A falta do Zero na contagem do tempo

HELDER DA ROCHA

Das previsões fatalistas de Nostradamus ao fiasco do bug do milênio, o ano 2000 passou causando grande ansiedade e uma mistura de esperança e medo entre os povos ocidentais. Mas, afinal, o que significa 2000? Por que escolhemos 2000 como um marco, um divisor de eras, uma data que marca um final ou um início? Qual a diferença entre 2000 e um outro ano qualquer?

Talvez a diferença esteja no fato de 2000 ser um número de três zeros. Nós, habituados a usar um sistema decimal, sentimos atração por números redondos e damos a eles grande importância. Comemoramos centenários, bicentenários porque eles têm 2 zeros e são, para nós, datas mais significativas. Assim, uma data de três zeros, marcando um período de mil anos, é tão rara que merece uma comemoração ainda maior. Num século marcado por descobertas científicas e revoluções sociais, 2000 se transformou em amuleto para todos os que se aventuravam em prever o futuro, dos escritores de ficção científica aos profetas do apocalipse.

Cristo nasceu pelo menos 4 anos 'antes de Cristo'. O verdadeiro ano 2000 ocorreu provavelmente em 1996 ou 1997

Uns dizem que estamos no terceiro milênio. Outros dizem que não. Os dois lados podem estar certos. A confusão começa porque 2000 não conta a passagem de dois mil anos, mas apenas 1999 anos! Começamos a contar a partir do ano em que acreditamos tenha acontecido o nascimento de Cristo. Na época, a Europa contava com os símbolos I, V, X, L, C, D e M. Ninguém sabia representar o valor zero. Estabeleceu-se que Cristo havia nascido no ano 1 (e não no ano zero). Logo, no ano 2 ele teria completado 1 ano, no ano 5 teria 4, e assim por diante. Então, no ano 2000 ele teria 1999 anos. Por isso, o 2000 verdadeiro, o milênio, só ocorrerá em 2001. Mas isto não importa tanto para nós. Os três zeros são mais significativos e dignos de uma comemoração pela nossa cultura de números arábicos e decimais.

No ano de 531 de nossa era, um abade romano chamado Dionísio Exíguo (ou Dionísio, o pequeno) escreveu uma carta a um certo bispo Petrônio reclamando do calendário usado para registrar as datas calculadas para a Páscoa. O ano, para a maior parte dos que se utilizavam de calendários, era 247 anno Diocletiani, e lembrava a morte dos mártires cristãos perseguidos pelo imperador romano Diocleciano. Mas Dionísio argumentou que tal calendário apenas lembrava um imperador famoso pela perseguição dos cristãos e que ele "preferia contar os anos a partir da encarnação de nosso Senhor". Dionísio então calculou que o nascimento de Jesus Cristo acontecera exatamente 531 anos antes. Esse ano ele chamou de "ano 1", ou I anno Domini nostri Jesu Christi (ano do nosso Senhor Jesus Cristo). A carta, assinada em LXXXI (531) A.D (Anno Domini), iniciou a contagem de anos que até hoje utilizamos.

Mas infelizmente os cálculos de Dionísio estavam errados. A verdadeira data do nascimento de Cristo é, até hoje, desconhecida. Os evangelistas não datavam suas obras e a únicas referências disponíveis são os fatos históricos relatados e datados pelos romanos, que utilizavam o calendário estabelecido por Júlio César em 46 a.C. O calendário romano começava em 753 a.C. - data da suposta fundação de Roma. Para os romanos, o ano 1 A.D. (ou d.C. - depois de Cristo) era 753 A.U.C. (Anno Urbis Conditae - ano da fundação da cidade). O Evangelho de Mateus afirma que Jesus nasceu na época do Grande Herodes, que morreu, segundo os registros romanos, em 749 A.U.C., ou seja, 4 a.C. Isto quer dizer que Cristo nasceu pelo menos 4 anos antes de Cristo! Para muitos estudiosos, o nascimento ocorreu entre 5 ou 4 a.C. Assim, o ano 2000 no calendário contado a partir do verdadeiro ano do Senhor já se passou, e ocorreu provavelmente em 1996 ou 1997.

A comemoração também ocorre numa data estranha. Qual aniversariante comemora seu aniversário sete dias depois do seu suposto nascimento? A data 25 de dezembro não foi escolhida arbitrariamente, mas nada tem a ver com o nascimento de Cristo. É a data em que se comemorava o solstício de inverno (hoje deslocado para o dia 21) e se prestava homenagens a deuses pagãos. O ano novo ficava mais distante ainda. O calendário de Júlio César começava em primeiro de Março. A mudança só veio a ocorrer com a reforma do calendário pelo papa Gregório em 1582. Na Inglaterra protestante, adversária do papa, o início do ano só passou a ser comemorado em primeiro de janeiro quase no final do século XVIII.