10.7.08

Ares e Chronos debaixo da Esfinge

Eu os vi por acaso. Ultimamente não tenho acompanhado o movimento das estrelas errantes, mas noites estreladas e sem nuvens sempre me fazem olhar para o alto. Foi então que num princípio de noite sem nuvens encontrei três pontinhos alinhados. Havia um planeta entre Regulus (a estrela mais brilhante da constelação de Leão) e Saturno. Era Marte, de passagem, que hoje estará bem perto de Saturno (do ponto de vista de nós, terráqueos). Eles estarão no oeste, pouco depois do por do Sol.



Se hoje as nuvens não deixarem, talvez amanhã. Não estarão tão distantes, mas a cada dia Marte irá se afastar mais. Saturno permanecerá mais tempo em Leão, pois sua órbita é lenta.


Passe o mouse sobre a imagem para ver o desenho da esfinge (o leão está sentado sobre os dois planetas). Imagem gerada pelo Starry Night Digital Download 6

(Se você acha que os pontos não parecem um leão de jeito nenhum, tente virar o desenho, ou leia este outro post.)

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30.6.08

10 Cenas em uma praça (únicas apresentações)


Detalhe do cartaz.

Em outubro de 2005 eu escrevi várias cenas experimentais para teatro enquanto buscava contribuir para o texto da peça Vestir o Corpo de Espinhos (uma criação coletiva produzida pelo Núcleo Experimental dos Satyros, e que esteve em cartaz em 2005 e 2006 e foi selecionada para representar o Brasil em um festival internacional de teatro na Alemanha.) Cheguei a escrever 19 cenas, e uma delas (Crepúsculo) acabou fazendo parte da peça. Na época, selecionei 12 que eu considerei as melhores cenas e publiquei no meu site.

O texto foi descoberto pelo diretor Péricles Martins que apresentou a seus alunos do curso profissionalizante da escola Recriarte / Actor Brasil. Durante o primeiro semestre deste ano eles ensaiaram 10 das 12 cenas e irão apresentá-las nos próximos dias 1o (terça) e 3 (quinta) de julho em São Paulo, às 21h. Serão as únicas apresentações.

São várias de cenas (sem ordem definida) que acontecem em uma praça, em um futuro hipotético (talvez daqui a uns 250 anos). É um mundo onde os espaços são monitorados mas há falhas e a praça - onde acontecem as cenas - é um desses lugares. As personagens vivem situações que são metáforas do presente, de valores, de temores ou de mitos. Falam de liberdade, de sonhos, de lembranças, de amor, de morte e de solidão, às vezes nas entrelinhas.

Eu pretendo assistir às duas apresentações. Quem estiver em São Paulo e quiser assistir está convidado. Seguem os detalhes abaixo.

10 cenas em uma praça (daqui a 250 anos)
Direção: Péricles Martins
Texto: Helder da Rocha
Realização: Actor Brasil / Escola Recriarte.
Elenco: João Ramos, Luciana Lima, Michele Moreira, Regina Schirmer, Sueli Rodrigues (curso profissionalizante intensivo, turma Sergio Viotti).
Local: Actor Espaço Teatral. Rua Fradique Coutinho, 994, Vila Madalena. 100 lugares. Tel.: (11) 3034-5598 / 3817-4222.
Data e Hora: dias 1o (terça) e 3 (quinta), às 21:00
Ingresso: 1kg de alimento não perecível ou R$5,00 (Campanha Social)

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21.3.08

Al Magestum


Sandro Botticelli: La Nascita di Venere (Galeria Uffizi, Florença)

Mustapha tinha uma coleção de estrelas. Não eram estrelas fixas como nos mapas do Al Magestum. Suas estrelas se espalhavam no tempo e no espaço e por todas ele era apaixonado. Mustapha sonhava com as estrelas com as quais elaborava constelações originais, únicas e inesquecíveis.

Nas suas relações mais intensas descobria territórios, planetas e luas. Mergulhava em oceanos alienígenas e ardia nos fogos siderais. Misturava-se com nebulosas vizinhas, acompanhava suas órbitas, conhecia suas galáxias e assistia ao nascimento de supernovas. Mustapha amava seus mundos e os explorava como um aventureiro. Fazia mapas, dava nomes aos astros e ligava os pontinhos. Universos nasciam em explosões apaixonadas e expandiam-se pelo espaço e pelo tempo. As forças gravitacionais cresciam, mas sempre havia um dia em que as órbitas se separavam. Mustapha era vulnerável a correntezas.

- As estrelas se movem.
- Mas todos os dias elas estão lá, certinhas.
- É ilusão. As constelações se desfazem. Quando o tempo é curto parece que é tudo claro, certo, preciso, mas o mundo real é sempre mais misterioso.
- Então nosso universo vai se desfazer?
- Certamente vai mudar, talvez se desfazer. Isto não impede que seja eterno.
- Como não?
- A eternidade está no instante.

E as correntezas podiam tudo menos mover a eternidade do instante, que engolia tudo em redemoinhos. Mustapha aprendeu a fazer buracos negros, singularidades, curvar o espaço e parar o tempo. Fez ventos e tempestades, agitou os oceanos, multiplicou as correntezas.

Até que descobriu a arte: um universo de reflexos que imitam a vida. E houve um dia em que ao contemplar a imagem móvel das estrelas sobre os mares, Mustapha ofuscou-se com a luz de uma estrela refletida. Era ilusão. A luz nascia de um universo de estrelas fixas, imutáveis, mas deixava-se refletir nas ondas reais que moviam-se na correnteza onde eram contadas histórias inventadas. A ilusão era sedutora. Mustapha apaixonara-se por um reflexo.

Mas dizem que houve uma noite em que, como na célebre obra de arte, Zéfiro soprou do leste e Vênus nasceu do mar, e por instantes antes do amanhecer um novo universo surgiu no mundo real. Mustapha, vulnerável às correntezas do vento, deixou-se incendiar pela estrela da manhã e em pouco tempo estava criando novas constelações, explorando mundos, desenhando mapas, como se tudo fosse de verdade. Ao amanhecer ela sempre desaparecia e em certas noites era apenas um reflexo. Mas sempre voltava com as marés ou ventanias, e juntos criavam instantes eternos.

Ainda era uma estrela imaginária. Procurada nas marés do dia não refletia o mesmo olhar. Queria tocá-la mas não podia. Havia um conflito de mundos. Nas noites solitárias ele ansiava pela correnteza que a traria de volta. Ontem a maré subiu e desceu, o vento veio e partiu e ela não apareceu. Várias noites se passaram. Um dia Mustapha encontrou-a na água refletida como uma estrela do mar, e a convidou.

- A maré está enchendo; logo será noite; os ventos estão começando e não há nuvens.
- Eu não posso.
- Aumentarei o vento pela manhã.
- O mar é fundo.
- Farei ondas maiores, marés descomunais.
- O mar me prende.
- Aumentarei a correnteza. Cedo ou mais tarde terás que soltar.
- Eu sei, mas não devo soltar. Quando o instante é eterno parece que é tudo belo, simples, mágico. O mundo real é sempre mais complexo.
- O mar é vasto. O instante é tudo. Sei que queres deixar-te levar.
- Quero.
- Então eu espero anoitecer.

Ela não veio. Nasceu o Sol e nada de Vênus. Mustapha voltou-se para seus universos imaginários e sua coleção de estrelas variáveis que surgem nas correntezas. Mas sempre que acorda antes do Sol ele ainda espera que ela apareça entre as nuvens.

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19.2.08

Falta de palavras

Não, o blog não morreu. Foi falta de assunto, ou excesso. Dá no mesmo. O ano começou, a Lua cobriu o Sol (e hoje à noite ela dá o troco), fiz viagens, vi peças e li livros, e nada de palavras. Histórias há. Faltam palavras. Talvez apareçam se eu fingir que elas existem. Talvez.

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15.1.08

De volta



Estou de volta. Eu mudei tudo, refiz os planos, deixei-me levar pelos acontecimentos, comprei passagens de última hora, cheguei nos lugares sem fazer reserva, mas no fim o mapa ficou quase igual ao planejado (eu tinha desistido da Tunísia e da Espanha). No fim, não são os lugares que interessam mas o que acontece neles (então o roteiro nem faz tanta diferença assim.) As fotos contam algumas histórias conhecidas. Eu precisarei de inspiração para transformar as outras em ao menos palavras.

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1.1.08

Auguri!

21.12.07

Viagens

Passarei algumas semanas sem escrever neste blog. Hoje embarco para Paris, onde fico até o dia 24, e em seguida irei para a Itália. Passarei o Natal em Firenze e o Reveillon em Palermo. No dia 4 ou 5 irei à Tunísia, onde ficarei até o dia 8 ou 9. Voltarei a Paris dia 10 e estarei em São Paulo dia 13. Vou viajar com mochilão com amigos que encontrarei na Itália. Estarei em Paris, Firenze, Pisa, Roma, Palermo, Agrigento, Catania, Mt. Etna, Tunis, Dougga, Sbeitla, El Jam e talvez dê tempo ver os ksares nas redondezas de Tataouine (onde foi filmedo Guerra nas Estrelas). Na volta eu contarei todas as histórias. Vou recuperar o Francês e Italiano e talvez aprender um pouco de Árabe :) Não sei se escrevei no blog, mas provavelmente postarei algumas fotos no Flickr. Bom final de ano para todos e até 2008!

15.12.07

O que é um plágio?

Se eu escrevo um texto, baseando-me em informações obtidas em fontes de domínio público, encontradas em enciclopédias e textos históricos sobre fatos que todos conhecem, sem acrescentar nenhuma pesquisa original, análise crítica ou conclusão, mas organizando as informações que eu considero mais relevantes dessa pesquisa, usando palavras, pontuação, ordem dos assuntos e ênfases escolhidas por mim, e ainda citando todas as fontes, esse texto é:
  1. Um plágio das fontes originais ou enciclopédicas onde eu o pesquisei?
  2. Um texto de domínio público que pode ser reproduzido livremente sem citar o autor (autor ou organizador?), já que não traz nenhuma informação, dado ou conclusão original?
  3. Um texto original que, apesar de não trazer nenhuma informação ou visão nova sobre o assunto, apresenta as informações sob uma forma própria, escolhida pelo autor, guiado pelo que ele considera importante?
Pesquisando nestas fontes eu escrevi este prefácio para uma tradução, em 1998. As fontes continham informações contraditórias, já que tratam da história de personagem histórico que viveu há mais de 700 anos e do qual não se possui dados precisos. Analisando as várias fontes, eu escolhi as que me pareceram mais coerentes (embora não tenha certeza e possa estar errado) e elaborei um roteiro que utilizei para escrevê-lo. Várias fontes estavam em outras línguas, principalmente inglês. O prefácio é uma biografia de Dante Alighieri. A partir do roteiro, eu escrevi, rescrevi, escolhi as palavras, as vírgulas, os parágrafos, e produzi o texto do qual o parágrafo abaixo foi extraído.
A maior parte do poder em Florença estava então nas mãos dos guelfos - opositores do poder imperial. Mas o partido em pouco tempo se dividiu em duas facções. A causa foi novamente uma rixa entre famílias, desta vez, importada da cidade de Pistóia. Os Cancellieri era uma grande família de Pistóia, descendentes de um mesmo pai que tivera, durante sua vida, duas esposas. A família Cancellieri se dividiu quando um membro desajustado da família assassinou o tio e cortou a mão do primo. Os descendentes da primeira esposa do Cancellieri, que se chamava Bianca, decidiram se apelidar de Bianchi. Os rivais, que defendiam o jovem assassino, se apelidaram de Neri (negros) em espírito de oposição. A briga tomou conta de Pistóia e a cidade acabou sofrendo intervenção de Florença, que levou presos os líderes dos grupos rivais. Mas as famílias de Florença não demoraram a tomar partido e, por causa de uma briga de rua (...)
A seguir explicarei os negritos.

Anos depois, foi publicado numa edição especial sobre Dante Alighieri da revista Entre Livros (que aparentemente deixou de circular mês passado), um texto sobre a vida de Dante, assinado pelo professor Dr. Carlos Berriel, PhD, da Unicamp. O texto é três vezes maior que o meu, mas tem vários parágrafos semelhantes, como este, por exemplo:
A maior parte do poder em Florença estava então nas mãos dos guelfos - opositores do poder imperial. Mas o partido em pouco tempo se dividiu em duas facções. A causa foi uma rixa entre famílias, oriundas da cidade de Pistóia. Os Cancellieri eram uma grande família dessa cidade, descendentes de um mesmo pai que tivera, durante sua vida, duas esposas. A família Cancellieri se dividiu quando um membro desajustado da família assassinou o tio e cortou a mão do primo. Os descendentes da primeira esposa de Cancellieri, que se chamava Bianca, decidiram chamar a si mesmos de Bianchi. Os rivais, que defendiam o jovem assassino, passaram a se identificar como Neri (negros), em espírito de oposição. O conflito tomou conta de Pistóia, e a cidade acabou sofrendo a intervenção de Florença, que prendeu os líderes dos grupos rivais. Mas as famílias de Florença não demoraram a tomar partido, posicionamento deflagrado por uma briga de rua (...)
Sim. Os negritos são as únicas diferenças. O texto publicado na Entre Livros foi revisado e (pelo menos este parágrafo) foi corrigido e melhorado em relação ao que eu publiquei no site. Não é apenas um parágrafo semelhante que aparece no artigo publicado na Entre Livros. 80% do meu texto foi usado. Eu publiquei uma comparação e destaquei os trechos semelhantes.

Escrevi um post na época e enviei uma carta para a editora, para o autor, e para a Unicamp, onde o autor é professor. Recebi resposta da editora (e indiretamente do autor), que publiquei neste outro post. Isto faz quase um ano. Há poucos dias recebi a seguinte resposta da reitoria da Unicamp, reproduzida abaixo:
Assunto: Denúncia de Plágio
De: Laisez Jael Cabral Puya Ernandes (email omitido)
Data: 12 de dezembro de 2007, 09h22
Para: Helder da Rocha (email omitido), ‘Ranali’ (email omitido)

Prezado Senhor Helder

De ordem do Sr. Chefe de Gabinete informo que:

Após submeter sua denúncia a nossa Procuradoria Geral, a mesma manifestou-se:
“Pelo exposto detalhadamente até aqui, a Comissão, diante de todo o apurado, conclui que o princípio da anterioridade do escrito apontado como reproduzido se justificaria se o autor pudesse comprovar ou esclarecer, sem qualquer dúvida, que é o criador original dos dados ou informações contida em seu texto. Havendo a coincidência informal e textual de dados bibliográficos a respeito de Dante, tal fato não parece, a nosso ver, ferir propriedades autorais reclamadas por Helder Rocha. Assim, em vista de todo o apurado, não julgamos consistente e clara a configuração de contrafação literária no caso da denúncia em tela”.

Na oportunidade colocamo-nos à disposição.

Atenciosamente

Laisez Ernandes
Assist. Chefe de Gabinete
O grifo é meu.

Se eu entendi a carta, de acordo com as conclusões da comissão formada pela Unicamp para analisar o assunto, o ocorrido não se trata de um plágio porque eu realmente não sou o criador original dos dados e informações que ali estão e eu não descobri novos fatos da história da Itália ou de Dante. Isto [e verdade. Todas as informações que eu usei eram conhecidas. Eu sou o criador original do texto, da forma de apresentar esses dados e informações. Copiar e assumir a autoria de um texto existente que traz informações que todo mundo já sabia não é considerado plágio?

Ou eu não sei o que é plágio ou a Unicamp não sabe o que é plágio. O que é plágio, afinal? Alguém tem uma definição? Eu posso recortar e colar trechos inteiros de um artigo da Enciclopédia Brittanica (que fale de assunto de conhecimento geral) assinar como sendo de minha autoria e incluir na minha tese de doutorado? Será que isto vale para qualquer universidade, ou somente se eu fizer meu doutorado na Unicamp?

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12.12.07

Não está no texto, está na vida!

A Santa. A Madonna, de Edward Münch
A Madonna, por Edward Münch

Uma faísca de luz numa noite clara de verão espalhou o fogo. Começou suave, mas fez desabar a casa onde ela dançava. As fundações estavam gastas mas ninguém tinha coragem de tocá-las com medo que as paredes caíssem, até que veio a guerra, e uma inocente faísca. As estruturas vulneráveis sucumbiram, o incêndio alastrou-se e tudo que era estável desintegrou-se em chamas. Nem parecia real, talvez fosse mero reflexo ou cena teatral. Ela, que multiplicara-se em personagens, já não cabia no lugar que tornara-se pequeno demais. Descobriu-se só no vasto e imprevisível mundo, e saiu da cena, livre, guiando-se pelos caminhos abertos pelo fogo.

Ele imaginou-se uma faísca e sonhou com o fogo, onde descobriu seu próprio rosto refletido como num espelho. “O homem”, imaginou ter ouvido alguém falar. Olhou novamente e sentiu as chamas, e novamente o eco refletiu “O fogo”. Era sonho, pois ao acordar só lembrava que era outro, apenas um ator, um ator medíocre. Não lembrava mais nada. Sua identidade parecia existir apenas no texto que esquecera. Era teatro. Mas quando acordava o seu coração continuava em chamas então confundia-se e não sabia se amava a atriz ou a personagem. Talvez nada disso exista, de fato, na vida. É um truque. Talvez esteja apenas no texto.

Nem tudo é real. Nem tudo é apenas teatro. É um truque. E o que é que a Madonna de Münch tem a ver com tudo isto? Não sei. Talvez eu tenha trocado um ou dois idiomas que se misturaram. Assista El Truco (e não leve muito a sério). A última chance é neste próximo domingo, dia 16 de dezembro às 18 horas, no teatro dos Satyros Dois, Praça Roosevelt 134, Centro. É a última chance mesmo! Não haverá outra. Ingresso: 5 a 20 reais. Reserve e chegue cedo pois vai lotar.

(O texto acima e a imagem não têm nada a ver com a peça. Sobre esta peça eu não escrevo nada sério; só viajo. Mas venha ver!)

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29.11.07

El Truco: últimas apresentações



O escritor inventou tudo, inclusive a si próprio. O bunker era imaginário, assim como os nomes dos atores, das personagens e das pessoas que inventavam os nomes das personagens. Eram reais apenas seus instintos primitivos, o medo, o amor, o ódio, o riso, a dor, a luxúria, o sonho e a loucura, a vida e a morte. A peça em si foi uma grande farsa, um ensaio interminável ou um delírio coletivo.

Mas faça de conta que existe uma peça. Faça de conta que existe um livro. Faça de conta que você existe, e que sabe quem é realmente. Faça de conta que é tudo verdade e que o bunker é um espelho. Veja seu rosto refletido. O reflexo é um truque: é apenas um raio de luz. A noite clara faz sonhar com a floresta. Quando acordar verá que são apenas atores.

O casamento nunca aconteceu. O duende nunca ganhou seu papel. A guerra nunca terminou e na fuga ninguém sobreviveu. A peça nunca sequer começou.

É um espelho. Um truque de luz, uma brincadeira. Assista El Truco, mas não leve muito a sério. Espaço dos Satyros Dois, Praça Roosevelt 134, Centro. Domingos dias 02, 09 e 16 de dezembro às 18 horas. Ingresso: 5 a 20 reais.

A história continua dentro da coxia.

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