Picadinho

Ela trabalhava numa empresa alimentícia que comercializava aveia. Um certo dia, entrou um homem na empresa para cobrar uma dívida. Ele entrou e foi direto ao gabinete da diretora - uma viúva russa que herdara a empresa do marido. Ela, assistente da diretora, foi encarregada de tirá-lo de lá. Mas o homem resistiu. Foi grosso e não saía de jeito nenhum. Antes que ela pudesse chamar a segurança, percebeu a diretora aos beijos com o invasor, e desistiu.
Mas o beijo fora planejado. Era golpe baixo; estratégia de guerra. Era teatro. Era falso. A diretora cedeu. A dívida foi paga. E ele não a procurou mais.
Mas ele quis voltar. Não por causa da diretora. Quis voltar por causa dela, a assistente. Sentira prazer quando ela tentava empurrá-lo para fora. Era quase sexual o prazer de xingá-la, de ameaçá-la. Prometera fazer dela um picadinho, e sonhava com isto. Ele, que era descendente de canibais potiguaras ou caetés, ficava excitado só em lembrar.
Talvez tenha começado no aeroporto. O aeroporto estava fechado por ameaça de terrorismo. Um homem que esperava o vôo retornou para sua casa e encontrou sua esposa com o amante na cama. Abriu a torneira de gás, e saiu sem rumo. Chorou no banco da praça quando ouviu a explosão. Desapareceu por trás do palco. E como se tudo fosse apenas teatro, reapareceu sorridente na quitanda. Ela estava lá. Já não era assistente de diretora. Mas era ela. Eles se olharam, se confundiram, e o carro dela encontrou um poste na saída.
No outro dia, ele a procurou e encontrou novamente na mesma quitanda. Desta vez não apenas se olharam. Não falaram. Esqueceram o espaço e se beijaram, intensamente, e se desenharam.
E ele, que ainda amava outra com obsessão insana, começou a ser suavemente conquistado. O indecifrável fluía sem palavras, sem entendimentos, como se tudo estivesse certo. Descobriam-se como se estivessem desvendando algum mistério, sem pensar sobre o que estavam fazendo nem para onde estavam indo. Agiam como sonhadores, até que se perguntou o que era tudo aquilo. O que estava acontecendo?
Talvez tenha sido a capivara, ou o excesso de pessoas na noite de dezembro. Foi nesse dia que a peça terminou. Ele era um ser estranho, esquisito. Vivia numa ruína, de caixas cheias de livros, velas e castiçais. Não era uma casa. Era somente um espaço de paredes e chão. Ela quis conhecer o lugar, e ele a levou sem esperar. Ao chegar, com as roupas já no chão, tornou-se ele o personagem que era, e cumpriu a esperada promessa. Não era cena, era real. Os corações se aceleraram e o calor aumentou. A lâmina entrou fundo, penetrando pelo corte vertical. Um líquido quente escorreu pelos lados, e ela gritou. Mas não havia ninguém para ouvir. Como havia prometido, ele fez dela um picadinho. Partiu-a em milhares de pedacinhos. Depois comeu tudo e não deixou nadinha.










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