Um encontro

(Dois homens chegam e sentam-se em um banco de praça urbana, semi-deserta e abandonada. Talvez daqui a duzentos anos, talvez mais, talvez menos)
PIX – Como é que você tem certeza que aqui é seguro.
SET – Eu vi ontem, na rede... o cara que foi pego aqui. Fazia dias que ele perambulava por aqui e ninguém percebeu...
PIX – Sim, mas pegaram ele.
SET – Pegaram por azar... ele pegou no sono e deu conflito com a freqüência de sincronização.
PIX – Ainda não estou seguro... tem guardas lá do outro lado, olhe...
SET – Sim, mas eles são autômatos. Você não viu aquela louca? Faz dias que ela não saía daqui. Pegaram ela e deixaram lá, deitada... nem se preocuparam em levá-la embora.
PIX – E as câmeras? Você disse que elas estariam desligadas, mas elas se movem...
SET – Eu disse que elas foram adulteradas, é diferente… Se elas tivessem desligadas aí sim seria um problema pois isto seria registrado e eles viriam consertar. Adulteradas, elas perdem os dados... não há risco... vão demorar um tempão para descobrir, isto se tiverem interesse. Eles abandonaram isto aqui, por isso é que é seguro.
PIX – E os insetos? Se formos picados por insetos não temos seguro...
SET (irônico) – Insetos? Ficou louco? Quem lhe contou isto? Se houvesse animais vivos por aqui isso tava lotado de gente... Inseto vivo vale ouro. É mais fácil ser contaminado por nanobots...
PIX (assustado) – Aqui tem nanobots?
SET – Não... acho que não.
PIX – Quando eu era criança eu tinha vontade de conhecer este lugar... mas tinha medo... minha mãe dizia que era um lugar muito perigoso...
SET – Você tinha mãe, Pix?
PIX – N... não... quis dizer...
SET – Pode falar... eu não tenho nada contra...
PIX – Eu tenho vergonha...
SET – Não se preocupe... eu não ligo, já disse...
PIX (com medo) – Se a gente morrer aqui ninguém vai saber...
SET – Não vai... isto não é fantástico? Você entra aqui e o sistema ignora que você existe...
PIX – Nem tanto... ele percebe sua falta...
SET – Percebe, mas é só não ficar aqui tempo demais, por isso que precisamos de objetividade!
PIX – A gente pode falar de tudo, aqui? Qualquer coisa?
SET – Sim, mas não use termos técnicos ou vocabulário underground... eu não confio nesses filtros. Eles conhecem os codinomes.
PIX (distraindo-se) – Veja, o que é aquilo?
SET – É um cachorro.
PIX – De verdade? Eu nunca vi um… o que ele está fazendo?
SET – Claro que não... é sincronizado. Pra começar, se fosse de verdade não agüentaria a aridez... Mas vamos ao que interessa. Temos pouco tempo. O contato que você me conseguiu não tinha passes, mas eu consegui 12 mil códigos. Todos limpos e livres de qualquer suspeita!
PIX – Doze mil? É muito... e se tiver vírus no meio?
SET – Não fale vírus...
PIX – Hã? ... desculpe... mas não é termo underground...
SET – Sei lá... parece... pode ser que peguem...
PIX – Dá para aproveitar quantos?
SET – Talvez uns 20. Eu consigo testar dois mil em uma hora... Preciso de seis horas... Estão prevendo uma tempestade elétrica para os próximos dias... talvez seja suficiente.
PIX – Vinte! E se tiver...
SET – Não tem! É limpo... Peguei de uma mesquita...
PIX – Ah... A gente fica com os vinte?
SET – Não, tenho que pagar metade para os caras... mas não preciso informar as identidades. Dá pra usar cinco dias seguidos ou uns 30 avulsos, talvez mais se a gente não se expor demais. Aqui levaram dez dias para descobrir um conflito de identidade. É só não pegar o metrô e ficar longe do distrito árabe. E você está me devendo um, então vou lhe passar quatro.
PIX – Certo.
SET – Agora não pense mais nesse assunto. Tome uma dose de Nepenthe ou Lethe quando sair daqui e ligue o sincronizador para voltar daqui a três dias.
PIX – E agora?
SET – Agora você pode ir.
(pausa)
PIX – Você não vai?
SET – Não.
PIX – Por que?
SET –... porque... eu estou esperando alguém.
PIX – Quem?
SET – … uma pessoa… não tem nada a ver com o que a gente falou.
PIX – Posso ficar?
SET – Não... é um assunto particular.
PIX – Eu não gosto disso...
SET – Veja... pegue (entrega dois adesivos) ... vá... pegue!
PIX – Eu não quero esquecer...
SET – Você ficou maluco? Se você sair daqui com essas informações, vão lhe matar... Tome seu Nepenthe agora!
PIX – Não... você vai me denunciar...
SET – Por que diabos eu ia denunciar você? Ficou louco? Você não confia em mim, Pix? Eu fiz a cortesia de dividir isto com você, e agora você acha que eu vou denunciar você...
PIX – Quem é que você vai encontrar?
SET – Uma amiga...
PIX – Quem?
SET – Você não conhece... é uma prestadora de serviços... decidi aproveitar e me divertir um pouco, já que vim até aqui e não serei detectado até o fim do dia.
PIX – V... você vai... vai fazer...
SET – Sim, vou!
PIX (contrariado) – Mas... p... por que?
SET – O que é que você tem, Pix? Eu não tenho muito tempo... Vá... tome logo esse Nepenthe... (descasca o adesivo e tenta colocá-lo no braço do Pix, que se levanta assustado. Set levanta-se e o agarra violentamente... para evitar que ele fuja) Veja bem, Pix... (nervoso) você está alterado... se continuar assim, vai colocar em risco a minha vida, e a sua também... entendeu? Eu não vou deixar você sair daqui... tem nanobots na sua mão. (solta Pix) Se você se afastar sem tomar esse Nepenthe, eu aciono...
PIX (quase chorando) – É mentira... se você acionar eles vão nos descobrir...
SET (tranquilamente) – Mas antes disso você morre e eu dou o fora.
PIX (desespera-se e chora) –Pensei que você gostasse de mim... você é cruel...
SET – Pix, Pix... meu caro Pix... você está mal, hein?... (aproximando-se dele) Olha só... era brincadeira, não tem nanobots... mas é melhor você passar uns dias na cidade e recarregar; você não vai durar muito desse jeito.
(Pix tenta abraçar Set desesperadamente, que o repele)
SET – O que é isso... (empurra-o) Sai! Sai! Você ficou louco?
PIX (implorando) – Não me deixe... por favor... fique comigo...
SET – Eu não vou lhe deixar... de onde você tirou essa idéia?
PIX – Você vai... você vai fazer... (chora)
SET – Vou... mas não é nada demais... Mais tarde nos encontraremos... Tome seu Nepenthe que tudo vai dar certo (tira uma ampola e uma seringa do bolso; prepara sem que Pix veja).
PIX (parando de chorar) – Eu não vou... vou fic...
(Set agarra Pix por trás, que começa a gritar... cobre sua boca e aplica-lhe a injeção entorpecente... ele reage, esperneia, grita, derruba Set e tenta fugir, mas logo começa a enfraquecer e cai sentado.)
SET (depois de um momento) – E então, Pix, como estão as coisas?...
PIX (ri como criança) – He... hehe.... legal, ... he... eu quero mais...
SET – Me dê sua mão, Pix... tenho um presente pra você
PIX – Um presente?
SET – Sim... me dê a mão...
(Pix dá a mão. Set descasca um adesivo de Nepenthe e cola na mão dele. Pix ri.)
PIX – P... presente... (ri)
SET – Bom menino... Você sabe ir para casa, daqui, Pix?
PIX – Hmmm... s...s... sei não...
SET – Eu vou lhe ensinar... venha cá... Está vendo aqueles homens de branco, ali...
PIX (rindo, como um idiota) – He... hehe...
SET – Ótimo... vá até eles, e pergunte como chegar em casa, e eles vão levá-lo... Vá... Diga que você se perdeu da sua mamãe... Eles são legais; não tenha medo, Pix... Vão lhe mostrar o caminho...
PIX – He... he... obrigado! Então eu vou pra casa... pra casa!... Você é um homem legal...
SET – Vá sim, Pix... qualquer dia nos veremos de novo... tchau!
PIX – Tchau...
(Pix fica em dúvida sobre para que lado ir; Set levanta-se para mostrar-lhe o caminho e ele sai de cena).
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