Fundação Ford, além de conselheiro militar e de política exterior de vários presidentes americanos, entre eles Kennedy e Reagan). Poucos anos depois de reassumir suas funções, Alfried já era um dos homens mais ricos do mundo e sua empresa já estava novamente entre as maiores corporações. Sua expansão multinacional começou pouco depois com uma fábrica construída em Jundiaí, no Brasil nos anos 60. Alfried Krupp faleceu em 1967.
Em 1968 a família abriu mão do controle da firma e em 1999 fundiu-se a outra empresa tradicional do Ruhrgebiet e seu principal concorrente: a Thyssen da cidade de Duisburg, formando a Thyssen-Krupp: a quinta maior corporação da Alemanha e um dos maiores produtores de aço do mundo.
Fontes e referências
- Site da Thyssen-Krupp.
The Arms of Krupp: The Rise and Fall of the Industrial Dynasty that Armed Germany at War - Peter Batty, The House of Krupp, Updated Edition : The Steel Dynasty that Armed the Nazis
- Lonely Planet Germany
, p. 600 (Essen): The Krupp Dynasty.
- Panfletos e livretos turísticos sobre a cidade de Essen e o Ruhrgebiet.
- Página da Wikipedia sobre a dinastia Krupp.
- Peter Batty, The House of Krupp, Updated Edition : The Steel Dynasty that Armed the Nazis













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