Carta de Tatyana para Oniêguin

Fiodor Moller - Tatyana escrevendo a carta para Oniêguin (1846). Palácio de Marly, em Peterhof (Rússia).
Yevguêni Oniêguin, longo poema de Aleksandr Púchkin em 400 sonetos, é a obra-prima máxima da literatura russa. Escrito no início do século XIX, conta a história de um dândi de São Peterburgo chamado Yevguêni (ou Eugênio) Oniêguin que recebe uma fortuna de herança e muda-se para o campo, onde tem uma vida pacata. Nem tanto. Lá faz amizade com um jovem poeta chamado Lensky e ganha o coração de Tatyana - uma mulher inteligente que se sente deslocada no meio rural. Depois de um tempo de convivência, Tatyana declara-se para Oniêguin através de uma carta. Só que Oniêguin despreza o amor de Tatyana e, para complicar, dança a noite inteira com a amada de Lensky durante o dia da santa de Tatyana. Lensky o desafia para um duelo. Oniêguin hesita, mas no final aceita, e o duelo termina com a morte do amigo. Algum tempo depois, Oniêguin volta a São Petersburgo e tenta reativar sua vida de bon vivant, mas sem sucesso pois já não é jovem como antes e muitos dos seus amigos estão casados. Uma certa noite, ele encontra seu antigo amigo de farras - o príncipe Gremin, e este o apresenta à sua belíssima esposa, que é... Tatyana! Depois disso, Oniêguin enlouquece e apaixona-se perdidamente por aquela cujo amor ele rejeitara anos atrás. Humilha-se a ponto de escrever uma longa carta para Tatyana, que não responde. Depois de vários dias de sofrimento, Oniêguin vai até o palácio de Gremin e ajoelha-se nos pés de Tatyana, e implora pelo amor dela em vão.
Yevguêni Oniêguin foi tema de óperas e várias adaptações para teatro e cinema. Eu traduzi o trecho abaixo usando a tradução literal de Vladimir Nabokov em inglês. Esta é a primeira versão. Devo melhorar a versificação depois que traduzir a outra carta.
Carta de Tatyana para Oniêguin
Aleksandr Puchkin (trecho do poema Yevgueni Oniêguin)
Eu te escrevo o que mais eu faria?
O que tenho mais a te revelar?
Podes querer a partir deste dia
Me punir com desprezo; me deixar.
Se por minha vida sem alegria
Tiveres um pingo de piedade
Não deixarias minha amizade.
No começo eu tudo ocultei
A vergonha de ti se escondia
Meu silêncio jamais revelaria
Se houvesse esperança, isto eu sei
De te ver uma vez cada semana,
Na nossa humilde casa serrana
Somente para te ouvir falar
Te dizer algo; depois refletir
Dia e noite, sem nada decidir
Até novamente te encontrar.
Mas dizem que és anti-social;
Que no campo tudo te entedia,
Nos falta, eu sei, a pose real
Mas te acolhemos com alegria.
Qual a razão de nos ter visitado?
Nesta pobre cidade esquecida
Nunca eu teria te encontrado
E a dor não seria conhecida.
A pouca experiência de vida
Com o tempo iria dissipar
Um amigo (quem sabe?) acharia
Que por mim podia apaixonar
E mãe e esposa me tornaria.
Outra! Não! Para ninguém nesta Terra
Eu teria dado o meu coração!
É vontade do Céu que nunca erra,
Que serei tua, sempre, meu guardião.
Minha vida foi promessa aberta
Que um dia tu virias a mim
Foi Deus quem te enviou, estou certa
Serás meu protetor até o fim.
Em sonho para mim te revelaste,
Eu nunca te vi, mas já te amava
Parei quando primeiro me olhaste
Tua voz na minh'alma ressoava.
Não, não foi só um sonho que sonhei!
Mal entraste, logo reconheci,
Fiquei tonta, em chamas me senti,
"É ele!" - para mim eu sussurrei.
Eras tu que eu sempre escutava?
A voz no silêncio na madrugada
E quando dos doentes eu cuidava
Uma oração que tranqüilizava
A dor da minha alma agitada?
E bem agora, querida visão
Não te vi na clara escuridão
Escorregando como fosse nada?
Não és tu que sobre o meu leito dança
E sussurra frases de esperança
Com amor numa noite encantada?
Quem és tu? O anjo bom que me alenta?
Ou o demônio cruel que me tenta?
Tira minha dúvida insistente
Pode ser bobagem ou ilusão
De alma tola, inexperiente
Que devia ir noutra direção.
Mas que seja! Meu destino agora
Só depende de ti, por quem chorei
Pelas lágrimas que eu derramei
Tua defesa peço nesta hora.
Sozinha, sem ninguém me entender
Assim eu vivo, aqui, me gastando
Minha razão está desmoronando,
E em silêncio devo perecer.
Eu espero. Um único olhar
Devolve esperanças ao meu ser
Ou faz este sonho interromper
Ai de mim - e sem pena acabar!
Eu fecho! Tenho pavor de reler.
Estou fraca de medo, de pudor
Tua honra é justo parecer,
Nela confio, seja como for.
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