O Liberace de Bagdá

Samir Peter em concerto nos EUA (2005). Fonte da imagem: Blog do diretor Sean McAllister.
O excêntrico Wladziu Liberace figura no Guinness como o pianista mais bem pago do mundo. Seu estilo misturava clássicos e jazz. Foi um exímio marqueteiro da sua própria imagem. Usava roupas extravagantes, e esbanjava de sua riqueza. Ganhou vários prêmios e criou uma fundação para o ensino da música. Mas este post não é sobre esse Liberace.
Samir Peter foi o maior pianista do Iraque. Tocava para a Orquestra Sinfônica de Bagdá. Era um showman. Carismático e popular, tocava de Chopin a Cole Porter. No seu mundo, isolado do resto do mundo, foi rico e famoso. Se autodenominava o Chopin do Iraque, ou, o Liberace de Bagdá. Estudou música na Itália e na Hungria e nos anos 80, viveu o auge de sua carreira. Tinha hospedagem gratuita no Sheraton onde ganhava cento e trinta dólares por noite tocando para hóspedes ilustres e ocasionalmente para o próprio Saddam Hussein. Trabalhava também como professor de música. Tinha muitos alunos e era um homem rico. Casou-se com uma médica com quem teve quatro filhos. Boêmio incorrigível, vivia sempre envolvido em aventuras com outras mulheres.
Em 1991, na noite em que Bagdá foi bombardeada durante a guerra do golfo, ele compôs uma música triste e dramática. O Iraque isolou-se mais ainda do resto do mundo, e Samir caiu no ostracismo ao desentender-se com o regime de Saddam Hussein. Sua esposa - que foi responsável pelo parto de uma das filhas de Saddam - o deixou (por causa de suas aventuras extraconjugais) e mudou-se com dois dos seus filhos para os Estados Unidos.
Essa é a história que Samir contou no ano passado a Sean McAllister, jornalista que fora a Bagdá fazer um documentário sobre a vida no Iraque pós-Saddam Hussein. Sean encontrou Samir tocando em um hotel onde hospedavam-se jornalistas estrangeiros, mercenários e soldados. Tinha 56 anos e morava sozinho no porão do hotel em um quarto com janelas fechadas com tijolos. Não parecia em nada com um Liberace, mas continuava carismático. Falando inglês com sotaque italiano, revelou-se um homem simples e uma companhia agradável. O encontro e a amizade entre os dois motivou o filme cuja produção se estendeu pelos oito meses seguintes. Sean McAllister e sua câmera não largaram o pé de Samir, revelando o cotidiano de um decadente e outrora famoso artista iraquiano no meio de um país em guerra civil.
O encontro mudou a vida de Samir, que sonha em conseguir um visto para os Estados Unidos e levar a família junto. No filme, seu filho e sua filha, ambos com mais de 30 anos e solteiros, vivem na sua mansão de sete quartos num bairro cada vez menos tranquilo de Bagdá. Mas sua filha não quer sair do país. Ela sente falta de Saddam Hussein e culpa os americanos pela tragédia do país. Samir é anti-Saddam, mas também não é um ingênuo defensor da ocupação. A situação no Iraque se agrava muito durante a produção do filme, e os riscos de morte aumentam para Samir e principalmente para Sean. Quase todos os colegas de Sean foram seqüestrados. Depois de oito meses, Samir pediu a Sean que fosse embora, pois ele não tinha mais como garantir a sua segurança.

Samir e Sean recebendo prêmio no Sundance Festival
O 10º. Festival Internacional de Documentários: É Tudo Verdade, acaba em São Paulo neste domingo. Os ingressos são de graça. O Liberace de Bagdá será reexibido sábado (dia 09), às 19h00, no CineSESC. Vale a pena ver.

The Liberace of Baghdad
(Reino Unido, 2004)
75 minutos.
Diretor: Sean McAllister
Música: Samir Peter
Sites:
Blog do diretor: continua a história de Samir Peter e sua imigração para os EUA.
Site oficial
BBC - Storyville - The Liberace of Baghdad: entrevistas e video com Sean e Samir.
(Reino Unido, 2004)
75 minutos.
Diretor: Sean McAllister
Música: Samir Peter
Sites:
Blog do diretor: continua a história de Samir Peter e sua imigração para os EUA.
Site oficial
BBC - Storyville - The Liberace of Baghdad: entrevistas e video com Sean e Samir.
Marcadores: cinema










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