Mapa mundi

Eram imaginários, os elefantes roxos. Eram imaginários, mas eram tudo o que interessava. Os elefantes cinzas eram reais, eram imediatos, mas ninguém queria sê-los. Eram o atraso. O mundo era dos elefantes roxos. O mundo era roxo, e imaginário, como tudo que é roxo. O mundo era certo, preciso, planejável, calculado. O roxo poderia ser decomposto, estudado. Quem não tinha convicção de que o roxo era toda a verdade, estudava, filosofava e pesquisava a sua essência, dividia seus componentes, extraia seus reflexos, elaborava teorias roxas para explicar a natureza do mundo cinza. O mundo cinza era duro. Era duro e incerto. Era duro, incerto e sujo. Sujo, porque não era previsível, porque não era certo, nem preciso, nem calculável. Era um território concreto, um chão, uma fundação. O mundo roxo era leve. E praticamente todos os educados, os elefantes, obviamente roxos, viam no mundo roxo o mundo completo, absoluto. Para eles, a vida tinha explicações, tinha regras, tinha caminhos definidos. A incerteza diminuía dia após dia. O mundo roxo era um mapa, mas era um mapa muito bom. Era um mapa perfeito, tão perfeito que os elefantes cinzas podiam ser ignorados o tempo todo. Quase. O fim, nunca era roxo. Era cinza mesmo. Não havia fim no mapa roxo. Suas teorias eram perfeitas. Eram previsíveis. O mundo cinza era imperfeito. Era sujo. E o fim era sempre sujo. Um dia, esse mundo cinza tremeu sob as águas profundas e o mar levantou-se sobre a terra. Os elefantes cinzas correram para o alto das colinas. Os elefantes roxos padeceram sob ondas cinzas de um mundo imperfeito, sujo. Ondas que não existiam nas letras precisas de seu mapa roxo.
Marcadores: estorias










6 Comentário
Clique aqui para deixar seu comentário...
<< Voltar para a página principal