3.5.06

Quando tento explicar



Escrevo sem pensar como se estivesse a conversar. Se eu penso, não escrevo, ou escrevo o que não penso. O problema é que eu escrevo sem que a razão segure as palavras, que escapam soltas, selvagens, procurando descrever aquilo que vejo, ou as coisas que sonho, ou ainda o que eu sinto no momento em que elas, as palavras, se formam. E às vezes, enquanto escrevo, meus humores se invertem, e as palavras, se ainda livres, seguem o fluxo de suas correntezas, demolindo as afirmações mais sinceras. Tento consertar, mas não posso se não pensar. E se penso muito, é inevitável: entro em contradição, e já não sei mais o que eu acho, muito menos o que eu achava que sabia. E toda a aventura só não acaba sendo inútil porque ao escrever, sem pensar, revelo a mim mesmo nas palavras, coisas que os pensamentos ocultavam, ou que talvez soubessem, mas censuravam. Assim acredito que talvez haja mais verdade nas minhas contradições, que nas minhas análises mais cuidadosamente elaboradas (que são claramente mentiras tão descaradas quanto esta que acabo de redigir.) Mas o que é, afinal, essa verdade? Nada do que falo é verdade, logo o que escrevo, sem pensar, também não pode ser. Verdade mesmo talvez sejam apenas as coisas que escrevo depois de muito pensar, com cuidado de acertar e não errar: são as coisas que eu invento, que eu explico com palavras tão bem colocadas, que ninguém sequer desconfia que o que elas dizem é apenas fantasia. Então não me ouça, e nem me leia quanto tento explicar. Não sou um. Sou muitos a cada instante. Eu só me revelo nas minhas contradições, pois minhas contradições somos quem eu sou.

Marcadores: ,

4 Comentário

escreveu...

5/04/2006 01:02:00 PM  
escreveu...

5/08/2006 12:47:00 PM  
escreveu...

5/09/2006 04:03:00 PM  
escreveu...

5/13/2006 12:42:00 AM  

<< Voltar para a página principal